As lutas clandestinas entre adolescentes na cidade de Boa Vista, Roraima, eram organizadas e promovidas por meio das redes sociais, com postagens que incluíam frases como “sem levar para o coração”, imagens dos envolvidos, seus primeiros nomes ou apelidos, datas e locais dos confrontos — que ocorriam em uma praça no bairro Doutor Airton Rocha, na zona oeste da capital. A matéria foi publicada pelo G1.
As brigas, chamadas de “combates” nas postagens, aconteciam ao ar livre, eram transmitidas online e envolviam apostas em dinheiro. Os valores variavam entre R\$ 30, R\$ 50 e R\$ 100, dependendo da luta, do dia e da quantidade de público. Em ao menos uma ocasião, uma adolescente de 13 anos teria sido oferecida como “prêmio”.
A investigação do caso levou à deflagração da Operação Final Fight, conduzida pela Delegacia de Defesa da Infância e da Juventude (DDIJ) da Polícia Civil. Dois homens, de 20 e 31 anos, foram presos sob suspeita de promover os eventos. A operação ocorreu no dia 25 de julho. Durante as buscas, uma adolescente de 13 anos foi encontrada na casa do suspeito mais jovem, com quem ele mantinha um relacionamento, o que configura violência sexual. O homem foi preso em flagrante por estupro, e a menina foi entregue à mãe.
A operação foi realizada por agentes da Seção de Investigação e Operações (Siop) da DDIJ, com o apoio do Grupo Tático Municipal (GTAM) da Guarda Civil Municipal. As ordens judiciais incluíram mandados de busca e apreensão nas residências dos suspeitos, localizadas no mesmo bairro onde ocorriam as lutas. Foram apreendidos celulares e dispositivos de armazenamento, que passarão por perícia para identificar novas evidências, suspeitos e possíveis crimes relacionados.
Segundo o delegado titular da DDIJ, Leonardo Strunz, o fenômeno das lutas clandestinas entre adolescentes é “inédito” no Brasil, mas tem se espalhado para outros estados. “Esse foi um fenômeno inédito que surgiu no Brasil, que a gente viu de forma pioneira, que está se crescendo as lutas clandestinas. No Brasil inteiro vem crescendo essas lutas e a gente atua de uma forma preventiva pra que o pior não venha acontecer. Então, a gente observou [lutas] em vários estados com consequências negativas, com crianças ficando paraplégicas, morrendo… Então, a gente atua de forma pra inibir essas condutas”, afirmou.
As vítimas em Boa Vista tinham entre 12 e 17 anos. Elas eram cooptadas pelas redes sociais e também presencialmente, nas imediações da praça onde ocorriam os combates. Conforme a polícia, em alguns casos os pais tinham conhecimento da participação dos filhos nas lutas.
“Alguns pais não sabiam da existência dos filhos, outros até sabiam. Então, a situação foi até delicada para gente atuar. Estamos tratando as crianças e os adolescentes como vítimas, não como infratores, são vítimas de uma exploração, exploração das imagens deles, teve uma exploração sexual também”, declarou Strunz.
A expressão “sem levar para o coração”, usada como lema das postagens para indicar que as brigas não deveriam ser levadas para o lado pessoal, apareceu em ao menos dez publicações feitas por um perfil no Instagram dedicado a divulgar os confrontos.
O nome da operação, Final Fight, faz referência ao clássico jogo eletrônico dos anos 1990, que envolvia lutas de rua, simbolizando o objetivo da polícia de encerrar essa prática que vinha ganhando força entre os jovens da capital de Roraima.















