Criador do sistema que fraudou milhões de autenticações na fraude do INSS, tem 28 anos, e é chamado de “gênio do mal do crime”, em oitiva
Brasília – Com apenas 28 anos de idade, Igor Dias Delecrode, nominado chefe da quadrilha dos “Golden Boys do INSS”, chegou para depor na CPMI do INSS nesta segunda-feira (11) munido de um habeas corpus diferenciado exarado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), alvo de pesadas críticas dos membros do colegiado. Embora tenha se recusado a colaborar com as investigações, Delecrode teve o celular apreendido por ordem da CPMI que, em mais 5h32 de audiência, expôs o papel-chave do investigado na maior fraude contra aposentados e pensionistas no mundo.
A sessão, conduzida pelo presidente Carlos Viana (Podemos-MG), expressou preocupação com a concessão de um habeas corpus pelo ministro Gilmar Mendes ao investigado, afirmando que a decisão “pouco importa” ao Parlamento. O senador Rogério Marinho (PL-RN) corroborou essa visão, criticando a “jurisprudência de exceções” e a “disfuncionalidade de funcionamento dos Poderes”, defendendo a necessidade de o Congresso Nacional “retomar a sua coragem de Poder” promovendo uma revisão no papel dos poderes.
Atuado como agente de marketing do governo, a intervenção do deputado Paulo Pimenta (PT-RS) anunciou a extensão do prazo para aposentados e pensionistas reclamarem valores roubados até 14 de fevereiro de 2026, com R$ 2,541 bilhões já devolvidos a 3.721.259 pessoas, e 4,827 milhões de pessoas aptas a aderir.
O líder do governo na CPMI, entretanto, foi contraditado por vários membros, uma vez que o que está sendo pago é recurso do contribuinte, e o dinheiro roubado continua oculto pelos criminosos que patrocinaram o escândalo.
O senador Izalci Lucas (PL-DF) manifestou indignação com a decisão do STF e a ineficácia da CPMI em prender os envolvidos, sugerindo uma reunião com o ministro André Mendonça.
O silêncio de Igor Dias Delecrode e as acusações da CPMI
O ponto central da sessão foi o depoimento de Igor Dias Delecrode, dirigente da Associação de Amparo Social ao Aposentado e Pensionista (Aasap), convocado por múltiplos requerimentos. Igor, de 28 anos, formado em Gestão Financeira e pós-graduado em Controladoria e Auditoria Financeira, fez uso de seu direito constitucional ao silêncio, amparado por um habeas corpus concedido pelo ministro Gilmar Mendes. Seu advogado, Dr. Levy Emanuel Magno, argumentou que Igor é investigado por organização criminosa e que qualquer informação poderia ser incriminadora, além de alegar que a defesa não teve acesso completo aos autos da investigação.
O relator Alfredo Gaspar (União-AL) iniciou o interrogatório de forma incisiva, classificando o silêncio de Igor como uma “tapa na cara do povo brasileiro”. Gaspar detalhou a suposta participação de Delecrode em um esquema que desviou R$ 1,4 bilhão, afirmando que Igor, aos 28 anos, foi presidente da Aasap e teve envolvimento com a Amar Brasil, Anddap e Master Prev.
Segundo o relator, Igor seria o “cérebro tecnológico das fraudes” através de sua empresa Power-Bi, que teria desenvolvido um sistema sofisticado para coleta e verificação de autenticidade de dados, burlando o sistema de biometria facial do INSS e modificando registros na Dataprev — um crime federal grave.
“A Aasap conseguiu o ACT em 12 de julho de 2023. Quem concedeu o ACT? Jucimar Fonseca foi quem possibilitou. Quem era o Dirben que assinou? André Fidelis,” revelou o relator Alfredo Gaspar.
O relator citou transferências milionárias para as contas de Igor, incluindo R$ 3 milhões da advogada Thamires de Araújo Lima (advogada da Amar Brasil, Master Prev e Aasap), R$ 1,5 milhão de Anderson Cordeiro, e R$ 2 milhões da Travagli Imports, totalizando mais de R$ 15 milhões em suas contas pessoais. Ele mencionou a apreensão de bens, incluindo um Porsche de R$ 650 mil, uma gota d’água no mar de corrupção que cerca o investigado.
O deputado Kim Kataguiri (União-SP) questionou Igor sobre sua sociedade em empresas como Power-Bi, Engaja Soluções, Rhino Tech, Sank Soluções, ICD Tech e Clint Hub, todas criadas entre 2020 e 2025.
O advogado de Igor argumentou que, sendo investigado por organização criminosa, mesmo a confirmação pública de sociedade seria incriminadora. Kataguiri afirmou que a Controladoria-Geral da União (CGU) apontou Igor como o elo central na fraude, responsável por sites de assinatura digital que filiavam aposentados, e que sua tecnologia não era capaz de diferenciar uma “selfie de um xerox” para validação biométrica, permitindo filiações fraudulentas. Ele também citou um caso judicial em que a Aasap foi condenada por inconsistências de geolocalização.
O senador Sergio Moro (União-PR) fez perguntas diretas sobre pagamentos de propina a funcionários do INSS (Stefanutto, Virgílio Oliveira, André Fidelis) e ao Ministro Carlos Luppi, e a Frei Chico (irmão do Presidente Lula), recebendo silêncio em todas as ocasiões. Moro interpretou o silêncio de Igor como uma admissão de culpa, afirmando que a Aasap teria roubado R$ 63 milhões de 1.222.637 pessoas.
A apreensão do celular e o confronto com o judiciário
Em um dos momentos de maior tensão, o relator Alfredo Gaspar requereu a apreensão do celular de Igor Dias Delecrode e acesso a mensagens e e-mails, o que foi aprovado por votação simbólica.
O presidente Carlos Viana determinou a apreensão imediata do aparelho (um iPhone 17, comprado na mesma semana), e Igor Dias Delecrode solicitou que fosse lacrado em sua presença. Seu advogado, Dr. Levy Emanuel Magno, manifestou inconformismo, questionando a legalidade da apreensão sem ordem judicial específica para quebra de sigilo, e se recusou a fornecer a senha. O presidente Viana reiterou a autonomia da CPMI para tais atos, afirmando que o aparelho seria periciado pela Polícia Legislativa.

Os Golden Boys do INSS: quem são e como atuam?
Donos de fintechs e construtoras que ostentam casas e carros de luxo em Alphaville, região nobre de Barueri, na Grande São Paulo, controlam associações de aposentados investigadas pela Polícia Federal (PF) por participação na farra dos descontos indevidos do INSS. São os “Golden Boys do INSS”, braço tecnológico da fraude.
Igor Dias Delecrode, de 28 anos; Felipe Macedo Gomes, 35 anos; Anderson Cordeiro, 38 anos; e Américo Monte, o “decano”, com 45 anos, comandam as entidades Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev, ANDAPP e AASAP. Juntas, as quatro associações faturaram mais de R$ 1,1 bilhão com descontos de mensalidade de aposentados.
Documentos internos e relatórios do Coaf indicam que os “Golden Boys do INSS” desviaram recursos de associações para suas próprias empresas.
O esquema incluía um sistema de biometria criado para fraudar assinaturas de aposentados no ato de filiação.
Papéis citam pagamentos a parentes de dirigentes do INSS por meio dessas empresas.
Há registros de gastos em concessionárias de carros esportivos, joalherias de luxo e embarcações.
Além de uma fintech e uma construtora, o grupo mantém empresas de crédito consignado em Alphaville, em Barueri, onde seus integrantes residem em casas de alto padrão.
Narrativas conflitantes sobre a origem da fraude
A sessão também foi palco de um intenso embate político sobre as origens e responsabilidades pelo esquema de fraude.
O deputado Paulo Pimenta (PT-RS) apresentou uma linha do tempo que ligava a origem das fraudes ao governo anterior, citando o Decreto 10.537/2020, assinado por Jair Bolsonaro, Paulo Guedes e Onyx Lorenzoni, que ampliou o rol de entidades aptas a realizar descontos associativos, e a Instrução Normativa 110/2020 (assinada por Rolim, então presidente do INSS), que permitiu a formalização de filiações em meio eletrônico.
Pimenta afirmou que “sem esses dois documentos não existia Igor Delecrode” e que o governo Bolsonaro foi “conivente”. Ele exibiu imagens de 29 veículos de luxo apreendidos, incluindo Ferraris e Porsches, supostamente pertencentes a Igor e sua quadrilha.
A senadora Eliziane Gama (PSD-MA) reforçou a argumentação, afirmando que o esquema foi amparado por um “colchão de legalidade imposta” e que “o Igor Dias… não estaria… se esse decreto do ex-presidente Bolsonaro não tivesse sido encaminhado para o Congresso Nacional”. Ela apontou que a MP 871, de 2019, que visava dificultar fraudes, teve dispositivos vetados por Bolsonaro, e que a “solução provisória” de maio de 2024, criada por Geovani Spiecker e Alessandro Stefanutto, supostamente para modernizar a biometria, na prática abriu um “canal de fraudes”.
Em contrapartida, o senador Márcio Bittar (PL-AC) e outros parlamentares da oposição rebateram, afirmando que a roubalheira é um “modelo” inerente à “esquerda”, comparando-a a esquemas como o Mensalão e o Petrolão. Bittar apresentou vídeos sobre desvios em fundos de pensão de estatais durante governos anteriores e defendeu que Jair Bolsonaro agiu para combater fraudes, como a MP 871.
“A narrativa da esquerda é querer colocar o seguinte: ‘Não, o Bolsonaro quis favorecer o escândalo com os ACTs’. Primeiro que ACT em si não é crime, o problema não é o ACT”, salientou o senador Marcos Rogério (PL-RO).
Marcos Rogério criticou as “narrativas de lado a lado”, mas defendeu que as fraudes não começaram no “Governo Lula 3”, e que a MP 871 de Bolsonaro, que era “antifraude”, foi combatida pela “esquerda” e pelo PT. Ele argumentou que o problema não é o ACT em si, mas a “associação indevida”.
A deputada Bia Kicis (PL-DF) chamou a narrativa da base do governo de “bizarra” e “cansativa”, destacando a MP 871 como a “primeira e única medida, em 30 anos, que atacou a fraude do INSS”.
Apelos morais e advertências judiciais
Diversos parlamentares expressaram revolta e fizeram apelos diretos a Igor. O Deputado Zé Trovão (PL-SC) alertou Igor Delecrode sobre as penas criminais que poderia enfrentar, somando mais de 18 anos de prisão por estelionato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Ele questionou a filiação de “mais de 5 mil filiações [de] menores de 16 anos”, incluindo crianças de 6 e 9 anos, através do sistema de Igor.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) fez um apelo emocional à mãe de Igor e o exortou a colaborar para reduzir sua pena, criticando a falta de fiscalização da Receita Federal na abertura de múltiplas empresas por um mesmo sócio.
Em um momento simbólico, o deputado Duarte Jr. (PSB-MA) questionou Igor sobre a marca de seus sapatos, que ele se recusou a responder. Duarte então revelou que Igor usava sapatos Hermès de quase R$10 mil, classificando-o como “nojento” e “podre” por ostentar tal luxo enquanto aposentados eram lesados. Ele citou um caso judicial em Minas Gerais onde o sistema “Regula.Sign”, supostamente de Igor, foi usado para validar filiações fraudulentas.
O senador Magno Malta (PL-ES), em participação por videoconferência, dirigiu-se a Igor de forma veemente, questionando sua fé evangélica e conclamando-o a devolver os valores roubados “quatro vezes mais”, como Zaqueu, e desejando-lhe a prisão.
Indignação exposta
O presidente Carlos Viana encerrou a sessão reafirmando a indignação da CPMI e a determinação em buscar justiça. Ele criticou o habeas corpus concedido, classificando-o como uma prova de que “no Brasil, há diferenças, e muitas diferenças, entre quem pode ou não pagar um advogado caro”, e que a decisão do STF demonstra que o Parlamento “não importa”. Viana expressou a confiança de que Igor “vai pagar” pelos crimes e que o silêncio dele é o “silêncio da culpa”, um “espelho” que reflete um “Brasil ferido pela corrupção”.
“Esta CPMI não é contra pessoas, é a favor da verdade. Não é contra um Governo, é a favor do Brasil”, explicou.
A comissão convocou o advogado Eric Fidelis para oitiva na próxima quinta-feira (13), buscando novas informações para esclarecer o esquema de fraudes. A sessão deixou claro o ambiente de polarização política e a crescente tensão entre o Legislativo e o Judiciário na investigação dos desvios bilionários do INSS.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














