■ Soberania em jogo: enquanto Lula critica a medida que classificar o PCC e o CV como organizações terroristas e alerta para riscos ao PIX, opositores como Flávio Bolsonaro, Caiado e Zema celebram a decisão de Trump
Brasília – O governo brasileiro manifestou forte repúdio nesta sexta-feira (29), à decisão do Departamento de Estado dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas.
A medida, anunciada na quinta-feira (confira aqui) pelo governo de Donald Trump e com entrada em vigor prevista para o dia 5 de junho, gerou críticas contundentes do Palácio do Planalto a integrantes da família do ex-presidente Jair Bolsonaro, os quais são acusados de articular a ação em território americano.
Fontes ligadas ao senador Flávio Bolsonaro (PL) negam a acusação. “O governo norte-americano já tinha decidido sobre o assunto e era uma questão de tempo a medida ser sancionada”, disse uma das pessoas ouvidas.
Para a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a iniciativa representa um risco iminente de interferência estrangeira em assuntos internos, além de ameaçar a economia nacional, a cooperação internacional e inovações financeiras consolidadas, a exemplo do sistema PIX, provocando também intensas reações entre os principais pré-candidatos à Presidência da República.
A controvérsia teve início após o anúncio de que os Estados Unidos passariam a enquadrar os dois principais grupos criminosos brasileiros em suas listas de terroristas globais.
Em resposta, o Palácio do Planalto divulgou uma nota oficial para afirmar que medidas unilaterais podem prejudicar o combate ao crime. O documento governamental ressalta que o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital são organizações criminosas movidas pelo lucro e não grupos terroristas com motivações ideológicas, lembrando que a legislação brasileira já prevê penas duríssimas de até oitenta anos de prisão para os líderes dessas facções.
No âmbito das críticas à interferência externa, o governo federal defendeu de forma intransigente a soberania nacional. O texto oficial classifica como inaceitável qualquer intervenção estrangeira e direciona críticas veladas aos políticos da oposição que apoiaram a medida, chamando-os de falsos patriotas.
Fatos complementares divulgados pela imprensa internacional, como os jornais The New York Times e Financial Times, confirmam que o senador Flávio Bolsonaro se reuniu com o presidente Donald Trump na Casa Branca dois dias antes do anúncio, ocasião em que pediu enfaticamente a adoção da medida contra as facções.
A relação com os Estados Unidos e os potenciais impactos econômicos ocupam um espaço central nas preocupações do governo brasileiro. A nota do Planalto adverte que as ações unilaterais americanas podem reduzir o compartilhamento de inteligência policial entre os dois países.
O governo expressa o temor de que as sanções financeiras decorrentes dessa classificação possam afetar o funcionamento de bancos brasileiros e prejudicar inovações nacionais como o PIX.
A diplomacia brasileira reitera que o combate ao crime organizado exige cooperação internacional efetiva, baseada no respeito mútuo, e não a imposição de tutelas externas.
A repercussão da decisão americana atingiu em cheio o cenário eleitoral e provocou manifestações imediatas dos principais pré-candidatos à Presidência da República, evidenciando a polarização política em torno da segurança pública.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou estar triste e decepcionado com a atitude de Washington. O mandatário negou veementemente que as facções possuam as características de grupos terroristas estrangeiros e cobrou que os Estados Unidos colaborem extraditando criminosos brasileiros foragidos que se encontram em território americano.
Em contrapartida, os pré-candidatos da oposição celebraram o anúncio e utilizaram o episódio para desgastar o atual governo. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou um vídeo em suas redes sociais no qual agradece a Donald Trump e assume o crédito direto pela articulação da medida durante sua visita à Casa Branca.
O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), também pré-candidato, utilizou suas plataformas digitais para tecer duras críticas à postura de Lula, argumentando que a decisão americana expõe a leniência e as falhas na segurança pública nacional sob a atual gestão.
Na mesma linha, o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), outro nome forte na corrida presidencial, emitiu declarações endossando a classificação dos Estados Unidos e reprovando a reação de repúdio do governo federal.
A inclusão do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho na lista de organizações terroristas dos Estados Unidos configura um marco de tensão nas relações diplomáticas bilaterais e um forte catalisador para a disputa eleitoral no Brasil.
A decisão transcende a esfera da segurança pública e adentra o campo da soberania e da economia, uma vez que as sanções americanas possuem o potencial de impor restrições severas ao sistema financeiro brasileiro.
Paralelamente, as reações dos pré-candidatos à Presidência evidenciam a estratégia da oposição de internacionalizar pautas de segurança para fustigar o atual governo, enquanto o Palácio do Planalto busca reafirmar a autonomia do Estado brasileiro na condução de suas políticas internas e no enfrentamento da criminalidade.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















