Lucas e Jaqueline Chereze ostentavam viagens internacionais e mansão em Vicente Pires com dinheiro desviado da Capital de Prêmios; foram detidos quando se preparavam para fugir para os Estados Unidos
Brasília – Lucas Vitor Paiva Chereze e Jaqueline Isabel de Almeida Chereze foram presos no sábado (13), pela Polícia Civil do Distrito Federal quando se preparavam para fugir para os Estados Unidos. Os investigados são acusados de desviar mais de um milhão de reais de uma empresa de capitalização para custear uma vida de ostentação e estruturar uma plataforma concorrente de sorteios denominada Brasília Solidária.
A operação da 19ª Delegacia de Polícia (P Norte) revelou um esquema sofisticado de apropriação indébita qualificada, associação criminosa, coação de testemunhas e lavagem de dinheiro que pode resultar em até 20 anos de prisão para o casal.
O casal financiava seu estilo de vida luxuoso com recursos desviados da Capital de Prêmios — tradicional empresa na capital federal especializada em sorteios — onde Lucas atuava como ex-diretor financeiro.
As investigações apontam que os desvios ocorriam há pelo menos um ano, período durante o qual o casal exibia nas redes sociais viagens internacionais, veículos de alto padrão e uma série de vídeos de dança no TikTok.
As postagens registravam hospedagens em hotéis e resorts de luxo, refeições em restaurantes sofisticados, participação em festas e visitas a cassinos, reforçando uma rotina de ostentação que contrastava com a origem ilícita dos recursos.
Vida de luxo com o dinheiro alheio. Fotos: Redes Sociais
A abundância não se limitava às redes sociais. O casal residia em uma mansão em Vicente Pires, no Distrito Federal, um dos elementos que evidenciava o elevado padrão de vida mantido pelos suspeitos.
Segundo as diligências, Lucas se aproveitava do acesso privilegiado às contas da empresa para abrir contas bancárias em seu nome, direcionar depósitos realizados por distribuidores de cartelas dos sorteios de prêmios e efetuar transferências e saques sem autorização. Parte significativa dos valores desviados foi destinada à criação da plataforma concorrente de sorteios, configurando não apenas enriquecimento ilícito, mas também concorrência desleal.
As investigações revelaram ainda que Lucas intimidava ex-funcionários e testemunhas em uma tentativa de evitar que prestassem informações ou colaborassem com o andamento das investigações.
Esse comportamento agravou as acusações contra o casal, adicionando à denúncia o crime de coação no curso do processo. Durante a operação de prisão, os agentes apreenderam duas pistolas, uma espingarda, cofres, passaportes, um veículo de luxo e outros automóveis utilizados pela empresa investigada, evidenciando a sofisticação do esquema criminoso.
Segundo o delegado-chefe da 19ª DP, Fernando Fernandes, o casal tinha viagem marcada para os Estados Unidos na segunda-feira (15), o que reforçou a necessidade do cumprimento imediato das medidas judiciais.
A fuga iminente sugere que os investigados tinham consciência da gravidade das acusações e buscavam se esquivar da ação da justiça brasileira.
O timing da operação foi crucial para impedir que os suspeitos deixassem o país e dificultassem ainda mais as investigações.
A Capital de Prêmios, empresa vítima do desvio, divulgou nota por meio de seu Instagram reafirmando seu compromisso histórico com a legalidade, a transparência e a integridade institucional.
A assessoria jurídica informou que permanece à disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos solicitados e que continuará acompanhando o caso, adotando todas as medidas cabíveis para a proteção dos interesses da instituição, dos parceiros comerciais e dos participantes.
A empresa também ressaltou que está empenhada em restaurar a confiança de seus clientes após o episódio de fraude interna.
O caso ilustra um padrão crescente de fraudes financeiras no Brasil que combinam desvio de recursos, lavagem de dinheiro e ostentação em redes sociais.
A exposição pública do estilo de vida luxuoso, paradoxalmente, tornou-se uma ferramenta de investigação para as autoridades, permitindo rastrear a origem dos recursos e documentar o enriquecimento ilícito. Os “vigaristas amadores” não se continham e escancaravam a “vida de barão” nas redes sociais.
As acusações contra Lucas e Jaqueline refletem a sofisticação de esquemas criminosos contemporâneos que exploram posições de confiança dentro de organizações para perpetrar fraudes de grande monta. As penas baixas, a atuação de escritórios criminais competentes e a certeza que “o crime vale a pena”, parecem motivar a atuação de uma legião de vigaristas e estelionatários Brasil afora.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.



















