Varejista coloca 542 lotes à venda na plataforma Kwara dias após pedir recuperação judicial de R$ 17,3 bilhões
Brasília – A Casas Bahia colocou à venda notebooks, smartphones e eletrodomésticos em dois leilões na plataforma Kwara, poucos dias depois de o grupo protocolar pedido de recuperação judicial no Foro Central Cível de São Paulo, em processo que envolve cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. O primeiro pregão, com 391 lotes, encerrou na quinta-feira (20) a partir das 15h, enquanto o segundo está marcado para 25 de agosto, às 10h30, com 151 lotes, entre cafeteiras superautomáticas, fogões de cinco bocas, lavadoras e refrigeradores.
O movimento ocorre em um momento de crise aguda para a varejista, que registrou prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, fechou quase 300 lojas e cortou aproximadamente 3 mil postos de trabalho. A companhia iniciou sua reestruturação em 2023, mas a situação se agravou a ponto de a empresa voltar à Justiça apenas dois anos após reestruturar R$ 4,8 bilhões em dívidas por meio de recuperação extrajudicial.
Os leilões, no entanto, não têm relação direta com a crise financeira, segundo a própria companhia. Em nota, a Casas Bahia informou que a prática é recorrente e está relacionada a produtos do DAT (Departamento de Assistência Técnica), ou seja, itens devolvidos ou com avarias que retornaram à empresa. A operação segue normalmente nas lojas físicas e no e-commerce, com foco na continuidade do atendimento e na experiência dos consumidores, afirmou a varejista.
A coincidência entre o pedido de recuperação judicial, protocolado em 16 de agosto, e a divulgação dos pregões gerou confusão nas redes sociais. Segundo o Google Trends, o volume de buscas por “leilão casas bahia” cresceu 5.000% na semana seguinte ao anúncio, em comparação com o período anterior. A plataforma Kwara confirmou que o acesso ao site aumentou de forma significativa após a notícia, mas disse não saber se haverá estoque ou novos lotes em função da recuperação judicial.
Os produtos são vendidos no estado em que se encontram, sem garantia de funcionamento e sem direito a troca ou devolução, podendo apresentar avarias, falta de peças ou até condição de sucata. A nota fiscal é emitida com natureza de venda de sucata, independentemente do estado real do bem, sem possibilidade de contestação posterior. Segundo o edital, os itens podem ter sujeira, ausência de manuais e bloqueios por senha, inclusive no iCloud.
Sobre o valor do lance incidem obrigatoriamente 5% de comissão do leiloeiro e 15% de despesas administrativas, um acréscimo de 20% antes de frete e retirada. Um lote arrematado por R$ 1.000 sai por R$ 1.200, e um lance de R$ 305 se converte em desembolso de R$ 366. O pagamento é feito por Pix, com prazo de um dia útil após a aprovação do lance vencedor, que a vendedora tem até cinco dias úteis para confirmar, o que significa que mesmo o maior lance pode não se concretizar.
A retirada é exclusiva em Jundiaí, no interior de São Paulo, mediante agendamento prévio, e corre por conta do arrematante. Quem não paga no prazo fica sujeito a multa de 5% mais 30% sobre o valor do arremate, além de impedimento de participação em futuros leilões da Kwara, inclusão em cadastros como Serasa e SPC e processos judiciais de cobrança.
Apesar dos descontos atrativos, o leilão não é isento de riscos para os consumidores. O edital estabelece que o lance vencedor não representa necessariamente a venda, já que boa parte das ofertas é classificada como “lances condicionais”, e o participante renuncia a direitos de reclamação, indenização ou reembolso relacionados aos lances, em condição considerada irrevogável e irretratável.
A crise da Casas Bahia, uma das varejistas mais tradicionais do país, é atribuída pela empresa a juros elevados, restrição de crédito e pressão sobre o consumo. O pedido de recuperação judicial busca renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas, dos quais cerca de R$ 16,4 bilhões referem-se à classe de credores quirografários, e ocorre após o oitavo trimestre consecutivo de prejuízo. Não há confirmação de que os lotes leiloados venham das unidades encerradas na reestruturação.
Embora os leilões sejam uma prática comercial recorrente e desvinculada da crise, eles expõem, de forma simbólica, o esforço da Casas Bahia para gerar caixa e reorganizar suas operações em um cenário de endividamento bilionário, demissões em massa e fechamento de centenas de lojas, enquanto a varejista tenta convencer o mercado de que conseguirá atravessar a mais grave crise financeira de sua história.
Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















