A semana política abre com mais um capítulo do caso que continua irradiando tensão em Brasília: a saída do tradicionalíssimo escritório Almeida Castro, Castro e Turbay da defesa do senador Ciro Nogueira. A nota foi seca, calculada e milimetricamente redigida: “em comum acordo”. Sempre é — pelo menos no papel. O fato é que abandonar a defesa justamente dias após a 5ª fase da operação Compliance Zero não é coincidência; é movimento estratégico. Em momentos de crise, troca‑se o escudo para tentar conter novos danos.
Kakay e a debandada estratégica
O desligamento de advogados do calibre de Kakay, Roberta Castro Queiroz, Marcelo Turbay, Liliane de Carvalho e Álvaro Chaves sugere mais que uma simples reorganização contratual. Kakay não costuma entrar ou sair de casos de grande repercussão sem razão. O gesto fala alto: o caso Master cresceu, ganhou camadas e exige uma nova frente jurídica — mais agressiva, técnica, ou apenas politicamente conveniente. Ainda hoje deve surgir o substituto, que herdará uma batalha jurídica de longo alcance.
O elo com Vorcaro na mira da PF
No cerne da crise, a relação entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro segue sendo o ponto de fricção da investigação. A Polícia Federal avança sobre suspeitas de vantagens econômicas trocadas por influência política em benefício do grupo ligado ao Banco Master. A operação Compliance Zero, reaberta na quinta (7), indica que o fio da meada não só permanece exposto — como está mais enrolado do que nunca. Esse é o tipo de investigação que não para no meio do caminho.
A semana começa pesada no Planalto
Enquanto Ciro reorganiza sua defesa, o Planalto segue em agenda intensa. Lula recebe Michelle Bachelet justamente no início de uma semana em que o governo tenta projetar alinhamentos internacionais e reforçar sua imagem programática. Ao mesmo tempo, Petrobras e BTG Pactual apresentam resultados do trimestre — combustível para o debate econômico que paira sobre Brasília e sobre o humor do mercado.
Segurança, TSE e crime organizado no radar
Na terça-feira (12), o presidente Lula lança o plano de combate ao crime organizado, com participação direta dos EUA. Um movimento que tenta articular a agenda de segurança — sempre sensível — com cooperação internacional. No TSE, Kassio Nunes Marques assume a presidência, consolidando a dança de cadeiras no Judiciário. No Congresso, avança o debate sobre a extinção da escala 6×1, enquanto o IBGE divulga a inflação de abril, que deve pautar tanto economistas quanto adversários políticos.
STF define alcances da Lei Maria da Penha
A quarta-feira (13) reserva decisões de impacto: o STF vai definir se a Lei Maria da Penha exige vínculo prévio entre agressor e vítima. É decisão que ultrapassa a técnica jurídica e alcança políticas públicas inteiras. No Legislativo, o deputado licenciado e agora ministro Guilherme Boulos comparece à comissão da escala 6×1, enquanto o Banco do Brasil e a Braskem soltam seus resultados — e tudo isso alimenta as análises de risco político que o mercado monitora com lupa.
Trump, Xi e o tabuleiro internacional
A quinta-feira (14) coloca Brasília em compasso de observação: Donald Trump e Xi Jinping discutem a guerra no Oriente Médio, reposicionando potências sobre o conflito. É um xadrez que o Itamaraty acompanha com atenção. No Brasil, o noticiário corporativo esquenta com números de GPA, Nubank e Cosan. Já a rádio Eldorado encerra transmissões, marcando um fim simbólico para uma era da comunicação.
STF reacende o debate de gênero
A sexta-feira (15) fecha a semana com novo julgamento sobre proteção judicial contra violência de gênero. Uma pauta que cresce, sensibiliza e politiza a indomável polarização política tupiniquim. O IBGE completa o quadro divulgando o panorama de serviços de março — indicador vital para compreensão do fôlego econômico do país.
Câmara: uma pauta pulverizada e estratégica
A Câmara inicia uma maratona de votações que percorre segurança pública, infância, esportes, mobilidade urbana e agronegócio. A regulamentação do uso de IA em pornografia infantil, o marco legal do transporte coletivo, incentivos à indústria de fertilizantes e regras para candidatas gestantes em concursos mostram uma pauta heterogênea, mas com apelo social. É a Câmara que busca agenda positiva, ainda que dependente do humor dos líderes.
Crimes sexuais e inteligência artificial
O combate a crimes contra crianças e adolescentes ocupa o centro do tablado. Projetos endurecem penas, expandem mecanismos de repressão e atualizam legislações para o uso criminoso de IA. Um debate que toca questões tecnológicas profundas, mas que exigem respostas rápidas, dada a escalada desses crimes no ambiente digital.
Mobilidade, agronegócio e transparência
O marco legal do transporte coletivo urbano tenta reorganizar um setor pressionado por déficits e disputas federativas. Já o Profert, programa para fertilizantes, atende diretamente ao agronegócio — talvez o setor mais influente do país hoje. Na outra ponta, avança projeto que acaba com sigilos em gastos federais, tema que sempre volta ao centro do debate quando a transparência pública é cobrada.
SAFs, tributação e turismo religioso
O esporte também ganha espaço com novas regras para governança das SAFs e com o regime tributário especial para associações desportivas. No eixo cultural e econômico, surge a proposta da Rota Turística Religiosa do Cariri — esforço de regionalização do turismo no Nordeste, sempre visto como fonte de receita e identidade.
Senado: CNH Digital e indenização à vítimas
O Senado inicia votações com foco em mobilidade e justiça criminal. A emissão digital da CNH e políticas de renovação automática avançam, modernizando o setor. Paralelamente, o projeto que fixa indenização mínima às vítimas busca dar celeridade e efetividade ao arcabouço penal — um movimento raro, considerando a lentidão histórica do sistema.
Saúde, armazenagem e dor crônica
Projetos sobre certificação agropecuária e atenção à dor crônica mostram uma pauta ampla, mas com impactos específicos. A dor crônica, tratada como tema de saúde pública, tende a ganhar visibilidade — e pode abrir margem para políticas estruturantes de acolhimento.
Altas habilidades e política educacional
O Senado também mira a criação da Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação. Tema sutil, mas essencial, que pretende estruturar uma rede de identificação e atendimento especializada — ainda incipiente no Brasil.
Conselhos da Infância e governança social
A revisão dos Conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente é um passo que mexe diretamente com a governança da política pública. Alterações nesse sistema podem reorganizar toda a cadeia de fiscalização e formulação de políticas para a infância.
Carreiras de ciência e tecnologia em reestruturação
Outro tema relevante é a atualização do plano de carreiras de ciência e tecnologia. O setor exige modernização — e a inclusão de novos órgãos e institutos reflete o esforço para ampliar capacidade científica, sempre tratada como prioridade retórica, mas raramente acompanhada de força política real.
Voz do Brasil e violência contra a mulher
Por fim, o Senado discute obrigar o programa A Voz do Brasil a divulgar canais de atendimento a mulheres vítimas de violência. Uma medida simples, mas com alcance nacional — e que pode virar instrumento importante para auxiliar vítimas em situações de emergência.
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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