Processo reúne 22 testemunhas, múltiplos réus e previsão de sete dias de julgamento
Brasília – Teve início nesta segunda-feira (13/4) o julgamento do caso considerado a maior chacina do Centro-Oeste, que deixou dez pessoas da mesma família mortas entre o fim de 2022 e janeiro de 2023, em Planaltina (GO). A acusação sustenta que, em caso de condenação, a maioria dos réus pode receber penas superiores a 300 anos de prisão, em um processo que deve durar sete dias, com 22 testemunhas e interrogatórios dos acusados.
A avaliação é do assistente de acusação João Darcs, que representa a família de uma das vítimas. Segundo ele, o Tribunal do Júri deverá reconhecer a gravidade dos crimes e aplicar penas proporcionais à participação de cada acusado.
“O que se espera é a condenação a penas superiores a 300 anos, com exceção do Carlos Henrique, cuja participação, ao que tudo indica, foi mais restrita”, afirmou. Darcs disse ainda que a individualização das condutas será ponto central para a definição das penas. “Cada um vai responder na medida da sua culpabilidade”, declarou.
O caso chega ao Tribunal do Júri com uma estrutura processual que evidencia sua complexidade. Além da multiplicidade de réus, o processo envolve várias vítimas, um volume elevado de testemunhas e a necessidade de apuração individualizada das condutas atribuídas a cada acusado.
A previsão é de que as oitivas das testemunhas de acusação e de defesa, seguidas dos interrogatórios, ocupem boa parte do cronograma até a decisão final dos jurados.
A sessão deve se estender até domingo (19/4), quando o Conselho de Sentença, formado por sete jurados, vai decidir pela condenação ou absolvição dos acusados. Na prática, o julgamento testará a capacidade do tribunal de conciliar a dimensão coletiva da chacina com a análise individual da responsabilidade penal de cada réu, ponto que a própria acusação já aponta como decisivo para a fixação das penas.

Polícia desvendou a trama diabólica e o papel de cada um da quadrilha
Segundo a investigação, em menos de três semanas, uma articulação que teria começado como um plano para tomar um patrimônio dos membros da mesma de uma mesma família estimado em R$ 2 milhões evoluiu para uma sequência de crimes marcada por violência extrema e pela eliminação sistemática das vítimas.
De acordo com a apuração, os acusados teriam agido de forma coordenada para atrair, render e manter familiares em cativeiro, além de usar os celulares das próprias vítimas para tentar alcançar novos alvos.
A escalada do crime terminou com a morte de dez integrantes da mesma família: Marcos Antônio Lopes de Oliveira, 54 anos; Renata Juliene Belchior, 52; Gabriela Belchior de Oliveira, 25; Thiago Gabriel Belchior de Oliveira, 30; Elizamar da Silva, 39; Gabriel Silva, 7 anos; Rafael e Rafaela Silva, 6 anos; Cláudia Regina Marques de Oliveira, 55; e Ana Beatriz Marques de Oliveira, 19 anos.

No banco dos réus, estão Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Carlomam dos Santos Nogueira, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva.
Linha do tempo do caso
・Antes de dezembro de 2022
Segundo o Ministério Público, Gideon, Horácio, Fabrício e Carlomam teriam se associado para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã, avaliada em cerca de R$ 2 milhões, além de subtrair dinheiro da família de Marcos. O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar familiares.
・27 de dezembro de 2022 — Início dos crimes
Gideon, Horácio e Carlomam, com um adolescente, vão à casa de Marcos
Marcos é baleado
Renata (esposa) e Gabriela (filha) são rendidas
Cerca de R$ 49,5 mil são roubados
As três vítimas são levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina
Marcos é assassinado no cativeiro e corpo é enterrado no local
Renata e Gabriela permanecem em cárcere
・28 de dezembro de 2022
Fabrício assume a vigilância do cativeiro
O adolescente foge
Vítimas são ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas
Criminosos passam a usar os celulares das vítimas
Grupo começa a monitorar Cláudia (ex-esposa) e Ana Beatriz (filha de Marcos), para atrair as duas e obter R$ 200 mil da venda de um imóvel
・Entre 2 e 4 de janeiro de 2023
Cláudia e Ana Beatriz são rendidas na casa onde moravam. As duas são levadas ao cativeiro e são ameaçadas para fornecer senhas bancárias
・12 de janeiro de 2023
Grupo identifica Thiago (filho de Marcos) como possível ameaça. Ele é atraído à chácara Quilombo e rendido por Carlomam e Carlos Henrique, e levado ao cativeiro
Com acesso ao celular de Thiago, criminosos atraem Elizamar (esposa). Ela chega ao local com os três filhos pequenos
Todos são rendidos e levados para Cristalina (GO)
Elizamar e as três crianças são mortas por estrangulamento
Corpos são incendiados dentro do carro
・14 de janeiro de 2023
Renata e Gabriela são levadas para Unaí (MG). As duas são mortas por estrangulamento. Corpos são queimados dentro do carro de uma das vítimas
Após o crime, Fabrício rompe com o grupo e abandona a ação
・15 de janeiro de 2023
Gideon ordena a morte de Cláudia, Ana Beatriz e Thiago
Os três são levados e enterrados em uma cisterna. São assassinados a facadas e corpos são ocultados no local
Objetos das vítimas são queimados para dificultar as investigações
・17 de janeiro de 2023
Gideon e Horácio são presos
・18 de janeiro de 2023
Fabrício é preso
・25 de janeiro de 2023
Carlomam é preso
・26 de janeiro de 2023
Carlos Henrique (“Galego”) é preso.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















