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Home Cultura

Cobiça e espionagem na criação do Horto de Belém, o primeiro do Brasil

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
12/07/2026
in Cultura
Cobiça e espionagem na criação do Horto de Belém, o primeiro do Brasil
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Dona Maria I, rainha de Portugal, a autora da Carta Régia na qual foi ordenada a criação de um Horto Botânico em Belém, se tornou uma personagem histórica marcada por profundos dramas.

A ela coube promover o que ficou conhecido como a Viradeira, basicamente, um processo de reação ao período de mando do Secretário de Estado do Reino de Portugal, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal.

Que, com mão de ferro, havia conduzido reformas administrativas, econômicas e sociais na metrópole e nas colônias, durante o reinado de dom José I, falecido em 1777, gerando contra ele grandes animosidadesno clero e na aristocracia..

Ela foi a primeira mulher a governar o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Oficialmente, permaneceria em seu cargo desde o ano de 1777 até 1816.

Mas, quando se transferiu para o Brasil, junto com a corte portuguesa, em 1808, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte que invadiram Portugal, já havia sido retirada do cenário político.

Devido a seus graves distúrbios mentais que vieram a torná-la conhecida como “Maria, a Louca”.

Quem, de fato, governava era seu filho, o Príncipe Regente, dom João.

Porém, no dia 4 de novembro de 1786, quando assinou aquela Carta Régia, ela ainda estava no exercício pleno de seu cargo.

De posse da Carta Régia, o governador do Pará, Francisco Maurício de Sousa Coutinho, tratou de executar a ordem da rainha, escreveu Arthur Cezar Ferreira Reis, no artigo “O Jardim Botânico de Belém”, publicado em 1946, pelo Boletim do Museu Nacional. 

Autor de dezenas de obras de pesquisa sobre a região amazônica, Ferreira Reis foi quem governou o Estado do Amazonas, por designação do governo militar instalado no Brasil, em 1964. 

Em seu artigo, ele afirmou que Francisco Coutinho, antes mesmo de receber a Carta Régia, já vinha ordenando a plantação de todas as espécies vegetais da região, nos estabelecimentos do Estado.

Inclusive, nos de Acará e de Monte Alegre.

Para executar a ordem da rainha, bastaria a ele escolher um local, em Belém, destinado à instalação do horto. 

E, em seguida, confiar sua direção a um funcionário de algum daqueles estabelecimentos. 

Naquele momento, segundo Ferreira Reis, Francisco Coutinho estava muito preocupado com a defesa do Pará, devido à sua proximidade da Guiana Francesa, colônia da França.

Na França, ocorria o que era tido como fim do mundo, pelos monarcas absolutistas.

Pois, a revolução de 1789 havia derrubado a aristocracia e extinguido seus privilégios.

O governador sabia que dona Maria I e seus ministros reagiam o quanto podiam para impedir a infiltração daquelas novidades francêsas em Portugal e em suas colônias. 

Ele já tinha recebido ordens severas a respeito daquele assunto.

E, por isto, exercia uma vigilância rigorosa, no Pará. 

Ferreira Reis informa: 

“Sôbre Caiena, o governador lançava suas indagações, receioso de que de lá pudesse descer o veneno revolucionário. Seus agentes espionavam, informando-o do que ocorria na colônia francêsa”

Ao mesmo tempo, de modo oportunista, Francisco Coutinho aproveitava aqueles agentes para conseguir obter este ou aquêle tipo vegetal que pudesse ser experimentado na Amazônia, tendo em vista oenriquecimento da economia regional.

Alguns daqueles agentes dele, na Guiana Francesa, eram franceses contrários à revolução de 1789, como Ferreira Reis revela ter descoberto nas suas pesquisas em vários Códices do Arquivo Público do Pará.

Esta revelação dele mostrou outro ângulo da criação do horto do Pará.

O qual foi recuperado, 64 anos depois, por Nívea Pombo, em sua monografia de mestrado. 

Em 2010, ela era uma jovem e talentosa jovem pesquisadora.

Anos mais tarde, se tornaria professora Adjunta do Departamento de História – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Sua monografia teve como título “As ‘riquezas do mundo’. Cobiça e ciência nos jardins botânicos de Caiena e Belém do Pará (1790-1803)” 

Nela, Nívea, contou o que fez Francisco Coutinho, pouco antes de anunciar a execução da ordem que havia recebido da rainha Maria I.

O governador escreveu para seu irmão dom Rodrigo de Souza Coutinho,Ministro da Marinha e Domínios Ultramarinos de Portugal.

E contou que tinha tido sucesso numa missão secreta que havia confiado a seus agentes em Caiena. 

Aqueles agentes, enfrentando o risco de serem descobertos e enforcados pelo governo da França, haviam transportado para Belém mudas de  cravo-da-índia, canela, pimenta e de diversas árvores frutíferas.

Neste trecho de sua monografia, Nívea aprofundou a revelação feita antes por Ferreira Reis.

Escreveu:

“O Jardim Botânico de Belém do Pará, criado em 1796, funcionaria como um entreposto de contrabando, agenciado pelo próprio Estado, de plantas e sementes vindas dos Jardins de Caiena. 

O motor da cobiça pelas plantas e sementes tinha como combustível a crença disseminada do poder da agricultura como instrumento de reerguimento econômico, por meio da diversificação da lavoura e ampliação da produção.

Portugal, desde meados do século XVIII, passou a incentivar o cultivo de espécimes botânicos e a aclimatação de plantas exóticas como meio de reequilibrar a balança comercial do Reino”.

Nívea concluiu afirmando que os objetivos da criação do Jardim Botânico de Belém estavam distante de motivações científicas.

A invasão da Guiana Francesa

Doze anos depois da criação do horto de Belém, o Príncipe Regente dom João declarou guerra à França.

E determinou a ocupação da Guiana Francesa,

Na época, governava o Grão-Pará José Narciso de Magalhães, que foi orientado a não respeitar as fronteiras da Guiana Francesa, com as quais Portugal e França tinham concordado, em 1802, quando  assinaram o Tratado de Amiens.

Ele deveria ampliar o território do Pará, até o Oiapoque.

Foi organizada no Pará uma expedição para atacar a colônia francesa.

A expedição foi levada, no mês de outubro de 1808, até o território dela,em nove embarcações.

Àquelas forças militares se juntaram um regimento e dois brigues portugueses, além de uma corveta inglesa.

O objetivo já não era mais aumentar o território do Pará. 

Mas conquistar toda a colônia francesa.

Seu administrador, o político e militar Vitor Hugues, tentou resistir.

Porém, se rendeu, em 12 de janeiro de 1809.

Quanto ao horto, ele havia se tornado modelo  e inspiração para a criação de outros hortos pelo país. 

O mais famoso dos quais, o Horto Real do Rio de Janeiro, criado duas décadas depois.

Cerca de meio século depois, continuava instalado num terreno da Estrada de São José, atual Avenida 16 de Novembro.

E foi descrito por Antônio Baena, no seu livro “Compêndio das Eras do Pará”, lançado em 1838. 

Ocupava um espaço em forma de um quadrado, dentro do qual, havia quadras, cada uma com cerca da 110 metros. 

“Uma valada com tapume vivo de limão” contornava o horto, escreveu Baena. 

No centro dele, havia um abrigo para proteção do poço, pavimentado de ladrilho vermelho e alvo, e, com “grande teto de telhas”.

Em volta do poço, “parapeitos de alvenaria”.

O poço dispunha de bomba para irrigação das plantas. 

Do abrigo do poço, continua Baena, “partem renques de plantas domésticas, e, forasteiras, já climatizadas, que se cruzam com outras”. 

O horto dispunha ainda de “latadas cobertas de várias flores” e de “algumas drogas necessárias ao homem que prova desmancho na saúde”, no horto.  

Chegou a ter duas mil e trezentas e sessenta e duas plantas. 

Baena registra a impressionante variedades destas plantas. 

Abricó de São Domingos, abieiros, algodoeiros, anil manso, araticu, árvore de pão, ateiros, açaizeiros, bananeiras, bacuris,baunilhas grandes e pequenas, biribás, abacateiros de Caiena e do Gram-Pará.

E ainda: cacau, café, caneleiras, cedro branco e vermelho, cajueiros, cana de açúcar da Índia e do Gram-Pará, castanheiros, cupaubeiros, cravo da Índia, caju do mato, cuieiras, figueiras, goiabeiras de Mato Grosso e do Gram-Pará.

Além de: gengibre amarelo, erva cidreira, jacas de Caiena e da Bahia, jambo, jasmins de Caiena, do Cabo Boa Esperança e da Itália, laranjeiras, limões, mandioca, mangas, maracujás de Caiena, ananás pintados, parreiras, pimenteiras, pupunheiras, salsaparrilhas, sapotilhas e tamarindos. ​

Algumas destas espécies, anos depois, passaram também a ser encontradas nas casas de residências de Belém, denominadas de “rocinhas”, principalmente, nas áreas periféricas, a partir do início do século XIX.

Leandro Tocantins em “Santa Maria de Belém do Grão-Pará” descreveassim uma rocinha: 

“Uma casa de campo que obedecia ao estilo simples da fazenda brasileira, por sua vez, inteligente adaptação de forma e conceitos portugueses às peculiaridades do clima”. 

Ela se destacava de outros tipos de residências da cidade por seu caráter de “vivenda, cercada de árvores silvestres, de fruteiras, de jardins rústicos, na paz dos subúrbios”.

(Ilustração: Plantas de Caiena foram apropriadas por agentes do governador do Pará)

Greed and Espionage in the Creation

of the Belém Botanical Garden, Brazil’s First

Queen Maria I of Portugal, the author of the Royal Charter ordering the establishment of a Botanical Garden in Belém, became a historical figure marked by profound personal tragedies.

She was responsible for initiating what became known as the Viradeira(“The Turnabout”), a political reaction against the period dominated by Sebastião José de Carvalho e Melo, the Marquis of Pombal, Secretary of State of the Kingdom of Portugal.

With an iron hand, Pombal had carried out sweeping administrative, economic, and social reforms throughout Portugal and its colonies during the reign of King José I, who died in 1777. His policies generated deep hostility among both the clergy and the aristocracy.

Maria I became the first woman to rule the United Kingdom of Portugal, Brazil, and the Algarves.

Officially, she remained on the throne from 1777 until 1816.

However, when the Portuguese royal court fled to Brazil in 1808 to escape the invading forces of Napoleon Bonaparte, she had already been removed from effective political power because of the severe mental illness that earned her the epithet “Maria the Mad.”

The kingdom was, in fact, governed by her son, the Prince Regent, Dom João.

On November 4, 1786, however, when she signed the Royal Charter ordering the creation of the Botanical Garden in Belém, she was still exercising the full authority of her office.

Upon receiving the Royal Charter, the Governor of Pará, Francisco Maurício de Sousa Coutinho, immediately set about carrying out the Queen’s orders, wrote Arthur Cezar Ferreira Reis in his article “The Botanical Garden of Belém,” published in 1946 in the Bulletin of the National Museum.

The author of dozens of scholarly works on the Amazon region, Ferreira Reis later served as Governor of the State of Amazonas, appointed by the military government established in Brazil in 1964.

In his article, Ferreira Reis stated that even before receiving the Royal Charter, Francisco Coutinho had already ordered the cultivation of all the region’s plant species at government establishments, including those in Acará and Monte Alegre.

To carry out the Queen’s directive, all he had to do was choose a site in Belém for the Botanical Garden and appoint one of the officials from those establishments to oversee it.

At that time, according to Ferreira Reis, Francisco Coutinho was deeply concerned about the defense of Pará because of its proximity to French Guiana, then a French colony.

France was experiencing what absolute monarchs regarded as the end of the world.

The French Revolution of 1789 had overthrown the aristocracy and abolished its privileges.

The governor knew that Queen Maria I and her ministers were doing everything possible to prevent revolutionary French ideas from spreading to Portugal and its colonies.

He had already received strict orders on the matter.

Consequently, he maintained rigorous surveillance throughout Pará.

As Ferreira Reis wrote:

“The governor kept a close watch on Cayenne, fearing that the poison of the Revolution might spread from there. His agents engaged in espionage, reporting everything that took place in the French colony.”

At the same time, Francisco Coutinho opportunistically used those same agents to obtain plant species that might be successfully introduced into the Amazon, with the aim of strengthening the regional economy.

Some of his agents in French Guiana were Frenchmen opposed to the Revolution of 1789, as Ferreira Reis revealed after examining several codices preserved in the Public Archives of Pará.

His discovery shed new light on the creation of Pará’s Botanical Garden.

Sixty-four years later, this aspect of its history was revisited by Nívea Pombo in her master’s thesis.

In 2010, she was a young and promising researcher.

Years later, she became an Adjunct Professor in the Department of History at the Institute of Philosophy and Human Sciences of the Rio de Janeiro State University.

Her master’s thesis was entitled “The ‘Riches of the World’: Greed and Science in the Botanical Gardens of Cayenne and Belém do Pará (1790–1803).”

In it, Nívea described what Francisco Coutinho did shortly before announcing the implementation of Queen Maria I’s order.

The governor wrote to his brother, Dom Rodrigo de Souza Coutinho, Portugal’s Minister of the Navy and Overseas Dominions.

He informed him that a secret mission entrusted to his agents in Cayenne had been successful.

Risking discovery and execution by hanging at the hands of the French authorities, those agents had transported seedlings of clove, cinnamon, pepper, and various fruit trees to Belém.

In this passage of her thesis, Nívea expanded upon the findings first presented by Ferreira Reis. She wrote:

“The Botanical Garden of Belém do Pará, established in 1796, functioned as a smuggling depot, organized by the State itself, for plants and seeds brought from the gardens of Cayenne. The driving force behind the desire for plants and seeds was the widespread belief that agriculture could serve as an instrument of economic recovery through crop diversification and increased production. From the mid-eighteenth century onward, Portugal encouraged the cultivation of botanical specimens and the acclimatization of exotic plants as a means of restoring the Kingdom’s balance of trade.”

Nívea concluded that the objectives behind the creation of the Botanical Garden of Belém were far removed from scientific motivations.

The Invasion of French Guiana

Twelve years after the establishment of the Botanical Garden of Belém, Prince Regent Dom João declared war on France.

He also ordered the occupation of French Guiana.

At the time, José Narciso de Magalhães governed Grão-Pará. He was instructed to disregard the borders between French Guiana and Portuguese territory that Portugal and France had agreed upon in 1802 when they signed the Treaty of Amiens.

Instead, he was ordered to extend Pará’s territory as far as the Oiapoque River.

An expedition was organized in Pará to attack the French colony.

In October 1808, the expedition sailed to French Guiana aboard nine vessels.

These forces were reinforced by a Portuguese regiment, two Portuguese brigs, and a British corvette.

The objective was no longer merely to expand Pará’s territory.

It was now to conquer the entire French colony.

Its administrator, the politician and military commander Victor Hugues, attempted to resist.

However, he surrendered on January 12, 1809.

As for the Botanical Garden, it had by then become a model and an inspiration for the establishment of other botanical gardens throughout Brazil.

The most famous of these was the Royal Botanical Garden of Rio de Janeiro, created two decades later.

About half a century after its foundation, the Belém Botanical Garden was still located on São José Road, today’s Avenida 16 de Novembro.

It was described by Antônio Baena in his book Compêndio das Eras do Pará, published in 1838.

The garden occupied a square-shaped area divided into plots, each measuring approximately 110 meters on each side.

“A ditch bordered by a living hedge of lemon trees surrounded the garden,” Baena wrote.

At its center stood a shelter protecting the well, paved with red and white tiles and covered by “a large tiled roof.”

Around the well were “masonry parapets.”

The well was equipped with a pump used to irrigate the plants.

From the shelter over the well, Baena continued, “rows of native and foreign plants, already acclimatized, extend and intersect with others.”

The garden also featured “trellises covered with various flowers” as well as “several medicinal plants necessary for those whose health has declined.”

At its peak, the Botanical Garden contained 2,362 plants.

Baena recorded the remarkable diversity of species cultivated there.

These included St. Domingue apricots, abiu trees, cotton plants, indigo, araticum, breadfruit trees, ata fruit trees, açaí palms, banana trees, bacuri trees, large and small vanilla plants, biribá trees, and avocado trees from Cayenne and Grão-Pará.

Other species included cocoa, coffee, cinnamon trees, white and red cedar, cashew trees, sugarcane from India and Grão-Pará, Brazil nut trees, copaiba trees, cloves from India, wild cashew, calabash trees, and guava trees from Mato Grosso and Grão-Pará.

The collection also comprised yellow ginger, lemon balm, jackfruit from Cayenne and Bahia, rose apples, jasmine from Cayenne, the Cape of Good Hope, and Italy, orange trees, lemon trees, cassava, mangoes, passion fruit from Cayenne, variegated pineapples, grapevines, pepper plants, peach palms, sarsaparilla, sapodilla trees, and tamarind trees.

Some of these species would later become common in the residential properties of Belém known as rocinhas, especially in the city’s outlying areas from the early nineteenth century onward.

In Santa Maria de Belém do Grão-Pará, Leandro Tocantins described a rocinha as:

“A country house built in the simple style of the Brazilian rural estate, itself an intelligent adaptation of Portuguese forms and concepts to the peculiarities of the local climate.”

It differed from other types of urban residences because it was “a dwelling surrounded by native trees, fruit orchards, and rustic gardens, in the tranquility of the suburbs.”

(Illustration: Plants from Cayenne were secretly obtained by agents of the Governor of Pará.)

Tags: Belém do ParácolunaculturaDestaqueespionagemHistóriaHorto de Belém
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Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador.

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