A corrupção segue entre as maiores inquietações dos brasileiros, mas perdeu força como fator autônomo de decisão eleitoral. A dois meses das urnas, a eleição presidencial de 2026 confronta Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em busca do quarto mandato, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ambos carregam investigações e suspeitas em suas campanhas — e, ainda assim, os levantamentos sugerem que o tema, historicamente decisivo em pleitos anteriores, deixou de deslocar eleitores de seus campos.
Cenário
O Datafolha divulgado na sexta-feira (21), o primeiro após o início oficial da campanha, mostra Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro, seguidos por Ronaldo Caiado (5%), Renan Santos (4%), Romeu Zema (3%) e Augusto Cury (2%). Em eventual segundo turno, o petista lidera por 47% a 43%. O dado, contudo, convive com uma contradição aparente: a corrupção permanece no topo das preocupações nacionais, mas não parece converter-se em transferência de voto.
Governo
A disputa ocorre sob avaliação dividida da gestão. O mesmo Datafolha registra 50% de desaprovação ao governo Lula, contra 47% de aprovação, com a avaliação ruim ou péssima subindo de 38% para 41%. O desgaste econômico — marcado pela pressão sobre alimentos, combustíveis e energia elétrica — compõe o pano de fundo sobre o qual os escândalos são recebidos pelo eleitorado, em um cenário que historicamente favorece a oposição.
Campanha
A oficialização das candidaturas, em meados de agosto, inaugurou a fase mais agressiva da disputa. Flávio Bolsonaro definiu sua linha de ataque ao afirmar que “a corrupção chegou ao gabinete do presidente”, em referência ao ex-chefe de gabinete da Presidência Marco Aurélio Santana, o Marcola, que teria tido despesas pessoais custeadas por uma lobista amiga do filho mais velho de Lula. O senador passou a explorar o tema nas redes sociais, apostando no desgaste do adversário.
Defesa
Do outro lado, a campanha petista enfrenta as investigações que miram Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, alvo de inquérito da Polícia Federal sobre tráfico de influência e corrupção autorizado pelo ministro do STF André Mendonça em 30 de julho, além de apurações ligadas a fraudes em descontos de aposentados do INSS. Lula declarou confiar no filho, mas afirmou que não pedirá o encerramento das apurações — gesto que busca conciliar lealdade familiar com a aparência de respeito às instituições.
Carestia
O custo de vida emerge como variável central do humor do eleitorado. A pressão inflacionária sobre itens de consumo básico tende a reduzir a renda disponível das famílias e a ampliar a percepção de que o governo não entrega resultados concretos. Analistas apontam que, em cenário econômico adverso, o voto é guiado mais por fatores do cotidiano do que por pautas abstratas como a corrupção. Os dados oficiais, porém, mostram alívio recente: o IPCA fechou julho em 0,07%, com o acumulado em 12 meses recuando a 4,44%, abaixo do teto da meta de 4,5%.
Percepção
A conexão entre corrupção e aprovação governamental é menos direta do que sugere o senso comum. Pesquisa Datafolha de março de 2026 indicava saúde (21%) e segurança (19%) à frente dos problemas citados espontaneamente, com a corrupção mencionada por apenas 9%. O levantamento concluiu que os escândalos do caso Master e dos descontos no INSS ainda não haviam afetado de forma significativa a percepção pública. O brasileiro é permissivo com o deplorável comportamento de seus dirigentes. Trata-se de um fenômeno de difícil explicação.
Assimetria
O dado ganha contornos mais nítidos quando segmentado por voto. A preocupação com corrupção é menor entre eleitores de Lula (4%) do que entre os de Flávio Bolsonaro (14%), o que sugere que o tema opera de forma assimétrica e fortemente mediada pela identificação partidária. Historicamente, a corrupção chegou a ser citada como principal problema do país por 34% a 37% dos brasileiros no segundo mandato de Dilma Rousseff, mas o índice se estabilizou em um dígito, entre 3% e 9%, a partir do governo Bolsonaro.
Método
Há divergência metodológica relevante entre as fontes. Pesquisa Ipsos de julho aponta 36% dos brasileiros dizendo que a corrupção é o maior problema do país, número bem superior ao do Datafolha. A diferença decorre, em grande parte, do método: a Ipsos apresenta uma lista de temas para o entrevistado escolher, enquanto o Datafolha usa pergunta aberta, sem indução. Ainda assim, mesmo no levantamento da Ipsos, candidatos investigados seguem entre os preferidos, o que reforça a tese de tolerância eleitoral.
Perfis
Estudo qualitativo do Monitor do Debate Público, do IESP-UERJ, conduzido em junho com grupos de WhatsApp, encontrou a corrupção presente em todos os seis perfis de eleitores analisados, mas com pesos distintos. Entre bolsonaristas convictos, o tema funciona mais como elemento retórico do que como definidor de voto, com a rejeição ao PT operando como critério autônomo. Já bolsonaristas moderados e lulodescontentes exigem provas e investigação, e estes últimos se mostram disponíveis a mudar de voto diante de comprovação concreta.
Especialistas
O cientista político Cléber de Deus, coordenador do Núcleo de Estudos Políticos e Eleitorais da Universidade Estadual de Goiás, argumenta que, se no cotidiano os brasileiros não percebem determinadas práticas como crime, não há motivo para supor que a corrupção será decisiva na hora do voto. Magno Karl, diretor-executivo do Livres, acrescenta que a repetição do tema, envolvendo múltiplos partidos, transmite a ideia de que “ninguém presta na política”, igualando as expectativas do eleitor a um patamar baixo.
Polarização
A polarização, nesse quadro, acaba blindando Lula e Flávio das suspeitas levantadas contra eles, porque o custo de trocar de lado supera o de tolerar o desvio do próprio campo. Dados do Datafolha de maio reforçam essa leitura: 52% consideram Lula o candidato que mais tem “a cara do povo”, contra 23% de Flávio, e 29% acreditam que o petista fala a verdade, ante 24% do senador, enquanto 17% dizem que nenhum deles fala a verdade.
Vazamento
Em paralelo, o ministro André Mendonça determinou a apuração de vazamento de dados no âmbito do inquérito já aberto para investigar as divulgações da Operação Sem Desconto. A decisão ocorre em meio à batalha jurídica travada por Lulinha, que acionou a Justiça de São Paulo contra Flávio Bolsonaro por um vídeo produzido com inteligência artificial que o associa às fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS.
Vídeo
Publicado nas redes sociais de Flávio, o vídeo “Missão: Localizar Lulinha” mostra o senador, por meio de IA, pilotando uma aeronave em uma operação para encontrar o filho do presidente, identificado como um “alvo”. A peça afirma que Lulinha seria “suspeito de ter roubado milhões de idosos no Brasil”. Ao final, uma representação criada por inteligência artificial mostra o empresário jogando videogame, de chinelos e rindo. A defesa pede a retirada da publicação e indenização de R$ 10 mil por danos morais, sustentando que o tom humorístico não afasta o caráter difamatório.
Zema
Lulinha também apresentou ação contra o candidato Romeu Zema (Novo) por publicações que, segundo sua defesa, relacionam sua imagem a esquemas ilícitos. O processo questiona os vídeos “Os Intocáveis” e “A casa caiu”, que utilizam animações e montagens. A Justiça, porém, negou em análise inicial o pedido de remoção do conteúdo de Zema, entendendo que a publicação aparenta estar inserida no contexto de sátira e crítica política, sem elementos suficientes para sua retirada.
Apurações
Lulinha é investigado em inquéritos que apuram suspeitas de tráfico de influência. As apurações envolvem, entre outros pontos, a relação do empresário com a lobista Roberta Luchsinger, que manteve contatos com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS” e investigado no esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões. A defesa afirma que essas relações são objeto de apuração, mas não significam que Lulinha seja investigado como participante das fraudes contra beneficiários.
Conclusão
A apuração indica que a corrupção, embora permaneça entre as maiores preocupações dos brasileiros, perdeu força como fator autônomo de decisão eleitoral em 2026. O voto tornou-se, em larga medida, uma manifestação de identidade política, em que a polarização eleva o custo de mudar de lado e o desgaste econômico disputa espaço com as pautas morais. Os casos envolvendo Lulinha e Marcola, de um lado, e a rachadinha, o caso Vorcaro e a associação com milícias, de outro, tendem a alimentar a retórica de campanha — mas seu impacto sobre as urnas será limitado e mediado pela filiação partidária. A trajetória da disputa, contudo, dependerá de fatores ainda em aberto, como os debates que começam em 23 de agosto e a eventual apresentação de provas concretas, capazes de alterar o cenário de forma imprevisível.
Nota metodológica: A coluna foi construída a partir de verificação complementar em fontes de 20 a 22 de agosto de 2026 (Datafolha, IBGE e Ipsos). Os dados de inflação foram atualizados com o IPCA de julho (0,07%, acumulado de 4,44% em 12 meses), e o cenário do primeiro turno foi detalhado com os demais candidatos. Os números específicos de inflação de alimentos, combustíveis e energia para 2026, quando não constavam das fontes, foram tratados como análise contextual e não como dado comprovado.
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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