Parlamentares desafiam decisões de Flávio Dino, ameaçam presidentes da Crefisa e do C6 Consignado com condução coercitiva e expõem a asfixia da CPI
Brasília – A 34ª Reunião da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, nesta segunda-feira (9), evidenciou um acirrado conflito institucional entre o Poder Legislativo e o Supremo Tribunal Federal (STF). Em virtude de decisões judiciais restritivas, retenção de provas e acusações de vazamento de dados, parlamentares transformaram a sessão em uma trincheira para denunciar o cerceamento das investigações sobre irregularidades financeiras.
O presidente do colegiado, senador Carlos Viana (Podemos-MG) explicou: “Uma comissão parlamentar de inquérito não existe para criar conflitos entre instituições; ela existe para cumprir um dever constitucional: investigar fatos graves que atingem o povo brasileiro.”
O encontro foi marcado por cobranças incisivas por responsabilizações de ministros da Suprema Corte e apontou diretamente para a omissão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), no resguardo das prerrogativas legislativas e na atuação de alguns ministros do STF, que estão criando obstáculos intransponíveis para a continuação das investigações no colegiado.
Viana elencou os pontos centrais que ameaçam os trabalhos da CPMI do INSS:
?Defesa contra acusações de vazamento: O senador rebateu a fala do ministro Alexandre de Moraes (STF) de que a comissão teria vazado conversas do investigado Daniel Vorcaro. Viana destacou que a própria imprensa (Jornal Nacional) esclareceu que a CPMI não foi a responsável e reafirmou que o colegiado trabalha dentro da lei.
?Reação a decisões do STF: Em resposta a uma decisão do ministro Flávio Dino que impactou os procedimentos de votação da comissão, Viana afirmou que o Parlamento utilizará os instrumentos legais para recorrer e buscar esclarecimentos.
?Busca por diálogo institucional: Como ações práticas, o senador anunciou duas medidas:
1. Apresentar um requerimento convidando o ministro Flávio Dino para dialogar no Congresso sobre suas decisões.
2. Solicitar uma reunião com o presidente do STF, ministro Edson Fachin, para debater a relação institucional entre os Poderes.
?Harmonia e Independência dos Poderes: Reforçando o conceito de freios e contrapesos, Viana argumentou que harmonia não significa submissão, silêncio ou ausência de divergências, mas sim o respeito mútuo às competências de cada Poder.
?Legitimidade do Congresso: Enfatizou que o Congresso Nacional não é um mero “espectador”, mas um Poder que exerce seu dever investigativo por delegação popular e em nome do povo brasileiro.
?Foco da CPMI e crítica a “blindagens”: Reafirmou que o objetivo da comissão não é criar disputas institucionais, mas dar respostas a milhões de aposentados e pensionistas. Por fim, criticou as decisões judiciais que “blindam” pessoas de prestarem depoimento, defendendo que as instituições só se fortalecem quando a verdade é enfrentada de frente.
Na abertura da sessão Carlos Viana registrou o não comparecimento de testemunhas consideradas essenciais ao inquérito. Leila Pereira, presidente da Crefisa, e Artur Azevedo, presidente do C6 Consignado, justificaram suas ausências amparando-se em uma interpretação da decisão do Ministro Flávio Dino (MS 40.781).
Viana contestou a manobra de forma contundente, afirmando que a deliberação do STF limitou-se “às quebras de sigilo, sem abranger as convocações”. Sublinhando a gravidade da recusa, o presidente determinou novas datas para as oitivas, alertando sobre a adoção de providências cabíveis, “inclusive de condução coercitiva”.
A crise ganhou proporções maiores frente às acusações proferidas pelo Ministro Alexandre de Moraes, que, em nota do STF, atribuiu à CPMI o vazamento de dados sigilosos do celular do investigado Daniel Vorcaro — figura central atrelada ao escândalo do Banco Master.
Em uma defesa institucional robusta, o Senador Carlos Viana detalhou os protocolos de segurança tecnológica da Comissão (como máquinas virtuais criptografadas e sistemas Simba/Sittel) e revelou um dado estatístico que escancara um gargalo probatório: “A CPMI recebeu apenas 0,25% do material que foi enviado à Polícia Federal. Foram enviados mais de 400 gigabytes, pela Presidência da Casa, de documentos, e a Comissão recebeu apenas um gigabyte, o que é um absurdo”.
Viana asseverou ainda que documentos citados pela imprensa como vazados — especificamente os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) de Vorcaro — jamais chegaram às mãos do colegiado.

O desabafo do relator
O tom investigativo e denunciatório consolidou-se com a fala do relator, deputado Alfredo Gaspar (UNIÃO-AL), que protagonizou um embate institucional de graves proporções ao proferir um discurso explosivo durante a sessão.
Sob a justificativa de defender milhares de aposentados e pensionistas vítimas de descontos ilícitos, o parlamentar partiu para o ataque direto contra o Supremo Tribunal Federal (STF). Ele acusou publicamente ministros da Corte de blindarem figuras de influência e atuarem para abafar as investigações contra esquemas financeiros fraudulentos, escancarando a fratura profunda entre os Poderes e cobrando uma reação enérgica do Legislativo.
Após justificar sua ausência prévia por severos problemas de saúde (sinusite e otite), desmentindo narrativas de que estaria fugindo dos trabalhos, Gaspar retomou a relatoria adotando uma postura frontalmente ofensiva.
O que deveria ser apenas mais uma sessão técnica sobre falhas e fraudes bilionárias nos sistemas do INSS e associações financeiras transformou-se em um palco de denúncias.
O relator revelou que a Comissão atingiu um ponto crítico de atrito, onde os obstáculos para chegar aos verdadeiros “chefões” da máfia não esbarram mais na falta de provas, mas na interferência deliberada das esferas mais altas do Judiciário.
Principais debates e denúncias
O epicentro da denúncia de Gaspar focou na atuação de três ministros do Supremo, cujas decisões têm paralisado os avanços da comissão investigadora:
☞ Contra Flávio Dino: O relator expôs o que considerou uma flagrante blindagem do filho do presidente da República e seus associados. “Dino contrariou entendimento do Supremo ao blindar Lulinha em CPMI”, disparou o deputado, questionando os dois pesos e duas medidas da Corte. “Por que, na CPMI da covid e na CPMI do 8 de janeiro, foram referendados os afastamentos de sigilo em bloco, e o STF referendou? Por que, para a medida de Roberta Luchsinger, Lulinha e companhia, isso é desmanchado?”
☞ Contra Alexandre de Moraes e Dias Toffoli: Levando as denúncias às últimas consequências, Gaspar associou a figura do banqueiro Daniel Vorcaro (do Banco Master) à cúpula do Judiciário. “O que o Juiz Alexandre de Moraes diria do Alexandre de Moraes [cidadão] com vínculo com Vorcaro?”, questionou de forma incisiva. Ele levantou dúvidas fortíssimas sobre os rastros do dinheiro desviado dos vulneráveis: “Quem garante que o dinheiro roubado de aposentado e pensionista não está aqui, nos 80 milhões? (valor que o escritório de advocacia da mulher do ministro recebeu de uma suposto contrato de assessoria com o Banco Master).
Quem garante que os 35 milhões do Sr. Toffoli, que manteve o caso na gaveta, do Master e do INSS, quem garante que também não tem dinheiro de aposentados e de pensionistas?”.
As falas do relator evidenciam o impacto político e as agendas conflitantes nos bastidores de Brasília. Ao expor as “entranhas” de um esquema que vai de associações irregulares ao Banco Master, a CPMI tornou-se alvo de uma grave crise institucional.
O posicionamento incisivo do relator dividiu a própria Comissão: enquanto aliados da oposição, como o senador Eduardo Girão (NOVO-CE), endossaram o ataque afirmando que Gaspar “lavou a alma do brasileiro”, governistas e parlamentares insatisfeitos, a exemplo do deputado Ribeiro Neto (PRD-MA), acusaram a relatoria de falta de imparcialidade, rotulando seu discurso como o de “um advogado de defesa de uma das partes”.
No entanto, para o relator, a narrativa de imparcialidade é ofuscada pelo acobertamento em alta escala. Gaspar argumenta que, enquanto a CPMI tenta responsabilizar quem desviou recursos de idosos, o sistema opera para garantir a intocabilidade: “Neste Brasil, manda quem tem poder. Na minha concepção, não vai acontecer nada com Alexandre de Moraes, mas eu não poderia deixar de vir aqui e expor a minha indignação.”
Sem recuar no tom das acusações, Alfredo Gaspar concluiu sua fala sintetizando o cenário de esgotamento republicano. O relator emitiu um ultimato contundente ao Congresso Nacional, alertando que a inércia parlamentar que referenda a corrupção apadrinhada pela Justiça.
Culpando a desordem do país, finalizou com uma sentença severa: “Este Brasil está uma zona e desmoralizado. Ou o Congresso Nacional tem postura e assume a responsabilidade de impor limites à República ou fecha os Poderes da República, que não estão servindo para nada!”. A comissão segue mergulhada no impasse de como prosseguir na caça aos desvios dos aposentados enquanto enfrenta diretamente os magistrados da Suprema Corte.
Na sequência, parlamentares como Kim Kataguiri, que saiu do partido União Brasil tornando-se o primeiro deputado federal do recém criado Partido Missão, e Júlia Zanatta (PL-SC) reiteraram os questionamentos em torno das alegadas conexões entre Moraes e Vorcaro, exigindo que o ministro se retrate das falsas acusações de vazamento feitas contra o Congresso.
O clímax político das deliberações recaiu na responsabilização da própria cúpula do Congresso Nacional. O senador Eduardo Girão (NOVO-CE) expôs tentativas de sabotagem contra a comissão e interpelou diretamente a liderança do Senado sobre a falta de prorrogação do mandato da CPMI.
Essa suposta letargia institucional gerou reações jurídicas práticas: o deputado Marcel van Hattem (NOVO-RS) anunciou no microfone que está acionando judicialmente não apenas Alexandre de Moraes, mas também o Presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
A responsabilidade de Alcolumbre torna-se o foco central da crise: sua inação frente ao bloqueio dos processos contra os magistrados (incluindo pautas envolvendo Toffoli e Moraes) e a recusa em estender a investigação representam, segundo os membros, um salvo-conduto à impunidade.
No transcorrer da 34ª sessão revelou que a CPMI do INSS transcendeu sua apuração original para se consolidar como o epicentro de uma fissura estrutural na República.
Ao provar documentalmente a retenção de 99,75% dos dados investigatórios por parte da Polícia Federal e expor a ingerência das decisões dos ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes, os parlamentares traçaram o diagnóstico de uma investigação sob risco de asfixia.
O desfecho dessa crise repousa, agora, não somente sobre o embate com a Suprema Corte, mas sobre o peso histórico das decisões de Davi Alcolumbre. O silêncio e a omissão da Presidência do Senado na blindagem dos poderes investigativos do Parlamento poderão determinar, em última instância, se o escândalo do Banco Master e os rombos na previdência permanecerão abafados.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















