▪︎“Fugir do mal”: Pastor Isidório “ensina” carona em moto sem “roçar”
▪︎ Deputado federal pelo Avante-BA, o pastor e ex-policial militar se tornou uma das figuras mais controversas do legislativo ao alternar mandato parlamentar com declarações de teor religioso e posicionamentos contrários à população LGBTQIA+, enquanto comanda a Comissão de Administração e Serviço Público da Câmara
▪︎ Entre vídeos virais, evangelismo no Carnaval e a criação do Dia Nacional do Orgulho Heterossexual, o parlamentar do Avante-BA transforma cada declaração em combustível para sua base e em alvo de críticas de setores organizados da sociedade
Brasília – O deputado federal Pastor Sargento Isidório (Avante-BA) tornou-se, nos últimos meses, protagonista de uma sequência de episódios que transcenderam os limites do plenário da Câmara dos Deputados e alcançaram as redes sociais, gerando repercussão nacional.
Entre um vídeo em que ensina como dar carona de moto sem contato físico com passageiros, uma abordagem evangelística durante o Carnaval de Salvador e a apresentação do Projeto de Lei 6.087/2025, que institui o “Dia Nacional do Orgulho Heterossexual”, o parlamentar de 63 anos mantém uma trajetória política marcada por declarações polêmicas e forte atuação da bancada evangélica.
Nascido em Salvador no dia 28 de julho de 1962, Manoel Isidório de Santana Júnior ingressou na Polícia Militar da Bahia em 1981 e serviu por mais de duas décadas antes de se aposentar como sargento.
Durante uma greve da categoria, foi preso e intoxicado por produtos químicos, o que lhe afetou as cordas vocais e o levou à UTI, episódio que ele costuma mencionar em seus discursos como marco de sua trajetória.
Paralelamente à carreira militar, tornou-se pastor vinculado à Assembleia de Deus e fundou a “Fundação Doutor Jesus”, instituição que mantém há mais de 30 anos para acolhimento de dependentes químicos.
Na política, sua estreia ocorreu em 1998 pelo PMDB, mas foi em 2018 que alcançou projeção nacional ao se eleger deputado federal mais votado da Bahia pelo Avante, com expressiva votação.
Antes disso, acumulou mandatos como deputado estadual e candidaturas a prefeito de Salvador e de Candeias, sem sucesso nas disputas municipais. Atualmente exerce o segundo mandato consecutivo na Câmara Federal, onde presidiu a Comissão de Administração e Serviço Público (CASP) entre março de 2025 e fevereiro de 2026, sendo eleito por unanimidade, e ocupa desde maio de 2026 a primeira vice-presidência do mesmo colegiado, além de atuar como vice-líder do Avante.
O vídeo da carona e a “aparência do mal”
No centro da mais recente polêmica está um vídeo publicado pelo próprio deputado em suas redes sociais. Nele, Isidório aparece conduzindo uma motocicleta sem capacete e sem qualquer equipamento de proteção, enquanto explica o método que adota para transportar passageiros sem que haja contato físico durante o trajeto.
“Assim não. Você já viu ex-gay dar… Vai procurar um jegue, rapaz. Vou botar um homem roçando em mim? É de costas, meu filho. De costas”, afirmou o parlamentar em um dos trechos da gravação.
Na sequência, Isidório recorre a uma passagem bíblica para justificar a postura. Segundo o deputado, a Bíblia orienta os fiéis a fugir da “aparência do mal”, e ele acrescentou que, apesar da idade, não é “besta”.
O episódio rapidamente se espalhou por plataformas como Instagram, Facebook e TikTok, gerando reações que oscilaram entre o humor e a crítica ao teor homofóbico da declaração.
Carnaval, evangelismo e o “furico de Deus”
Não é a primeira vez que o parlamentar mobiliza a atenção pública com declarações que mesclam proselitismo religioso e posicionamentos polêmicos.
Durante o Carnaval de fevereiro de 2026, Isidório foi flagrado por câmeras abordando um folião nas ruas de Salvador. No vídeo, o deputado diz: “Eu também era [gay] 34 anos atrás. Eu não tinha Jesus. Jesus não mudou minha vida? Ele muda a sua também. Esse furico aqui agora é de Deus.”
A frase — “Esse furico agora é de Deus” — tornou-se um dos bordões mais repercutidos do período carnavalesco, gerando memes e debates nas redes sociais sobre os limites entre liberdade religiosa, discurso parlamentar e respeito à diversidade sexual.
O projeto do orgulho heterossexual
A agenda legislativa do deputado também reflete seu posicionamento. Em 2 de dezembro de 2025, Isidório protocolou na Câmara o Projeto de Lei 6.087/2025, que propõe instituir o “Dia Nacional do Orgulho Heterossexual”, a ser comemorado anualmente no terceiro domingo de dezembro.
A proposta está em tramitação sob regime ordinário e aguarda designação de relator na Comissão de Cultura (CCULT), para onde foi encaminhada em 27 de janeiro de 2026 após despacho da Mesa Diretora.
Na justificativa do projeto, o parlamentar argumenta que o texto não busca privilegiar um grupo, mas sim reforçar o princípio constitucional da igualdade.
“Nossos irmãos que são gays não podem se entender melhores, ou como de uma classe especial de cidadãos brasileiros, pois como determina a nossa Carta Magna somos todos iguais perante a Lei, e não podemos abrir mão da liberdade religiosa que é outra cláusula constitucional chave para exercício pleno da cidadania”, afirma o deputado na exposição de motivos.
Isidório também sustenta que a espécie humana estaria sob risco de extinção. “Nós, legisladores, nos preocupamos com a preservação da tartaruga, do macaco prego, da baleia, dentre outros animais muito importantes em risco de extinção. Por óbvio, é de suma importância centrar atenção também em nós, seres humanos machos e fêmeas, homens e mulheres criados por DEUS, conforme define família tradicional”, escreveu.
Esta é a segunda vez que o parlamentar protocola o texto na Câmara. O primeiro projeto (925/2019) foi apresentado em fevereiro de 2019, mas não chegou a tramitar e foi devolvido ao autor.
Na ocasião, Isidório discursou em Plenário e se autointitulou como “ex-gay da Bahia”, declarando que a proposta seria uma resposta à Lei da Homofobia (7.716/1989) e que contribuiria para evitar a “inversão de valores”.
Cabe registrar que, na Bahia, o “Dia do Orgulho Heterossexual” já existe em âmbito estadual desde 2018, por meio da Lei 13.906/2018, de autoria do próprio Isidório quando era deputado estadual.
O deputado informa que o texto se baseou em projeto do ex-deputado Eduardo Cunha (então PMDB-RJ), apresentado em 2011 e posteriormente arquivado.
Histórico de controvérsias
As declarações de Isidório, no entanto, não se limitam à pauta da diversidade sexual. Em 2023, o parlamentar protagonizou um episódio que gerou representação na Procuradoria-Geral da República por transfobia.
Durante reunião de comissão na Câmara, ele se referiu à deputada Erika Hilton (PSOL-SP), primeira mulher trans eleita deputada federal no Brasil, utilizando pronomes masculinos e fazendo comentários considerados preconceituosos. Dias depois, recuou publicamente e afirmou “respeitar todo mundo”.
Em 2022, o então deputado David Miranda (PDT-RJ) protocolou uma representação no Ministério Público Federal contra Isidório por supostas práticas de homofobia na Fundação Doutor Jesus.
A denúncia apontava episódios de humilhação e zombaria em relação à orientação sexual de internos da instituição. As investigações ainda tramitam.
Em abril de 2026, Isidório voltou a ser notícia ao sair em defesa de um pastor da cidade de Feira de Santana (BA) investigado por homofobia. O deputado declarou publicamente que estava “disposto a ser preso” junto com o religioso, reforçando sua aliança com setores mais conservadores do segmento evangélico.
Paralelamente, o parlamentar também repercutiu por declarações sobre o exame de próstata — que classificou como uma experiência em que “viu estrelas”, gerando debates sobre prevenção à saúde masculina — e por improvisar uma canção em defesa da redução da jornada de trabalho 6×1 durante sessão de comissão especial em maio de 2026, num episódio que mesclou descontração e política.
Um personagem único?
A atuação do Pastor Sargento Isidório projeta para a Câmara dos Deputados um fenômeno que conjuga mandato parlamentar, ativismo religioso e presença digital. Sua base eleitoral na Bahia, estado de maioria evangélica crescente, mantém-se fiel, mas suas declarações reiteradas têm gerado desgaste institucional e reações de setores organizados da sociedade civil, especialmente do movimento LGBTQIA+ e de entidades de direitos humanos.
O PL 6.087/2025, se aprovado, representaria a institucionalização de uma pauta que acirra o debate sobre os limites entre a liberdade de expressão religiosa e a proteção de minorias contra discursos discriminatórios.
A tramitação nas comissões da Câmara, contudo, tende a ser lenta e sujeita a mobilizações de ambos os lados do espectro político. A proposta pode ser apreciada de forma conclusiva pelas comissões, sem necessidade de votação em Plenário, salvo recurso de parlamentares contrários.
Enquanto isso, Isidório mantém a rotina de postagens diárias nas redes sociais — onde acumula mais de 411 mil seguidores no Instagram —, alterna entre mensagens religiosas, críticas a pautas progressistas e defesa de suas bandeiras legislativas.
Em um dos episódios mais emblemáticos de sua trajetória recente, questionado sobre o porquê de evitar o contato físico ao dar carona, ele mesmo respondeu com a frase que talvez melhor sintetize seu posicionamento público: “Apesar da idade, não sou besta.”
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















