Pesquisa realizada no Sirius revela como uma proteína ligada à doença de Creutzfeldt-Jakob pode mudar de comportamento e formar estruturas associadas à neurodegeneração
Uma descoberta feita por pesquisadores brasileiros em um dos mais avançados centros de pesquisa científica do país pode ajudar a explicar uma das etapas mais misteriosas das doenças causadas por príons.
O estudo, realizado com o auxílio do Sirius, o acelerador de partículas instalado em Campinas (SP), investigou o comportamento da proteína príon — molécula diretamente relacionada à doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma enfermidade rara, progressiva e atualmente sem cura.
A pesquisa ganhou nova dimensão no Brasil justamente quando a doença voltou ao centro das atenções após o diagnóstico do piloto e influenciador Lito Sousa. Mas existe uma diferença fundamental: o estudo brasileiro não investigou o caso de Lito e não representa um tratamento disponível contra a doença.
O que os cientistas conseguiram foi observar uma etapa extremamente importante do processo molecular que pode levar à formação dos agregados de proteínas associados às doenças priônicas.
O que os cientistas descobriram
Para entender a importância da pesquisa, é preciso voltar ao início do problema.
A proteína príon existe normalmente no organismo e é encontrada principalmente no sistema nervoso. Em determinadas circunstâncias, porém, ela pode assumir uma conformação anormal.
Essa versão alterada é capaz de induzir outras proteínas normais a mudar de estrutura. O processo pode desencadear uma espécie de reação em cadeia, levando ao acúmulo de proteínas e à destruição progressiva dos neurônios.
É justamente esse processo que está relacionado à doença de Creutzfeldt-Jakob.
O trabalho dos pesquisadores brasileiros concentrou-se em uma etapa que durante muito tempo permaneceu difícil de observar: o momento em que as proteínas começam a se organizar antes de formar agregados mais rígidos.
Os cientistas identificaram estruturas semelhantes a pequenas gotas líquidas, conhecidas como condensados biomoleculares.
Em determinadas condições, essas estruturas podem permanecer dinâmicas. As moléculas continuam se movimentando dentro delas.
O problema aparece quando esse comportamento muda.
Do líquido ao “gel”
O estudo mostrou que a interação da proteína príon com íons de cobre pode favorecer a formação desses condensados.
O cobre é um elemento essencial ao organismo e participa de diversas funções celulares. Ele também está presente em regiões do cérebro envolvidas na comunicação entre os neurônios.
Em determinadas condições químicas, entretanto, o cobre pode participar da formação de espécies reativas de oxigênio, moléculas capazes de provocar estresse oxidativo e danificar componentes celulares.
Os experimentos indicaram que, diante de condições oxidativas, esses condensados podem sofrer uma transformação.
Em vez de continuarem se comportando como estruturas líquidas e dinâmicas, podem adquirir características mais rígidas, semelhantes às de um gel, aproximando-se de estados associados à agregação das proteínas.
Essa transição é uma das partes mais interessantes da descoberta.
É como se os pesquisadores tivessem conseguido acompanhar uma proteína enquanto ela atravessa uma espécie de “ponto de não retorno” físico-químico.
Sirius permitiu observar o processo em escala microscópica
Para enxergar esse fenômeno, os pesquisadores utilizaram a linha de luz Cateretê, instalada no Sirius.
Uma das técnicas empregadas foi a espectroscopia de correlação de fótons de raios X, conhecida pela sigla XPCS.
O método permite estudar não apenas a aparência das estruturas, mas também sua dinâmica.
Isso foi essencial para o experimento.
Segundo o LNLS, técnicas convencionais conseguem fornecer informações sobre as estruturas como um todo. O XPCS, por sua vez, permite obter informações quantitativas sobre a dinâmica das estruturas condensadas e determinar características relacionadas aos estados líquido e gel.
As gotículas estudadas podem concentrar proteínas em níveis muito superiores aos encontrados no ambiente ao redor.
Essa concentração elevada ajuda a explicar por que essas estruturas despertam tanto interesse científico.
O que inicialmente parece ser apenas uma pequena alteração na organização molecular pode representar uma etapa importante para a formação de agregados mais estáveis.
A descoberta pode mudar a forma de procurar tratamentos
É nesse ponto que o estudo ganha uma importância que vai além da própria DCJ.
Se a transformação das proteínas ocorre em etapas, talvez exista uma janela de oportunidade antes que os agregados mais difíceis de eliminar sejam formados.
Essa é uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores.
Em vez de tentar destruir uma estrutura proteica já consolidada, futuras terapias poderiam eventualmente tentar impedir que ela chegasse a esse estágio.
A pesquisadora Mariana Juliani do Amaral, autora principal do trabalho, destacou ao LNLS que as gotículas líquidas podem representar potenciais alvos farmacológicos justamente porque são estruturas intermediárias entre a proteína solúvel e o agregado.
A ideia seria investigar se é possível manter essas estruturas em um estado mais dinâmico e, dessa maneira, impedir ou retardar a progressão do processo de agregação.
Mas essa possibilidade ainda pertence ao campo da pesquisa.
Não existe, neste momento, um medicamento baseado nessa descoberta capaz de tratar ou curar a doença de Creutzfeldt-Jakob.
Por que a DCJ é tão difícil de combater?
A doença de Creutzfeldt-Jakob está entre as enfermidades neurodegenerativas mais devastadoras conhecidas pela medicina.
A evolução costuma ser rápida e pode provocar perda de memória, alterações cognitivas, dificuldades motoras, problemas de comunicação e perda visual.
No Brasil, a doença é rara e existem menos de 100 casos suspeitos registrados por ano, segundo informações divulgadas pela Agência Brasil.
O grande problema é que, na maioria dos casos, os médicos ainda não conseguem determinar exatamente por que a proteína normal começa a assumir a forma anormal.
Existem casos hereditários provocados por mutações genéticas e formas adquiridas extremamente raras. Entretanto, na maioria das ocorrências, a origem permanece desconhecida.
E quando os sintomas aparecem, o processo neurodegenerativo já está em andamento.
Diagnóstico ainda é outro desafio
A ciência também avançou no diagnóstico.
Um dos exames mais sofisticados atualmente disponíveis para identificar a DCJ é o RT-QuIC, técnica capaz de detectar a presença de atividade priônica em amostras de líquor.
No Brasil, entretanto, o exame ainda é realizado de forma bastante restrita e não integra plenamente as diretrizes nacionais para diagnóstico da doença.
Especialistas defendem a ampliação do acesso ao método justamente porque a doença evolui rapidamente e um diagnóstico mais preciso pode ser decisivo para orientar pacientes e famílias.
Caso Lito Sousa expôs o tamanho do problema
A discussão sobre a DCJ ganhou enorme repercussão no país depois que o piloto e influenciador Lito Sousa revelou seu diagnóstico.
O caso provocou uma mobilização nas redes sociais em busca de tratamentos experimentais.
Existem atualmente pesquisas internacionais tentando atacar a doença por caminhos diferentes. Uma delas utiliza uma estratégia para reduzir a produção da proteína príon normal, numa tentativa de diminuir a quantidade de moléculas disponíveis para serem convertidas em formas anormais.
Mas esses tratamentos ainda estão em investigação.
A farmacêutica Ionis, por exemplo, conduz estudos com o composto experimental ION717. O medicamento ainda está em estágio inicial de avaliação e não teve eficácia comprovada.
O Broad Institute, ligado a Harvard e ao MIT, também desenvolve pesquisas experimentais para reduzir a produção da proteína príon.
Ou seja: a ciência está avançando, mas ainda não existe uma terapia comprovadamente capaz de interromper a doença.
Brasil também procura uma resposta
A pesquisa realizada no Sirius não é a única iniciativa brasileira nessa área.
Pesquisadores da UFRJ, da Universidade Federal Fluminense e da Universidade Federal de Goiás investigam compostos derivados da moringa oleífera.
Em experimentos de laboratório, dois compostos — ácido clorogênico e ácido neoclorogênico — apresentaram resultados considerados promissores.
Os testes indicaram que as substâncias podem interferir na capacidade da proteína anormal de converter proteínas normais e também apresentaram sinais de desagregação de estruturas já acumuladas.
O resultado, porém, ainda precisa ser confirmado em células, animais e, posteriormente, em seres humanos.
Não há qualquer evidência de que consumir moringa seja capaz de tratar a DCJ. A pesquisa está em estágio inicial e os próprios pesquisadores alertam que uma substância que funciona em laboratório pode apresentar efeitos completamente diferentes dentro do organismo humano.
Uma descoberta pequena para os olhos, gigante para a ciência
O trabalho realizado no Sirius não produziu uma cura.
E talvez esse seja justamente o ponto que precisa ser compreendido.
Em doenças extremamente complexas, grandes avanços nem sempre começam com um medicamento. Às vezes começam quando os cientistas conseguem enxergar pela primeira vez uma etapa que antes permanecia escondida.
Foi isso que aconteceu com a pesquisa brasileira.
Os pesquisadores conseguiram acompanhar o comportamento de uma proteína ligada a uma doença devastadora e identificar condições que podem favorecer sua transformação de uma estrutura dinâmica para outra mais rígida.
Essa informação pode ajudar a responder uma pergunta que permanece aberta: em que momento uma proteína normal deixa de ser apenas uma molécula do organismo e começa a participar de um processo capaz de destruir o cérebro?
Responder a essa pergunta pode levar anos.
Mas cada detalhe descoberto aproxima a ciência de um possível ponto de intervenção.
E, diante de doenças que atualmente oferecem poucas alternativas aos pacientes, descobrir onde o processo começa pode ser tão importante quanto descobrir como interrompê-lo.
Fonte: olhardigital.com.br














