A quatro dias do começo oficial da COP30, em Belém, o aguardado relatório Road Map Baku to Belém escancarou uma verdade incômoda: o dinheiro para financiar a transição climática existe — o que falta é vontade política e compromisso vinculante. O documento, lançado nesta quarta-feira (5), aponta onde o mundo poderia obter US$ 1,3 trilhão por ano, a partir de 2035, para evitar o colapso climático, mas não estabelece qualquer obrigatoriedade para que essas ações sejam implementadas.
O roteiro de 81 páginas lista mais de 227 propostas de mobilização financeira, incluindo novas taxações globais — sobre aviação, transporte marítimo, produtos de luxo, tecnologia, bens militares e transações financeiras. Apenas esses mecanismos poderiam arrecadar entre US$ 143 bilhões e US$ 662 bilhões anuais, dependendo das alíquotas e da adesão dos países.
Um imposto sobre transações financeiras, por exemplo, geraria entre US$ 105 bilhões e US$ 327 bilhões por ano.
Outra aposta é a precificação do carbono, que poderia movimentar algo entre US$ 20 bilhões e US$ 4,9 trilhões anuais. Mas esse número colossal evidencia outra fragilidade: a absoluta incerteza sobre a regulamentação global desses mercados.
O relatório também abre uma nova frente política ao revelar quem realmente polui o planeta: os 10% maiores emissores individuais são responsáveis por quase metade das emissões globais. A desigualdade climática já não é apenas entre países ricos e pobres — existe um topo emissor dentro de todos os países.
Mesmo com as propostas e diagnósticos, o roteiro evita o que a comunidade internacional cobra há anos: compromissos obrigatórios, metas verificáveis e mecanismos de cobrança. Tudo depende de coalizões voluntárias entre governos, corporações e o sistema financeiro. Não há instrumentos para forçar cumprimento.
No curto prazo, o roteiro pede que organismos como o Comitê de Basileia e o Conselho de Estabilidade Financeira eliminem barreiras de investimento em países pobres até 2027; as 100 maiores corporações e os 100 maiores fundos de investimento do planeta passem a reportar, anualmente, o que têm feito para cumprir as metas climáticas.
Nada disso é obrigatório
Enquanto isso, as projeções científicas se tornam mais alarmantes. Mantida a tendência atual — aumento entre 2,6°C e 3,1°C até 2100 — o PIB global poderá encolher até 30%. Entre 2030 e 2050, o planeta poderá registrar 250 mil mortes adicionais por ano por eventos climáticos extremos. Somente em 2024, as perdas econômicas já chegaram a US$ 320 bilhões.
Dados do Grupo Independente de Especialistas de Alto Nível mostram que os países em desenvolvimento precisarão de US$ 3,2 trilhões por ano até 2035. É mais do que o dobro do que o roteiro prevê captar. O documento já nasce defasado.
Apesar disso, líderes da ONU e da COP apostam no otimismo. Para Simon Stiell, secretário-executivo da UNFCCC: “As ferramentas existem. O que faltava era coordenação e compromisso compartilhado.”
André Corrêa do Lago, presidente da COP30, reconhece que o plano não integra a negociação oficial, mas aposta na força das mudanças tecnológicas: “Precisamos de iniciativas que desencadeiem avanços exponenciais. Não temos bola de cristal, mas isso pode acontecer.”
A mensagem final do roteiro é direta: o custo da inação já supera — e muito — o custo da ação. Isso não impede, porém, que o futuro do planeta continue condicionado à pergunta que o documento evita responder: quem vai pagar a conta?
Resposta: nós, os ferrados deste mundo.















