▪︎Harvard e Veradermics anunciam avanço histórico: 8 em cada 10 pacientes respondem a nova pílula contra queda capilar
▪︎ Composto de liberação prolongada mostrou segurança cardíaca e eficácia em até 84,4% dos casos; Brasil tem 42 milhões de homens afetados pela condição
Brasília – Um estudo avançado mostrou que o VDPHL01, um remédio tomado por via oral feito pela empresa americana Veradermics, melhorou a queda de cabelo em até 86% dos pacientes depois de seis meses de uso. A informação foi divulgada pela própria empresa nesta segunda-feira (22). Cientistas e investidores receberam a notícia com muito entusiasmo, mas não houve a decretação do “fim das perucas”.
Especialistas estão chamando esse remédio de o maior avanço em décadas contra a calvície, um problema que atinge mais de 40 milhões de brasileiros e cerca de 80 milhões de pessoas nos Estados Unidos.
O medicamento ainda não foi liberado pelos órgãos que regulam esses produtos. A expectativa da Veradermics é pedir a aprovação da FDA (agência dos Estados Unidos) e da EMA (agência europeia) ainda neste ano. Se tudo der certo, o remédio deve chegar às farmácias apenas no final de 2027 ou no começo de 2028.
Um remédio “emprestado” da cardiologia que finalmente ganha identidade própria
O VDPHL01 representa uma virada conceitual no tratamento da calvície porque, pela primeira vez, um medicamento é desenvolvido especificamente para a queda de cabelo desde sua formulação original — e não adaptado de outra especialidade médica.
O minoxidil foi sintetizado nos anos 1960 e originalmente aprovado para o tratamento da hipertensão arterial. Durante seu uso, médicos observaram um efeito colateral curioso: o crescimento de pelos em áreas não desejadas. Desde então, formulações tópicas passaram a ser usadas para queda capilar, mas sempre de forma adaptada e com limitações.
O dermatologista Michael Gold, pesquisador principal do estudo clínico ‘302’, resume com clareza a relevância histórica do VDPHL01: “A dermatologia tem tratado a queda de cabelo com um medicamento emprestado da cardiologia, em uma formulação nunca destinada aos nossos pacientes, em doses que definimos informalmente. O VDPHL01 é a primeira formulação oral de minoxidil desenvolvida especificamente para a queda de cabelo padrão e, agora, a primeira a gerar resultados positivos de eficácia e segurança na Fase 3”, declarou.
O diferencial técnico do composto está na sua tecnologia de liberação prolongada, que permite uma absorção constante e lenta pelo organismo. Diferentemente das versões tópicas aplicadas diretamente no couro cabeludo, ou do minoxidil oral de liberação imediata (que ainda é usado off-label, sem aprovação específica para calvície), o VDPHL01 foi desenhado para manter níveis plasmáticos estáveis, evitando picos que poderiam causar efeitos colaterais.
Resultados clínicos robustos e ausência de eventos cardíacos graves
O estudo de fase 2/3 recrutou 519 pacientes homens com alopecia androgenética de leve a moderada, divididos em três grupos: os que receberam VDPHL01 na dose de 8,5 mg uma vez ao dia, os que receberam a mesma dose duas vezes ao dia e o grupo placebo. Após seis meses, os números impressionaram:
👉🏻 Melhora relatada pelos pacientes: 79,3% no grupo de dose única diária e 86% no grupo de dose dupla diária.
👉🏻 Crescimento capilar observado pelos pesquisadores: 72% no uso único diário e 84,4% no uso duas vezes ao dia.
Os resultados atingiram todos os desfechos primários e secundários com alta significância estatística, conforme documento protocolado pela Veradermics na Securities and Exchange Commission (SEC) dos Estados Unidos.
A empresa, que abriu capital em fevereiro de 2026, viu suas ações dispararem entre 25% e 42% na esteira da divulgação dos dados.
Um dado particularmente relevante para a segurança do tratamento é que não foram observados eventos adversos graves relacionados ao medicamento nem eventos adversos de interesse especial de origem cardíaca.
Essa é uma preocupação histórica com o minoxidil oral, já que sua origem como anti-hipertensivo sempre levantou questões sobre possíveis efeitos no sistema cardiovascular.
A dermatologista Marianna Makredes Senna, professora assistente de dermatologia na Universidade Harvard e membro do conselho consultivo científico da Veradermics, avalia o potencial da descoberta: “Acredito que uma terapia oral que melhorou a queda de cabelo na percepção de quase 80% dos pacientes e pesquisadores, que foi geralmente bem tolerada nos ensaios clínicos e que pertence a uma classe de medicamentos que os dermatologistas já se sentem confortáveis em prescrever, tem o potencial de transformar o panorama do tratamento da calvície masculina.”
O impacto no Brasil: 42 milhões de homens e a automedicação como sintoma social
A calvície é uma realidade para aproximadamente 42 milhões de homens brasileiros, número que coloca o país na 22ª posição no ranking global da condição, com cerca de 35,7% da população masculina afetada.
Dados da Assembleia Legislativa do Piauí apontam que o problema atinge mais de 40 milhões de brasileiros (precisamente 42 milhões), considerando homens, mulheres e jovens.
Um levantamento conduzido pela startup de saúde MANUAL revelou que 54% dos homens brasileiros queixam-se de queda capilar, sendo que 23% recorrem à automedicação com minoxidil sem prescrição ou acompanhamento especializado.
Além disso, 90% dos afetados não buscam tratamento contínuo, o que expõe uma lacuna significativa entre a demanda por soluções e o acesso a terapias eficazes e seguras.
O mercado global de restauração capilar reflete essa demanda reprimida: estima-se que o setor movimente o equivalente a R$ 63 bilhões até 2026, segundo levantamento da BBC News Brasil.
Nesse contexto, a perspectiva de um medicamento oral aprovado especificamente para queda de cabelo representa não apenas um avanço médico, mas também uma oportunidade econômica de enormes proporções.
O caminho regulatório
O VDPHL01 faz parte de um programa clínico robusto que inclui três estudos multicêntricos, randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo, com o objetivo de estudar 1.500 homens e mulheres com alopecia androgenética.
Em fevereiro de 2026, a Veradermics anunciou o recrutamento completo do segundo estudo pivotal de Fase 3, identificado como ‘304’, cujos resultados são esperados para o segundo semestre de 2026.
A empresa também iniciou em novembro de 2025 um estudo de fase 2/3 específico para alopecia androgenética feminina, ampliando o potencial de alcance do medicamento para além do público masculino.
Se aprovado, o VDPHL01 se tornará o primeiro tratamento oral não hormonal aprovado pela FDA para queda de cabelo em homens e mulheres nos Estados Unidos — um feito inédito em quase 30 anos.
Reid Waldman, CEO da Veradermics, declarou ao jornal New York Post em maio de 2026 que, mantendo-se o cronograma atual de estudos e o processo de aprovação regulatória, o medicamento pode chegar às farmácias dentro de dois a três anos. O prazo projetado coloca o lançamento comercial entre o final de 2027 e o início de 2028.
Enquanto isso, a comunidade dermatológica acompanha com expectativa os desdobramentos. O VDPHL01 não é o único candidato promissor em desenvolvimento — o PP405, por exemplo, também avança em estudos clínicos —, mas sua vantagem competitiva reside em pertencer a uma classe terapêutica já conhecida e amplamente prescrita pelos dermatologistas, o que pode facilitar tanto a aprovação regulatória quanto a adoção clínica.

Uma nova era para o tratamento da calvície? É o fim da peruca?
Os resultados do estudo ‘302’ representam um divisor de águas na abordagem terapêutica da alopecia androgenética.
Pela primeira vez, a medicina dispõe de evidências robustas de fase avançada para um medicamento oral desenvolvido especificamente para a calvície, com taxas de eficácia que superam significativamente as opções disponíveis no mercado.
A ausência de eventos adversos cardíacos graves e o perfil de segurança favorável reforçam o potencial transformador da descoberta.
Para os 42 milhões de brasileiros que enfrentam a queda capilar, a notícia chega como um sopro de esperança — ainda que condicionada aos prazos regulatórios e à disponibilidade comercial.
Se o cronograma da Veradermics for cumprido, o VDPHL01 deverá chegar ao mercado internacional entre o final de 2027 e o início de 2028, abrindo caminho para que a calvície deixe de ser tratada com soluções adaptadas de outras especialidades e ganhe, enfim, uma terapia desenhada sob medida para sua natureza.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















