Estudo baseado em duas décadas de dados do SUS revela avanço da doença hepática alcoólica e destaca vulnerabilidade de homens de meia-idade, negros e pessoas com baixa escolaridade
Brasília -A doença hepática causada pelo consumo de álcool apresentou avanço consistente no Brasil segundo levantamento baseado em dados do SUS, com crescimento mais acelerado nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e maior impacto sobre homens de meia-idade, pessoas negras ou pardas e indivíduos com baixa escolaridade, revelando desigualdades regionais e falhas estruturais no diagnóstico e na prevenção.
O estudo apresenta uma análise detalhada sobre a evolução da Doença Hepática Alcoólica (DHA) no período de duas décadas, identificando um aumento significativo tanto em internações quanto em mortalidade relacionadas ao consumo abusivo de álcool. Conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), compilou dados do Sistema Único de Saúde (SUS) e contabilizou mais de 344 mil internações e 214 mil mortes associadas à condição.
As desigualdades regionais se mostram um ponto central. O Norte registrou o crescimento mais acentuado, com aumento anual de 2,57% nas internações e 4,95% na mortalidade, enquanto o Sul, apesar de apresentar as maiores taxas absolutas, revelou progressão mais lenta no período avaliado. Esses dados sustentam o argumento de que os padrões culturais de consumo, somados a disparidades de infraestrutura em saúde, moldam a incidência e o agravamento da doença.
O perfil das pessoas mais afetadas também é claramente delineado: o estudo indica que 82% das internações e 88% das mortes alcançam homens, sobretudo entre 40 e 59 anos, parcela da população que, segundo especialistas citados no estudo, costuma sofrer os efeitos cumulativos do consumo abusivo durante décadas.
Outro ponto destacado é a maior vulnerabilidade entre negros e pardos e pessoas com baixa escolaridade, indicando a intersecção entre determinantes sociais, acesso tardio ao diagnóstico e diferenças culturais no consumo de álcool.
As falas de especialistas reforçam a perspectiva de que o aumento dos números pode ter múltiplas explicações. Parte dos pesquisadores aponta a possibilidade de um aumento real de casos, enquanto outra parte considera que a elevação pode refletir uma melhora nas ferramentas de registro e diagnóstico do SUS ao longo dos anos. Ainda assim, permanece consenso quanto à insuficiência de políticas de prevenção, ao estigma que afasta pacientes dos serviços de saúde e à carência de programas de detecção precoce.
O estudo ressalta que a DHA é responsável por aproximadamente 65% dos casos de cirrose no país. A abordagem terapêutica envolve intervenções como acompanhamento psicológico, tratamento medicamentoso e estratégias de redução de danos.
Na análise dos dados, chama atenção a discrepância de investimentos públicos entre a DHA e outras doenças hepáticas, como as de origem metabólica. Especialistas argumentam que, apesar do impacto significativo da doença alcoólica no sistema de saúde e na vida dos pacientes, a ausência de investimentos robustos compromete ações preventivas e de tratamento.
Conclusões
As conclusões apontam para a necessidade urgente de políticas integradas que incluam prevenção, redução de danos, ampliação do diagnóstico precoce e suporte direcionado a grupos vulneráveis.
Ao evidenciar a progressão consistente da doença e as desigualdades regionais e sociais que a atravessam, o estudo sugere que a DHA representa um desafio crescente e subestimado no sistema público de saúde brasileiro.
A análise apresentada revela que a Doença Hepática Alcoólica se consolidou como um problema de saúde pública de grande magnitude e em expansão no Brasil, cuja evolução expõe disparidades regionais, falhas estruturais e vulnerabilidades sociais profundas.
Com números crescentes de internações e mortes, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste, e impacto concentrado em homens de meia-idade e populações racialmente discriminadas, a doença evidencia lacunas no diagnóstico precoce, na prevenção e no acesso ao cuidado.
As implicações alcançam não apenas a estrutura já pressionada do sistema público de saúde, mas também aprofundam fragilidades sociais evidentes — um cenário que exige políticas públicas específicas, consistentes e ancoradas em evidências. Ainda assim, em anos de eleição geral, é comum que candidatos revelem desconhecimento ou tratem o tema de forma superficial.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















