Quase 800 mil investidores começam a receber, a partir deste sábado (17), o dinheiro aplicado em CDBs e outros produtos do Banco Master e instituições ligadas, após a quebra que expôs fragilidades do sistema e deixou uma multidão de clientes enganados por promessas de rentabilidade elevada. O pagamento das garantias, feito pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), soma R$ 40,6 bilhões e está entre os maiores ressarcimentos já realizados no País, segundo informações publicadas pelo Estadão.
O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) anunciou o início do pagamento das garantias a investidores do Banco Master, do Banco Master de Investimento e do Letsbank, instituições que tiveram a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central.Cerca de 800 mil credores estão aptos a receber os valores — número bem menor que a estimativa inicial de 1,6 milhão, após a consolidação e revisão técnica dos dados.
A partir das 9h30, investidores pessoas físicas começaram a solicitar o ressarcimento pelo aplicativo oficial do FGC. Pessoas jurídicas devem fazer o procedimento exclusivamente pelo site da entidade. Concluída a solicitação, o pagamento é feito em até dois dias úteis, sempre em conta de titularidade do próprio credor. O fundo afirma que não há fila nem qualquer tipo de priorização: assim que a base de credores é validada, o sistema é liberado para todos.
O montante total a ser pago é de R$ 40,6 bilhões, ligeiramente abaixo da projeção inicial de R$ 41,3 bilhões. Ainda assim, trata-se de um dos maiores episódios de acionamento do FGC na história do sistema financeiro brasileiro. Segundo dados citados pelo Estadão, o fundo mantém cerca de R$ 125 bilhões em reservas, o que garantiria liquidez suficiente mesmo em cenários de estresse severo.
Paralelamente ao início dos pagamentos, o FGC alertou para tentativas de golpes contra investidores já fragilizados pela quebra do banco. Criminosos estariam usando indevidamente o nome da instituição para enviar e-mails, mensagens e links falsos, além de aplicativos fraudulentos, com o objetivo de roubar dados pessoais ou exigir taxas inexistentes. O fundo reforça que não cobra qualquer valor, não utiliza intermediários e não faz contato por WhatsApp ou SMS.
O caso Banco Master, acompanhado de perto pelo mercado, também reacendeu o debate sobre as regras do próprio FGC. Após o episódio, o fundo decidiu limitar a remuneração de CDBs a 120% do CDI, numa tentativa de conter a corrida por produtos de alto risco travestidos de investimentos “seguros”.
Trapaça e a falsa sensação de segurança
Por trás dos números bilionários e dos comunicados técnicos, há uma multidão de investidores comuns — aposentados, pequenos poupadores, famílias inteiras — que foram seduzidos por CDBs com rentabilidade acima da média, muitas vezes vendidos como aplicações seguras justamente por estarem “cobertas pelo FGC”. O caso Banco Master escancara como essa garantia, embora essencial, tem sido usada como argumento comercial para empurrar produtos arriscados a quem não compreende plenamente o risco envolvido.
Muitos desses clientes não buscavam especulação, mas proteção do patrimônio. Acabaram enganados por uma combinação perigosa: marketing agressivo, promessa de ganhos fáceis e a crença quase cega de que o FGC seria um escudo absoluto. Não é. O limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ deixa de fora valores excedentes, que agora entram no fim da fila da liquidação — com chance real de nunca serem integralmente recuperados.
O ressarcimento em curso é necessário e justo, mas não apaga o dano financeiro, emocional e a quebra de confiança. O episódio serve de alerta duro: rentabilidade muito acima do mercado nunca vem sem risco, ainda que o carimbo do FGC esteja presente. Para os investidores, fica a lição amarga. Para reguladores e instituições, a responsabilidade de impedir que novas fraudes se repitam sob a aparência de segurança.















