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Home Cultura

Círio de Belém: fatos curiosos dos seus primeiros anos

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
29/09/2026
in Cultura
Círio de Belém: fatos curiosos dos seus primeiros anos
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A reconstituição dos fatos ocorridos na longa existência do Círio de Nazaré foi possível graças ao conhecimento de três respeitáveis pesquisadores do Pará, Márcio Couto Henrique, Maria Dorotéa de Lima, e, Raymundo Heraldo Maués.

Coube a eles preparar o texto do dossiê sobre o Círio, publicado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 2006.

O qual, mais tarde, contribuiu para que o grande evento fosse declarado Patrimônio Cultural da Humanidade, pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, um órgão da ONU – Organização das Nações Unidas.

A colaboração daqueles pesquisadores tornou possível a inclusão no dossiê um capítulo com a Linha do Tempo do Círio.

Dela, escolhemos os fatos dos primeiros anos do Círio.

Apresentamos, a seguir, estes fatos aos leitores do Ver-o-Fato, com alguma complementação nossa.

1653: Vígia começa a cultuar a Santa, antes de Belém

Os jesuítas iniciam, no Gram-Pará, o culto à Nossa Senhora de Nazaré em Vigia, Pará. Mas o Círio como romaria que leva a imagem de um local para outro só veio a acontecer neste município a partir da metade do Século XIX, vários anos depois da criação do Círio de Belém. 

1700: Primeiras ermidas para a Santa

Plácido “encontra” a imagem de Nazaré, às margens do igarapé Murutucu. Início da veneração em Belém. A casa de Plácido ficava na estrada do Maranhão, atual Largo de Nazaré, ponto de parada para muitos viajantes, o que fez com que a imagem em pouco tempo se tornasse conhecida. 

Construção da primeira ermida, na casa do próprio Plácido, em 1720. 

D. Bartolomeu do Pilar, bispo do Pará, teria visitado a ermida na cabana de Plácido, em 1721. 

Construção da segunda ermida, de taipa, por Plácido e pelo devoto Antônio Agostinho, entre 1730 e 1744. 

1773: Imagem da santa vai para Portugal

D. João Evangelista visita a imagem na ermida e providencia para que seja levada com pompa para Portugal, a fim de ser restaurada. 

Retorno da imagem a Belém. D. João Evangelista convoca a cidade para, num ato solene, trasladar a imagem do porto até a sua ermida, em 31/7/1774. 

31/7/1774: A imagem da santa ganha um terreno

O governo do Gram-Pará doa uma “jeira de terra” à imagem, para que fosse aberto um largo, diante da ermida da Santa. 

Uma jeira pode chegar a ter tamanho muito grande, correspondendo de 16 a 36 hectares, em alguns países. 

Mas em algumas regiões do Brasil e de Portugal, onde ainda é utilizada, corresponde apenas a 0,2 hectares, isto é, a 2.000 metros quadrados. 

31/7/1774: Portugal autoriza festa de Nazaré

O bispo solicita a Portugal autorização para realizar anualmente uma festa em louvor à Nossa Senhora de Nazaré.

É concedida a autorização para a realização da festa de Nazaré, em 1790. 

Dom Francisco Maurício de Souza Coutinho se torna governador-geral do Gram-Pará, e, visita o arraial de Nazaré. 

8/9/1793: O primeiro Círio de Belém

O primeiro Círio em Belém foi realizado como uma promessa feita à Santa por dom Francisco Coutinho, que ele pagaria, se obtivesse a cura de uma doença sua.

Ele prometeu que transportaria a imagem da Santa, em procissão, desde seu palácio até a ermida dela.

E que, no trajeto, levaria consigo um ‘‘círio’’. 

Um “círio” é algo que tem raízes históricas, significado religioso e significado cultural, segundo o site lucidarium.com.br.

Literalmente, diz o site, “círio” é uma vela litúrgica, composta por um pavio central envolvido por uma cera sólida ou líquida que, ao ser aceso, queima lentamente, iluminando um ambiente de fé. 

Mas sua verdadeira importância vai além do seu estado físico, pois, representa esperança, fé.

É a luz que afasta a escuridão espiritual ou material. 

Ao se recuperar de sua doença, o governador-geral convocou os habitantes do Interior, do Gram-Pará, para a festividade, a fim de realizar, uma feira de produtos regionais, no terreno ganho pela ermida da Santa. 

A imagem da Santa neste primeiro Círio foi transportada num carro de bois, no colo do capelão do palácio.

Estava acompanhada por cerca de dez mil pessoas. 

O trajeto do primeiro Círio

A imagem, retirada da sua ermida na véspera, havia permanecido na capela do Palácio do governador-geral.

Portanto, foi da frente do palácio que ela saiu, percorrendo o seguinte roteiro:

1º) Margem do Igarapé do Piry. 2ª) Casa das Canoas (Ver-o-Peso). 3ª) Rua da Praia (avenida Quinze de Novembro). 4º) Convento de Santo Antônio. 5º)Estrada da Campina (Presidente Vargas). 6º) Largo da Pólvora (Praça da República). 7º) Estrada do Maranhão (Nazaré). 8º) O arraial. 

1794: Alteração no comando da festa

A festa da Santa passa a ser organizada pela Confraria de Nossa Senhora de Nazaré, a partir deste ano. 

1799: Uma nova ermida para a Santa

Francisco de Souza Coutinho inicia a construção de uma nova ermida, que é inaugurada entre os anos de 1800 e 1802, junto com as solenidades do Círio.

1803: “A Rainha Louca” introduz uma alegoria no Círio

Foi introduzida no Círio a Alegoria de dom Fuas Roupinho, por ordem da Rainha Maria I, que viria para o Brasil, em 1808, na transferência para o Rio de Janeiro da Corte Portuguesa, quando as tropas de Napoleão invadiram Portugal.

Ela ficou conhecida na História da Portugal, como “A Louca”. 

Apelido que pode ter sido injusto com a rainha, admite o jornalista Luis Nassif, no artigo “A loucura na Corte: breve história de Maria I”.

Mas ele próprio conta em seu artigo que a rainha foi tomada por doença mental, no início da década de 1790.

E que a doença já estava acentuada, quando ela aportou no Brasil, em 1808. Ela teria passado a acreditar, antes de embarcar, com a Família Real, que estava indo para o inferno, onde iriam parar os bandidos.

De qualquer forma, por causa de sua doença, quando chegou ao Brasil, a rainha já tinha sido obrigada a se afastar do exercício do poder, desde 10 de fevereiro de 1792.

E a aceitar que seu filho, o jovem Infante Dom João, fosse nomeado Príncipe Regente de Portugal, passando, assim, a cuidar dos assuntos do Estado português.

A Alegoria de dom Fuas Roupinho

O nome verdadeiro de dom Fuas Roupinho, cuja alegoria foi introduzida no Círio em 1803, por ordem de Dona Maria, era Fernão Gonçalves Churrichão. 

Mas ele era chamado também de Farroupim.

Segundo os pesquisadores portugueses Tiago João Queimada e Silva e José João da Conceição Gonçalves Mattoso, dom Fuas Roupinho era um guerreiro nobre lusitano do Século XII, que se tornou alcaide (prefeito) do Castelo de Porto de Mós, na freguesia de Porto de Mós.

Seus feitos são envolvidos em lenda.

O mais conhecido é o que envolveria um milagre de Nossa Senhora de Nazaré, conforme narra a Lenda da Nazaré.

Segundo esta lenda, dom Fuas Roupinho, ao nascer do dia 14 de setembro de 1182, caçava junto ao litoral de Porto de Mós, perto de suas terras.

O dia estava envolto por um denso nevoeiro.

Mas, de imediato, ele avistou um animal, um veado, e, começou a persegui-lo.

O veado dirigiu-se para a parte mais alta e íngreme da maior elevação do terreno no qual dom Fuas Coutinho e o animal estavam.

E, que ficava em frente do mar, formando um perigoso precipício. 

No meio do nevoeiro, o veado não parou de correr e caiu no despenhadeiro. 

Dom Fuas de Coutinho, quando se deu conta, continuava cavalgando ao lado de uma gruta onde se venerava uma imagem da Virgem Maria com o Menino Jesus. já à beira do precipício, em perigo de morte.

Ele, então, rogou, em voz alta: 

– Senhora, Valei-me!

De maneira instantânea e miraculosa, seu cavalo estancou, fincando as patas traseiras no penedorochoso, enquanto suas patas dianteiras estavam suspensas sobre o vazio.

Salvaram-se, assim, o cavaleiro e a sua montaria, da morte certa, que adviria de uma queda de mais de cem metros de altura.

Dom Fuas Roupinho, então, desmontou e desceu à gruta para rezar e agradecer o milagre.

Em seguida, mandou chamar alguns pedreiros.

E, lhes ordenou que construíssem uma capela sobre a gruta, em memória do milagre.

Surgiu, deste modo, em Portugal, a Ermida da Memória, onde a milagrosa imagem ficou em exposição para veneração dos fiéis.

Quanto à Alegoria de dom Fuas Roupinho, ela continua presente no Círio, com o nome de Carro dos Milagres.  

(Ilustração: O Carro dos Milagres, sendo preparado para o Círio, em imagem da internet)

The Círio of Belém: intriguing 

facts from its first 150 years

Reconstructing the events of the Círio de Nazaré’s long history was made possible through the expertise of three respected researchers from Pará: Márcio Couto Henrique, Maria Dorotéa de Lima, and Raymundo Heraldo Maués.

They were responsible for preparing the text of the dossier on the Círio, published by the National Institute of Historic and Artistic Heritage (IPHAN) in 2006.

This dossier later contributed to the event being declared a piece of Intangible Cultural Heritage of Humanity by UNESCO (the United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization), a specialized agency of the UN (United Nations).

The collaboration of these researchers enabled the inclusion of a “Círio Timeline” chapter in the dossier.

From that timeline, we have selected facts covering the Círio’s first 150 years.

We present these facts below to *Ver-o-Fato* readers, along with some additional details of our own.

1653: Vigia begins venerating the Saint before Belém does

Jesuits initiate the veneration of Our Lady of Nazareth in Vigia, Pará (within the region then known as Grão-Pará). However, the Círio—in the sense of a pilgrimage procession transporting the image from one location to another—only began to take place in this municipality in the mid-19th century, several years after the establishment of the Círio of Belém.

1700: First chapels built for the Saint

Plácido “finds” the image of Our Lady of Nazareth on the banks of the Murutucu stream. The beginning of veneration in Belém. Plácido’s house was located on the Maranhão road—now Largo de Nazaré—a stopping point for many travelers; this location helped the image become widely known in a short time.

Construction of the first small chapel at Plácido’s own home in 1720.

Dom Bartolomeu do Pilar, Bishop of Pará, reportedly visited the chapel in Plácido’s hut in 1721.

Construction of a second chapel—built of rammed earth—by Plácido and a devotee named Antônio Agostinho, between 1730 and 1744.

1773: The image of the saint is sent to Portugal

Dom João Evangelista visited the image in the chapel and arranged for it to be taken to Portugal with great ceremony for restoration.

Return of the image to Belém. Dom João Evangelista called upon the city to participate in a solemn procession to transfer the image from the port to its chapel on July 31, 1774.

July 31, 1774: Land is granted to the saint’s image

The government of Grão-Pará donated a *jeira* of land to the image so that a public square (*largo*) could be created in front of the Saint’s chapel.

A *jeira* can be a very large unit of measurement, corresponding to 16 to 36 hectares in some countries.

However, in certain regions of Brazil and Portugal where the term is still used, it corresponds to only 0.2 hectares—that is, 2,000 square meters.

July 31, 1774: Portugal authorizes the Nazaré festival

The bishop requested authorization from Portugal to hold an annual festival in honor of Our Lady of Nazaré. Authorization is granted for the Nazaré festival to be held in 1790.

Dom Francisco Maurício de Souza Coutinho becomes Governor-General of Grão-Pará and visits the settlement of Nazaré.

September 8, 1793: The First Círio of Belém

The first Círio in Belém was held to fulfill a vow made to the Saint by Dom Francisco Coutinho; he promised to carry out this act if he were cured of an illness.

He vowed to transport the Saint’s image in a procession from his palace to her hermitage.

And he vowed that, along the way, he would carry a *círio* with him.

According to the website lucidarium.com.br, a *círio* is an object with historical roots and both religious and cultural significance.

Literally, the site notes, a *círio* is a liturgical candle consisting of a central wick surrounded by solid or liquid wax; when lit, it burns slowly, illuminating an atmosphere of faith.

Yet its true importance transcends its physical form, as it represents hope and faith.

It is the light that dispels spiritual or material darkness.

Upon recovering from his illness, the Governor-General invited the inhabitants of the interior—the region of Grão-Pará—to the festivities, intending to hold a fair for regional products on the grounds belonging to the Saint’s hermitage.

During this first Círio, the Saint’s image was transported on an ox-drawn cart, held in the lap of the palace chaplain.

It was accompanied by approximately ten thousand people.

The Route of the First Círio

The image, having been removed from its hermitage the day before, had spent the night in the Governor-General’s palace chapel.

Consequently, the procession began in front of the palace, following this route:

1) Banks of the Piry Creek. 2) Casa das Canoas (Ver-o-Peso). 3) Rua da Praia (Avenida Quinze de Novembro). 4) Convent of Santo Antônio. 5) Estrada da Campina (Presidente Vargas). 6th) Largo da Pólvora (Praça da República). 7th) Estrada do Maranhão (Nazaré). 8th) The festival grounds (*arraial*).

1794: Change in the festival’s leadership

From this year onward, the festival of the Saint began to be organized by the Brotherhood of Our Lady of Nazaré.

1799: A new chapel for the Saint

Francisco de Souza Coutinho began construction of a new chapel, which was inaugurated between 1800 and 1802, coinciding with the Círio festivities.

1803: “The Mad Queen” introduces an allegory to the Círio

The Allegory of Dom Fuas Roupinho was introduced to the Círio by order of Queen Maria I. She would later travel to Brazil in 1808 during the Portuguese Court’s relocation to Rio de Janeiro, following Napoleon’s invasion of Portugal.

In the history of Portugal, she became known as “The Mad” (*A Louca*).

Journalist Luis Nassif acknowledges—in his article “Madness at Court: A Brief History of Maria I”—that this nickname may have been unfair to the queen.

However, he also recounts in the article that the queen was afflicted by mental illness starting in the early 1790s.

He notes that the condition was already severe by the time she arrived in Brazil in 1808. 

Before embarking with the Royal Family, she had reportedly come to believe that she was going to hell—the place where criminals would end up. 

In any case, due to her illness, by the time she arrived in Brazil, the queen had already been forced to step aside from the exercise of power—a situation that had been in effect since February 10, 1792.

She also had to accept the appointment of her son, the young Infante Dom João, as Prince Regent of Portugal, thereby entrusting him with the management of Portuguese state affairs.

The Allegory of Dom Fuas Roupinho

The real name of Dom Fuas Roupinho—whose allegorical figure was introduced to the *Círio* procession in 1803 by order of Queen Maria—was Fernão Gonçalves Churrichão.

However, he was also known as Farroupim.

According to Portuguese researchers Tiago João Queimada e Silva and José João da Conceição Gonçalves Mattoso, Dom Fuas Roupinho was a 12th-century Portuguese nobleman and warrior who became the *alcaide* (governor/castellan) of the Castle of Porto de Mós.

His exploits are steeped in legend.

The most famous of these involves a miracle attributed to Our Lady of Nazaré, as recounted in the Legend of Nazaré.

According to this legend, at dawn on September 14, 1182, Dom Fuas Roupinho was hunting along the coast of Porto de Mós, near his lands.

The day was shrouded in dense fog.

Suddenly, he spotted an animal—a stag—and began to pursue it.

The stag headed toward the highest, steepest point of the terrain where both the animal and Dom Fuas were located.

This spot overlooked the sea, forming a dangerous precipice.

Amidst the fog, the stag did not stop running and plunged over the cliff’s edge.

Dom Fuas suddenly realized he was still riding right beside a grotto—where an image of the Virgin Mary and the Infant Jesus was venerated—while teetering on the brink of the precipice, in mortal danger.

He then cried out:

“Lady, help me!” Instantly and miraculously, his horse came to a halt, planting its hind legs firmly on the rocky crag while its forelegs hung suspended over the void.

Thus, both horseman and mount were saved from certain death—a fall of over a hundred meters.

Dom Fuas Roupinho then dismounted and descended to the grotto to pray and give thanks for the miracle.

Afterwards, he summoned some stonemasons.

He ordered them to build a chapel over the grotto in memory of the miracle.

In this way, the *Ermida da Memória* (Chapel of Memory) came into being in Portugal, housing the miraculous image for the veneration of the faithful.

As for the Dom Fuas Roupinho allegory, it remains a feature of the *Círio* procession, known as the *Carro dos Milagres* (Float of Miracles).

(Illustration: The *Carro dos Milagres* being prepared for the *Círio*; image sourced from the internet)

Tags: Belém do ParáCírio de NazarécolunaculturaDestaqueHistória
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Oswaldo Coimbra

Oswaldo Coimbra

Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador. Email: oswaldocoimbra1@gmail.com

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