A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) reforçou recentemente, o papel estratégico do agronegócio na transição energética do país durante o evento “Diplomatas da Agricultura no Brasil (DAB)”, realizado na Embaixada da Colômbia, em Brasília na semana passada. O encontro reuniu adidos agrícolas, autoridades diplomáticas e especialistas para discutir o tema “Agro e novas indústrias energéticas no Brasil”, com foco na produção e uso de biogás e biometano.
A assessora técnica da CNA, Eduarda Lee, destacou que o Brasil já possui uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo e dispõe de grande capacidade para ampliar soluções limpas, competitivas e sustentáveis integradas ao setor agropecuário.
Nesse contexto, a produção de energia a partir de resíduos agrícolas e pecuários representa uma alternativa de baixo carbono, capaz de reduzir a dependência de combustíveis fósseis e as emissões de gases de efeito estufa (GEE).
Percentual de renováveis na matriz energética brasileira
O Brasil se destaca no cenário internacional pela elevada participação de fontes renováveis em sua matriz energética. De acordo com dados do Balanço Energético Nacional, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), cerca de 49% da energia consumida no país é proveniente de fontes renováveis, percentual muito superior à média mundial. Essa característica estrutural da matriz energética brasileira cria um ambiente favorável para a expansão de novas fontes renováveis no meio rural, especialmente aquelas associadas ao aproveitamento de resíduos agropecuários.
Lee observou que a cadeia agroindustrial brasileira — notadamente os setores sucroenergético, pecuário e de suinocultura — oferece uma diversidade de matérias-primas orgânicas que podem ser convertidas em energia renovável. Além de promover o aproveitamento de resíduos, essas cadeias podem gerar energia, biofertilizantes e impulsionar modelos produtivos mais eficientes, alinhados aos princípios da economia circular.
Potencial de produção de biogás/biometano no Brasil
O aproveitamento energético desses resíduos ocorre em um contexto de elevado potencial técnico ainda pouco explorado no país. Segundo dados consolidados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), com base em estudos setoriais e levantamentos do setor energético, o potencial de produção de biogás no Brasil ultrapassa 84,6 bilhões de metros cúbicos por ano, enquanto o potencial estimado de biometano alcança cerca de 44,1 bilhões de metros cúbicos anuais, considerando resíduos agropecuários, agroindustriais e urbanos. Apesar desse volume expressivo, a produção efetiva ainda representa apenas uma fração desse potencial, evidenciando espaço significativo para a expansão estruturada da cadeia de energias renováveis associadas ao agronegócio.
Do ponto de vista técnico-operacional, a expansão do biogás e do biometano no meio rural depende da integração entre produção agropecuária, logística de resíduos e infraestrutura energética, especialmente em regiões com elevada concentração de atividades agroindustriais. A viabilidade desses projetos está diretamente associada à escala produtiva, à proximidade das fontes geradoras de resíduos e à conexão com redes de distribuição ou uso local da energia, fatores que tornam o agronegócio um ambiente estratégico para a consolidação dessas tecnologias no território brasileiro.
Comparação de emissões diesel x biometano (impacto climático)
Avaliações de ciclo de vida indicam que o uso do biometano pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa em até 87% quando comparado ao diesel fóssil, especialmente em aplicações intensivas no transporte e nas operações agropecuárias. Segundo estudos de Análise de Ciclo de Vida (ACV) compilados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e pela Agência Internacional de Energia (IEA), essa redução decorre do fato de o biometano ser produzido a partir de resíduos orgânicos, cujo carbono já integra o ciclo biogênico natural, enquanto o diesel adiciona carbono de origem fóssil à atmosfera, ampliando o impacto climático.
Durante o debate, a CNA ressaltou que a expansão das cadeias de biogás e biometano no Brasil depende de previsibilidade regulatória, infraestrutura adequada e instrumentos de incentivo capazes de atrair investimentos privados. Nesse contexto, foram citadas políticas públicas estruturantes como o RenovaBio, o programa Combustível do Futuro e o Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten), iniciativas reconhecidas pelo Ministério de Minas e Energia (MME) como fundamentais para o avanço das energias renováveis e dos combustíveis de baixo carbono no país.
A incorporação do biometano como substituto parcial ou total do diesel no agronegócio reforça o papel do setor na estratégia nacional de descarbonização, ao alinhar competitividade econômica, segurança energética e cumprimento de compromissos climáticos. Esse movimento posiciona o agro não apenas como usuário de energia, mas como agente ativo da transição energética brasileira, com impactos diretos sobre a redução das emissões e a modernização dos sistemas produtivos.
Referências / Fontes
Agrolink. CNA apresenta potencial do agro para energias renováveis. Disponível em: https://www.agrolink.com.br/carbono/noticia/cna-apresenta-potencial-do-agro-para-energias-renovaveis_508980.html
Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Balanço Energético Nacional – Relatório Síntese. Dados sobre a participação de fontes renováveis na matriz energética brasileira.
Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (ABREN). Potencial de produção de biogás e biometano no Brasil. Dados setoriais sobre aproveitamento energético de resíduos.















