Michelle Manieri, que autorizou acordos que lesaram 5 milhões de aposentados, é promovida, retorna ao poder em cargo estratégico, reavivando críticas sobre falta de responsabilização e desmandos do PDT na Previdência Social
Brasília – A decisão da presidente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Ana Cristina Viana Silveira, de promover Michelle Manieri para coordenadora-geral de atendimento reavivou o escândalo dos descontos indevidos que lesaram aproximadamente 5 milhões de aposentados e pensionistas brasileiros. A nomeação coloca em evidência as contradições do governo Lula na gestão da crise de confiança que assola a autarquia desde 2023, quando a fraude foi revelada, e levanta questões sobre o compromisso real da administração com a transparência e a responsabilização, expondo os desmandos do PDT na Previdência Social, acusa a oposição.
Manieri coordenou o grupo de trabalho responsável por fiscalizar acordos de cooperação técnica (ACTs) entre o INSS e entidades associativas. Nessa função, ela emitiu pareceres técnicos favoráveis para que o instituto firmasse contratos com a Ambec (Associação de Aposentados Mutualista para Benefícios Coletivos) e a AAPB (Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil), ambas posteriormente investigadas por realizarem descontos considerados irregulares nos benefícios de aposentados e pensionistas. Seu novo cargo a coloca como responsável pelo funcionamento de todas as agências do país, realização de mutirões, distribuição de recursos e administração do orçamento operacional do atendimento em todo o Brasil.
Para vozes da oposição a nomeação é um acinte: “Voltou à cena do crime”, acusaram.
O escândalo em números
A fraude no INSS atingiu proporções alarmantes. Conforme relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) divulgado em março de 2026, o valor total desviado pode chegar a R$ 3,3 bilhões, se somados aos empréstimos consignados, os valores sequer podem ser estimados.
A roubalheira no INSS envolveu uma estrutura sofisticada que incluía entidades externas, servidores públicos, lobistas e empresários em uma rede de operadores que lesaram sistematicamente os beneficiários. Sindicatos ligados ao PT foram blindados e CPMI do INSS encerrada após o governo interferir com toda a força e poder inerentes ao Poder Executivo no Brasil.
Segundo documentos da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal, a Ambec registrou uma média de 846 novas filiações de beneficiários por hora, número que despertou suspeitas óbvias sobre a legitimidade dos acordos. A AAPB, por sua vez, apresentou mais de 46 mil supostos associados sem termos de adesão assinados, mas ainda assim recebeu parecer favorável de técnicos, incluindo Manieri.
Esquema começou no governo Bolsonaro, tornando-se “bíblico” sob Lula
Os acordos polêmicos começaram a ser firmados ainda no governo Bolsonaro. Cinco entidades (AAPB, AAPPS Universo, Unaspub, ABCB/Amar Brasil e CAAP) assinaram seus ACTs entre 2021 e 2022. A AAPEN (anteriormente denominada ABSP) foi a última a firmar seu acordo, em 2023, já no governo Lula.
Essa cronologia tornou-se central no debate político sobre responsabilidades, com o governo tentando distribuir culpas entre as gestões anteriores, mas foi no Governo Lula que o escândalo tomou proporções de uma “praga bíblica” sob o comando do PDT, que recebeu de Lula a Previdência Social “de porteira fechada”, e não demorou para Carlos Lupi, promover o que sempre fez ao comandar um cargo no alto escalão: desmandos, incompetência e suspeitas cabeludas de corrupção. Foi demitido pelo próprio Lula para aliviar a barra.
Em abril de 2025, para tentar administrar os danos, o governo federal suspendeu todos os acordos de cooperação técnica e anunciou a devolução dos descontos indevidos aos aposentados. Com regras draconianas, muitos jamais terão o dinheiro roubado de volta.
O ressarcimento começou a ser processado na folha de pagamento de maio de 2025, com mais de 4 milhões de beneficiários recebendo as devoluções até fevereiro de 2026. Contudo, a medida não encerrou as controvérsias sobre quem deveria ser responsabilizado pelos danos causados.
Responsabilidade questionada
O relatório paralelo da CPMI do INSS, apresentado pela base governista, apontou Manieri como responsável por estudos e notas que avaliavam como tecnicamente viáveis os acordos, mesmo diante das inconsistências verificadas em auditorias. O documento afirmou que “o estudo concluiu que a Ambec possuía capacidade técnica e condições de operacionalizar o ACT”, citando apenas a declaração da própria entidade como comprovação, sem análises independentes mais rigorosas.
Geovani Batista Spiecker, ex-servidor citado pela Polícia Federal como participante das decisões favoráveis aos acordos polêmicos, também permanece sem punição clara. A falta de responsabilização de servidores-chave alimenta a percepção de que o sistema de accountability (prestação de contas) no INSS é frágil e que o governo não está comprometido com uma verdadeira reforma institucional.
Divisão política e rejeição da oposição
A CPMI do INSS terminou seus trabalhos em março de 2026 sem um relatório final consensual. O relatório da oposição, apresentado pelo deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), propunha o indiciamento de 216 pessoas, incluindo Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha), filho do presidente, e o lobista Antônio Carlos Camilo, apontado como figura central no esquema. O texto foi rejeitado por 19 votos a 12 na comissão ao custo de liberação de emendas parlamentares aos que aderiram ao governo.
A base governista, porém, rejeitou essas acusações, argumentando que não havia provas suficientes de envolvimento direto de membros da família presidencial. Em nota oficial, o INSS declarou que todos os servidores nomeados passaram por apuração interna, verificações da CGU e análise do governo federal, sem identificar penalidades vigentes nem processos acusatórios. “Não há, portanto, qualquer impedimento ou irregularidade para a nomeação”, informou o órgão, argumentando que Manieri atendeu aos critérios legais para ocupar o cargo.
Contudo, a oposição e críticos do governo apontam que a promoção de Manieri representa uma falta de responsabilização pelos erros cometidos. Para esses críticos, a decisão de Ana Cristina Silveira sinaliza que o governo não está disposto a fazer uma limpeza profunda na instituição, mantendo em posições estratégicas servidores envolvidos na autorização de acordos que prejudicaram milhões de brasileiros.

Desafios da nova gestão
Ana Cristina Silveira, que assumiu a presidência do INSS em 13 de abril de 2026, substituindo Gilberto Waller Júnior após apenas 11 meses de gestão, prometeu entregar uma “Previdência mais digna para o brasileiro”. Servidora de carreira desde 2003, com formação em Direito, ela enfrentará o desafio de restaurar a confiança em uma instituição abalada por escândalos.
Em sua primeira entrevista no cargo, em junho de 2026, Silveira informou que a fila de atendimento do INSS caiu para 1,9 milhão de pessoas, o menor patamar desde outubro de 2024, e que o instituto calcula a necessidade de repor 10 mil servidores. Contudo, a manutenção de Manieri em posição estratégica sugere que a nova gestão pode não estar disposta a fazer rupturas significativas com as práticas anteriores.
A decisão levanta questões sobre se o governo está realmente comprometido com a transparência e a responsabilização, ou se está buscando apenas apaziguar as críticas sem implementar mudanças estruturais profundas. Enquanto aposentados e pensionistas ainda aguardam o ressarcimento completo dos valores desviados, a instituição mantém em posições de poder aqueles que facilitaram a fraude.
O que esperar?
O escândalo do INSS permanece como um dos maiores desafios políticos do governo Lula, alimentando críticas da oposição sobre a capacidade de gestão e a disposição de punir responsáveis por atos que prejudicaram milhões de brasileiros. A promoção de Manieri, longe de encerrar a controvérsia, a intensifica e reforça a percepção de que a instituição segue operando sob uma lógica de proteção corporativa em detrimento da responsabilização e interferência política de caciques do PDT.
A credibilidade do INSS dependerá não apenas de métricas operacionais como redução de filas, mas também da demonstração clara de que aqueles que cometeram erros serão responsabilizados. A manutenção de Manieri em cargo estratégico sugere que essa lição ainda não foi aprendida e a resposta das urnas pode responder melhor essa questão.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















