Candidato do Avante defende corte de ministérios e taxação de bets, em desempenho analisado como “não convincente”
Brasília – O candidato à Presidência da República pelo Avante, Augusto Cury, participou na noite de sábado (29), da última sabatina da série promovida pela TV Globo com os presidenciáveis, conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli direto dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro. A entrevista, exibida logo após o Jornal Nacional, encerrou a rodada com os seis candidatos mais bem posicionados na pesquisa Quaest de 14 de agosto, que ouviu 2.004 pessoas com margem de erro de dois pontos percentuais.
Psiquiatra e autor de best-sellers, Cury chegou à sabatina com 2% das intenções de voto no primeiro turno, segundo o levantamento, e 16% de rejeição, o menor índice entre os principais concorrentes. A participação ocorreu pouco mais de um mês antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro, em uma disputa que, segundo as pesquisas, se concentra entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
A sabatina ocorreu em um cenário de polarização acentuada e de sensibilidade eleitoral a indicadores econômicos. A Quaest de 14 de agosto apontou Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 31% de Flávio Bolsonaro, e empate técnico no segundo turno, com 43% a 40%. Os demais presidenciáveis sabatinados ao longo da semana foram Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e o próprio Lula, além de Flávio Bolsonaro.
O contexto econômico dá o tom da disputa. Uma análise geral identifica Lula como o presidente com aprovação mais sensível à inflação e ao desemprego em três décadas, com cada choque de um ponto percentual no índice de miséria associado a queda em sua avaliação. No mesmo período, a dívida pública brasileira foi estimada em 81,9% do PIB, em trajetória de crescimento, tema que atravessou as respostas do candidato.
Foi nesse ambiente que Cury apresentou um plano de governo marcado por promessas de enxugamento da máquina pública, modernização tecnológica e ampliação de programas sociais, em uma tentativa de se posicionar fora do eixo Lula-Flávio.
“A política nacional e internacional é psicótica, esquizofrênica. Eu posso ter na minha mente valores da direita, do centro e também valores sociais”, declarou, em uma das falas mais repercutidas da semana.
O que Cury defendeu na sabatina
Na entrevista à Globo, o candidato afirmou que a dívida pública está “em níveis estratosféricos” e que o governo precisa ser responsável. Para reduzi-la, propôs taxar as apostas online, as chamadas bets, em pelo menos 50%, além de uma auditoria “muito séria” na gestão pública, a revisão de 50 mil cargos comissionados e a revisão de contratos públicos para combater a corrupção.
Sobre a máquina pública, Cury prometeu cortar de 8 a 10 ministérios, embora tenha evitado dizer quais, condicionando a decisão a uma “análise criteriosa”. Em contrapartida, defendeu a criação de um Ministério da Segurança Pública e de uma secretaria executiva de Inteligência Artificial e Robótica.
”Se nós não tivermos uma secretaria executiva ou o Ministério da Inteligência Artificial e Robótica, o Brasil vai ser atropelado e pode ser que haja dezenas de milhões de desempregados, e ninguém fala sobre isso”, disse.
Na área social, o candidato afirmou que manterá o Bolsa Família para beneficiários que conseguirem emprego com carteira assinada ou se tornarem microempreendedores individuais, e defendeu reajuste do programa, com potencial de incluir “mais 10 ou 15 milhões de pessoas”.
Para o salário mínimo, propôs reposição da inflação mais ganho real de 1% ao ano, com elevação do piso entre 50% e 60% ao fim de quatro anos, e passagem dos atuais US$ 300 para US$ 600 em oito a dez anos.

Economia, custo de vida e o debate sobre preços
Embora a sabatina não tenha se debruçado especificamente sobre a inflação de alimentos, combustíveis e energia elétrica, o tema do custo de vida atravessou as respostas do candidato, sobretudo nas propostas de salário mínimo, Bolsa Família e responsabilidade fiscal. Cury condicionou a redução da taxa Selic à disciplina fiscal e evitou antecipar mudanças no arcabouço, classificando como “eleitoreiro” prometer alterações antes da conclusão dos estudos.
A abordagem conecta-se diretamente ao humor do eleitorado, uma vez que a análise do eleitorado aponta que a aprovação presidencial é particularmente vulnerável a choques de inflação e desemprego. Nesse sentido, as promessas de ganho real no salário mínimo e de ampliação do Bolsa Família funcionam como resposta eleitoral à pressão sobre a renda disponível das famílias, ainda que o candidato não tenha detalhado a fonte de financiamento dessas medidas.
No plano da Previdência, Cury se declarou contrário a uma nova reforma, apostando no aumento da produtividade com uso de inteligência artificial e robótica e no estímulo ao empreendedorismo para ampliar a base de contribuintes. Para isso, propôs dividir o BNDES em duas frentes, uma voltada às grandes empresas e outra às microempresas, e financiar 10 milhões de microempresas para “aumentar a massa do pagamento de impostos”.
Relação com a aprovação do governo e a percepção pública
A sabatina de Cury ocorre em um momento em que a economia é fator central na avaliação do governo. Dados da Quaest de 2025 já indicavam aprovação de 46% e desaprovação de 51%, e a análise da Folha de 2026 reforça que a popularidade presidencial é fortemente afetada por inflação e desemprego. Nesse contexto, o discurso do candidato busca capturar o eleitorado insatisfeito com o custo de vida, combinando promessas de responsabilidade fiscal com ampliação de programas sociais.
O posicionamento, porém, esbarra em críticas sobre a viabilidade das propostas. Ao ser questionado sobre o detalhamento do ajuste fiscal necessário para reduzir a dívida, Cury não apresentou números específicos, e suas promessas de corte de ministérios e de avaliação de servidores públicos ficaram sem definição sobre critérios e consequências.
Cury é o candidato com menor rejeição entre os principais nomes, o que lhe confere potencial de crescimento, e seu discurso de “mente capitalista, coração social” busca ocupar um espaço de centro, particularidade ainda pouco explorada pelos candidatos do mesmo campo ideológico, embora muitos atribuem um viés à esquerda do discurso do candidato do Avante. A nova pesquisa Quaest, com entrevistas entre 30 de agosto e 1º de setembro e divulgação prevista para 2 de setembro, incluirá Cury em cenários de segundo turno, o que permitirá medir o efeito da exposição na sabatina sobre suas intenções de voto.
Por fim, a sabatina, de Augusto Cury na TV Globo consolidou a imagem de um candidato outsider, com discurso marcado por promessas de modernização, enxugamento do Estado e ampliação de programas sociais, mas expôs fragilidades na fundamentação de suas propostas, especialmente no campo fiscal. Em uma eleição em que a economia e o custo de vida são fatores decisivos para a aprovação do governo e o humor do eleitorado, a falta de detalhamento sobre o financiamento das medidas pode limitar o alcance de seu discurso. O desempenho avaliado como “não convincente” contrasta com o potencial de crescimento indicado pela baixa rejeição do candidato.
Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














