▪︎ Descoberta de pesquisadores da UFPA e Embrapa permite acelerar em até três vezes o desenvolvimento de novas variedades e abre caminho para produção de corantes naturais e antioxidantes em laboratório
▪︎ Pesquisa identifica genes responsáveis pela síntese de antocianinas e permite criação de rotas biotecnológicas para produção de moléculas de interesse farmacêutico e cosmético
▪︎ Estudo inédito revela que cultivares que levavam 24 anos para serem desenvolvidas poderão ser criadas em apenas 8 a 10 anos com apoio de dados genômicos
Brasília – Pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Embrapa Amazônia Oriental anunciaram o primeiro sequenciamento completo do genoma do açaí (Euterpe oleracea Mart.), um avanço que posiciona a ciência brasileira na vanguarda da bioeconomia global.
O estudo, detalhado no artigo intitulado “The genome sequence of the açaí berry (Euterpe oleracea Mart.) and RNA-Seq analysis of the fruit ripening” (A sequência do genoma da baga de açaí e análise de RNA-Seq do amadurecimento da fruta), foi publicado na prestigiada revista científica Genome.
A iniciativa representa um divisor de águas para a região amazônica, uma vez que o mapeamento genético permite compreender as bases moleculares de uma das frutas mais representativas do mercado nacional e internacional, oferecendo ferramentas para otimizar a produção e garantir a sustentabilidade da cadeia produtiva.
A pesquisa teve como ponto de partida a seleção criteriosa de amostras provenientes do banco genético da Embrapa, com destaque para a cultivar BRS Pai d’Égua, que é amplamente reconhecida por sua produtividade.
O esforço conjunto entre as instituições buscou não apenas decifrar a sequência de DNA, mas também analisar a expressão gênica durante o amadurecimento dos frutos, o que fornece dados cruciais para o setor produtivo e para a indústria de transformação.
A genética das cores: Roxo versus Branco
Um dos achados mais significativos do sequenciamento foi a comparação detalhada entre o açaí roxo e o açaí branco (apelidado na região de bacaba), visto que a diferença visual entre as variedades sempre foi objeto de curiosidade científica e comercial.

Os dados revelaram que a coloração característica da polpa roxa decorre da ativação de uma enzima específica que é responsável pela síntese de antocianinas — pigmentos naturais pertencentes ao grupo dos flavonoides, responsáveis por dar as cores azul, roxo, violeta e vermelho escuro a uma enorme variedade de plantas, flores e frutos —, as quais são pigmentos naturais com alto poder antioxidante.
Em contrapartida, o açaí branco (bacaba) apresenta uma inibição generalizada dos genes que iniciam o processo de coloração, o que resulta na ausência do pigmento sem, contudo, comprometer outras propriedades nutricionais da planta.
A compreensão desse mecanismo abre caminho para a manipulação precisa de características desejáveis, permitindo que a indústria selecione frutos com teores específicos de antioxidantes conforme a demanda do mercado farmacêutico ou alimentício.
A pesquisadora Elisa Moura, da Embrapa Amazônia Oriental, destaca que essa informação sobre a genética da planta pode agilizar o trabalho de campo, uma vez que permite identificar regiões do genoma que funcionem como marcadores para evitar a espera de cerca de seis anos até que tenhamos informações sobre produção de antocianinas e produtividade.
Aceleração do melhoramento genético
A aplicação prática desses dados genômicos promete revolucionar o tempo de resposta das pesquisas de campo, uma vez que o ciclo de vida do açaizeiro impõe desafios temporais significativos aos pesquisadores.
O conhecimento genômico do açaí pode acelerar em até três vezes as etapas de avaliação e seleção realizadas em campo no melhoramento genético convencional. Essa agilidade é fundamental para responder às mudanças climáticas e às novas pragas que podem ameaçar os plantios.

A importância dessa aceleração é evidenciada pelo histórico das cultivares lançadas pela Embrapa. A pesquisadora Maria do Socorro Padilha, responsável pela equipe que lançou a primeira cultivar de açaí em 2005, exemplifica o impacto do novo conhecimento recordando a linha do tempo daquela pesquisa.
De acordo com ela, foram necessários 24 anos de trabalho em campo para alcançar aquela primeira cultivar. Se os dados genômicos atuais estivessem disponíveis naquela época, o desenvolvimento poderia ter sido reduzido em até três vezes, levando entre oito a dez anos, no máximo.
Quando você tem informações consistentes do genoma da espécie, boa parte do trabalho de seleção pode ser feito dentro do laboratório, tornando-se muito mais fácil.
Impactos econômicos e biotecnológicos
Para além do campo, o sequenciamento do genoma do açaí serve como base para o desenvolvimento de novas rotas biotecnológicas, conforme aponta o professor Rafael Baraúna, do Instituto de Ciências Biológicas da UFPA.

A disponibilização dos dados em bases públicas permite que cientistas de todo o mundo estudem a biologia da planta e busquem a produção de moléculas de interesse farmacêutico e cosmético em larga escala.
Existe a possibilidade real de criar processos laboratoriais utilizando microrganismos, tais como bactérias e leveduras, para sintetizar compostos do açaí sem a necessidade de extração direta da planta.
Dessa forma, diminui-se a exploração da planta no campo e aumenta-se a produção dessas substâncias dentro de um ambiente controlado, o laboratório. É uma maneira mais sustentável de alcançar aquele produto de interesse da indústria, conforme conclui Baraúna.
As descobertas abrem caminho para a geração de novos produtos, como corantes naturais e antioxidantes, que possuem alto valor agregado nos mercados farmacêutico e cosmético.
Financiamento da pesquisa
O financiamento para este projeto foi viabilizado pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), reforçando a necessidade de investimento público em ciência regional.

O projeto Melhoraçaí – Fase III prossegue agora com o foco em pesquisas de açaí de touceira e na seleção de genótipos de açaí-solteiro (Euterpe precatoria Mart.), visando ampliar ainda mais a diversidade genética disponível para os produtores dos estados do Acre e Roraima.
Histórico de inovação e perspectivas
A Embrapa atua há quatro décadas no melhoramento genético do açaí, tendo marcos importantes como o lançamento da BRS Pará em 2005, com foco no aumento de produtividade, e da BRS Pai d’Égua em 2019, que trouxe como diferencial a distribuição equilibrada da colheita ao longo do ano quando irrigada como forma de minimizar a escassez do fruto no período de entressafra no Pará.

A evolução para o nível genômico consolida esse trabalho histórico, permitindo a prospecção de genes associados não apenas à cor, mas também à produtividade e à resistência a doenças.
O sequenciamento do genoma do açaí transcende a conquista acadêmica e se estabelece como um pilar estratégico para a soberania tecnológica da Amazônia. Ao decifrar o código genético da Euterpe oleracea, a ciência brasileira não apenas protege o patrimônio genético nacional contra a biopirataria, mas também oferece ao mercado soluções concretas para a sustentabilidade da bioeconomia.
A capacidade de prever a produtividade e a qualidade do fruto ainda na fase de muda garante ao produtor rural maior segurança nos investimentos e à indústria uma matéria-prima padronizada e de alta qualidade.
Em última análise, a integração entre a biotecnologia e o conhecimento tradicional acumulado em décadas de melhoramento genético convencional pavimenta o caminho para que o açaí deixe de ser apenas uma commodity agrícola e se transforme em uma plataforma de inovação para setores de alto valor agregado.
O sucesso desta parceria entre UFPA e Embrapa demonstra que o investimento em ciência básica é o caminho mais curto para o desenvolvimento econômico robusto e ambientalmente responsável na Região Norte.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















