Para alguém se iniciar na profissão de jornalista, no Brasil, se houve um período muito desfavorável, no último século, foi, certamente, o dos Anos de Chumbo, ocorrido no governo do general Emílio Garrastazu Médici, entre os anos de 1969 e 1974.
Um período no qual foi negado aos brasileiros, de forma violenta, o exercício das liberdades civis, sem as quais o exercício do Jornalismo fica proibido.
A Ditadura Militar controlava o País, desde 1964.
E, a partir do final de 1968, já dispunha de um arcabouço jurídico que lhe permitia asfixiar qualquer aspiração dos brasileiros à pesquisa, ao pensamento e à expressão livres.
No quarto ano da vigência do regime militar, havia sido decretado o AI-5, Ato Institucional nº 5.
Uma aberração jurídica engendrada pelos militares para suspender os direitos individuais, silenciar vozes da oposição institucional, e, cassar mandatos políticos.
Na verdade, o que interessava aos chefes militares, nos Anos de Chumbo, era o fortalecimento do aparato da repressão policial, o DOI-CODI: Destacamento de Operações de Informações e Centros de Operações de Defesa Interna.
Cujas operações consistiam na vigilância, captura, tortura e morte de militantes de esquerda, artistas, jornalistas, estudantes, e, de qualquer pessoa considerada “subversiva” pelo regime.
Como destaca Roberta Bastos, em seu artigo “Governo Médici: repressão e crescimento econômico”, a atuação desse órgão se dava à margem de qualquer controle judicial.
Por isto, criava um clima de medo e desconfiança generalizado entre os brasileiros.
Roberta Bastos lembrou como, neste clima, foram afetados o Jornalismo e as Artes:
“A censura tornou-se uma prática cotidiana e abrangente. Nenhum meio de comunicação estava imune.
Jornais, revistas, programas de rádio e televisão, peças de teatro, filmes e letras de música precisavam passar pelo crivo de censores federais antes de serem liberados ao público.
Muitas vezes, jornais eram publicados com espaços em branco, ou, receitas culinárias, no lugar das matérias vetadas, um protesto silencioso, e, uma evidência explícita da mordaça imposta.
Artistas como Chico Buarque tornaram-se mestres em driblar a censura com letras metafóricas, embora muitas de suas obras fossem sumariamente proibidas”.
Segundo levantamento realizado pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura, durante os 10 anos de vigência do AI-5, sofreram veto cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros, e, mais de 500 letras de música.
Repressão ainda mais dura foi desencadeada com o surgimento dos focos de luta armada em oposição ao regime, acrescenta Roberta Basto.
Entre os anos de 1969 e 1974, a repressão violenta se estendeu ao Pará, quando aconteceu o confronto direto das Forças Armadas com os guerrilheiros do Araguaia.
Exatamente neste momento, surgiu o nome de Carlos Mendes no expediente de um jornal.
Ele tinha 24 anos de idade, quando “O Tabloide” exibiu o nome dele, no seu expediente.
Aquela publicação tinha surgido para combater ferozmente, nos poucos números de sua circulação, um dos dois mais poderosos representantes da Ditadura Militar em nosso Estado, o coronel Alacid Nunes.
Ele havia ocupado o governo do Pará, até um ano antes. E voltaria a exercer o cargo por mais quatro anos, ainda na vigência da Ditadura.
Naquelas circunstâncias, o jornal criou um breve momento de liberdade para críticas tanto a Alacid, como à outra pessoa muito influente, no Pará, naquela fase, o empresário Rômulo Mariorana.
Conseguiu isto graças ao apoio que lhe deu o general Tasso Moraes Rego Serra, descontente, com o rumo implantado à política do Pará, sob a proteção do ex e futuro governador Alacid.
O apoio do general Serra ao jornal mostrou a fissura do poder militar no Pará, surgida quando o comando político do Estado passou a ser repartido entre Alacid e outro militar, coronel Jarbas Passarinho, também colocado pela Ditadura no governo do Estado.
Embora as edições de O Tabloide não mostrassem explicitamente uma adesão do jornal ao grupo de Passarinho, a postura assumida em suas matérias era agressivamente contrária ao grupo de Alacid.
E, como estas matérias eram justificadas como defesa dos “verdadeiros ideais” do Golpe de Estado de 1964, elas coincidiam de modo tão claro com o discurso do grupo de Passarinho que a explicitação daquela adesão se tornava desnecessária.
Mas, mesmo com o apoio do general Serra, O Tabloide só pôde circular por breve tempo.
Repórter e editor
Em seus exemplares, o nome de Carlos Mendes apareceu com a identificação de repórter, e, de editor de uma página especializada em Literatura e Filosofia.
Nesta última função, coube a Mendes garantir aos leitores de O Tabloide um pouco da luz trazida por dois grandes autores franceses, naquela conjuntura do Pará sob as trevas do obscurantismo militar.
Mendes valeu-se para isto de um artifício empregado por artistas de teatro no esforço de escaparem dos vetos da Censura da Polícia Federal.
O de apelar para autores clássicos, supostamente desligados da realidade brasileira, nas exibições de suas peças.
Como Sófocles, autor de Electra.
Embora tenha se tornado motivo de piada o que ocorreu no dia da estreia da encenação desta peça, no Teatro Municipal de São Paulo, em 1965.
Quando um membro de órgão da repressão quis arrancar dos atores o endereço de Sófocles. Pois, alegou, talvez tivesse de obrigá-lo a comparecer a uma delegacia.
Como é sabido, Sófocles viveu na Grécia, onde morreu 405 anos antes de Cristo.
Foi, porém, para um filósofo revolucionário e dramaturgo francês que Mendes apelou.
François-Marie Arouet, que assinava seus textos com o pseudônimo de Voltaire, e, produziu sua obra, antes da Revolução Francesa, de 1789.
Criador politicamente ativo, Voltaire defendeu os direitos individuais, criticou o poder do clero católico e o fanatismo religioso da população.
E se indignou contra a injustiça patrocinada pelos poderosos.
Por seu ativismo, através de seus livros, peças e panfletos políticos, foi preso várias vezes.
De Voltaire, Mendes publicou um longo texto, ocupando a maior parte do espaço da página que editou.
Para outro autor clássico francês, Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, ele reservou um espaço menor.
Como também é sabido, Rimbaud, nascido em Marselha em 1854, não levou uma vida com a qual pudesse os militares pudessem simpatizar.
Libertino e inquieto, sua biografia foi marcada pelo relacionamento amoroso conturbado com outro poeta, Paul Verlaine.
E, para espanto de seus admiradores, ele abandonou subitamente sua carreira literária aos vinte anos de idade.
Este engajamento jornalístico-literário de Mendes aparentemente convenceu outro jovem paraense a entregar, para publicação em O Tabloide”, um texto dele escrito dois anos antes e ainda inédito.
Vicente Cecim, então, com 27 anos de idade, trabalhava como repórter, em outro jornal.
E só publicaria seu primeiro livro, “A Asa e a Serpente”, seis anos depois.
No texto que cedeu a O Tabloide, Cecim tratou de uma senhora de 45 anos, cujo trabalho como babá do filho de um casal de classe média foi aceito por ela, para levar adiante a criação de seu próprio filho, de 5 anos.
O texto tomou todo o espaço de outra página.
Seu título: “A babá”.
No final da página, uma nota informou sobre Cecim:
“É um dos melhores repórteres que temos no nosso Estado”.
(Ilustração: Capa de O Tabloide, edição de janeiro de 1973)















