Associação de tirzepatida com uma segunda substância que atua sobre o hormônio amilina levou a uma redução média de 23,3% do peso corporal em pacientes com diabetes tipo 2
Uma nova estratégia experimental para o tratamento da obesidade apresentou resultados expressivos ao combinar a tirzepatida, princípio ativo de medicamentos como Mounjaro e Zepbound, com uma segunda substância capaz de atuar sobre outro mecanismo relacionado ao controle da fome.
Os resultados foram apresentados em 30 de setembro, durante a reunião anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, realizada em Milão, na Itália. No estudo, a combinação experimental, chamada de EloraTZP, produziu uma perda média de 23,3% do peso corporal entre os participantes que receberam as maiores doses das duas substâncias.
A pesquisa foi conduzida por uma equipe ligada à farmacêutica Eli Lilly e envolveu 367 pessoas dos Estados Unidos e da Argentina. Todos os participantes apresentavam sobrepeso ou obesidade e também tinham diabetes tipo 2.
Dois medicamentos, três caminhos hormonais
A tirzepatida já atua sobre dois importantes mecanismos envolvidos na regulação do apetite. O medicamento imita a ação dos hormônios GLP-1 e GIP, que ajudam a reduzir a ingestão alimentar e também participam do controle da glicose.
Na nova abordagem, os pesquisadores acrescentaram a eloralintida, uma substância experimental que atua sobre a amilina, outro hormônio relacionado à saciedade e ao controle da ingestão de alimentos.
A hipótese é que a combinação consiga atingir simultaneamente diferentes mecanismos biológicos envolvidos no controle do peso.
“É uma perda de peso bastante impressionante”, avaliou David Preiss, pesquisador da Universidade de Oxford que não participou do estudo, segundo a reportagem da New Scientist.
Diferença em relação à tirzepatida isolada
Os participantes foram distribuídos entre diferentes grupos. Um deles recebeu apenas 15 miligramas de tirzepatida por semana. Outros receberam diferentes doses de eloralintida associadas à tirzepatida, enquanto um grupo recebeu placebo.
Depois de aproximadamente 11 meses, os participantes tratados apenas com a dose mais elevada de tirzepatida haviam perdido, em média, 14,8% do peso corporal, equivalente a cerca de 15,6 quilos.
Já aqueles que receberam a dose mais elevada da combinação EloraTZP perderam aproximadamente 23,3% do peso, ou cerca de 24,5 quilos em média.
No grupo placebo, a redução média foi de aproximadamente 3%.
Os números representam uma diferença de 8,5 pontos percentuais na perda de peso entre a combinação experimental e a tirzepatida isolada.
Efeito também apareceu no controle da glicose
A combinação não apresentou apenas resultados relacionados ao peso.
Entre os participantes que receberam tirzepatida isoladamente, houve redução média de 2,4% nos níveis de hemoglobina glicada, indicador utilizado para acompanhar o controle da glicose no sangue.
No grupo que recebeu a combinação na dose mais elevada, a redução chegou a 2,9%. No grupo placebo, foi de aproximadamente 0,3%.
Os pesquisadores, entretanto, ainda precisam acompanhar os participantes por períodos mais longos para determinar o impacto desses resultados sobre complicações relacionadas ao diabetes e às doenças cardiovasculares.
Maior perda de peso veio acompanhada de mais efeitos colaterais
Apesar dos resultados promissores, a combinação apresentou uma questão importante: a tolerabilidade.
Sintomas como náusea, vômitos e diarreia foram mais frequentes entre os participantes que receberam EloraTZP. A taxa de abandono chegou a até 27% em alguns dos grupos que receberam a combinação, contra aproximadamente 3% entre aqueles que utilizaram apenas tirzepatida.
Esse aspecto será fundamental para determinar se uma eventual terapia combinada poderá ser utilizada de maneira ampla.
Segundo especialistas ouvidos pela New Scientist, uma redução maior do peso pode não necessariamente compensar o aumento dos efeitos adversos e a necessidade de utilizar um segundo medicamento para pessoas que já apresentam boa resposta à tirzepatida.
Tratamento ainda está em fase de pesquisa
Um ponto importante é que a EloraTZP não é um tratamento aprovado para uso geral. Os resultados divulgados são provenientes de uma pesquisa de estágio intermediário, e novos estudos serão necessários antes de qualquer eventual solicitação de aprovação pelas autoridades regulatórias.
A Eli Lilly informou que pretende iniciar um estudo maior da combinação, desta vez utilizando uma formulação que possa ser administrada em uma única injeção semanal.
Além disso, o estudo atual envolveu exclusivamente pessoas com diabetes tipo 2. Pesquisadores afirmam que medicamentos dessa classe frequentemente produzem perdas de peso maiores em pessoas com obesidade que não têm diabetes, mas essa possibilidade ainda precisa ser confirmada especificamente para a nova combinação.
Uma nova frente na disputa contra a obesidade
Os resultados reforçam uma tendência que vem ganhando espaço no desenvolvimento de medicamentos contra a obesidade: em vez de depender de um único mecanismo, pesquisadores estão testando combinações capazes de atuar simultaneamente sobre diferentes sistemas hormonais.
A tirzepatida já combina a ação sobre GLP-1 e GIP. A adição da eloralintida acrescenta uma terceira via relacionada à amilina.
O objetivo é produzir uma redução de peso mais intensa sem comprometer a segurança e a tolerabilidade do tratamento. Para isso, serão necessários estudos maiores, acompanhamento prolongado e avaliações que considerem não apenas quantos quilos os pacientes perdem, mas também a manutenção dos resultados e os efeitos adversos.
Por enquanto, a EloraTZP permanece como uma terapia experimental, e os resultados apresentados representam uma etapa da pesquisa, não uma nova opção disponível para tratamento da obesidade.
Fonte: newscientist.com















