O artigo do colunista Marcos Mendes, publicado nesta sexta-feira (9) na Folha de S.Paulo, é um diagnóstico severo — e incômodo — de uma democracia brasileira que apodrece por dentro enquanto seus supostos guardiões discursam, com ar professoral, sobre virtude democrática. O texto expõe, com precisão cirúrgica, um fenômeno que já se tornou estrutural: a corrosão do equilíbrio institucional pelo crime, pela captura ideológica e pela instrumentalização do Estado.
Logo no início, Mendes crava o ponto central: “A democracia brasileira parece estar sendo corroída pelo avanço do crime, que rompe o necessário equilíbrio de poder entre as autoridades eleitas e as nomeadas” . Trata-se de uma afirmação devastadora porque desloca o debate do plano retórico — onde abundam slogans sobre “defesa da democracia” — para o terreno concreto do funcionamento real das instituições.
Em uma democracia minimamente saudável, como lembra o colunista, há uma divisão clara de papéis: “As autoridades eleitas para os poderes Executivo e Legislativo governam. As autoridades nomeadas exercem mandatos em agências reguladoras, tribunais, banco central e órgãos de controle”.
Esse arranjo não é um detalhe técnico: é o coração do regime democrático. Quando ele se rompe, não há Constituição que sobreviva.
O que o artigo demonstra, com exemplos sucessivos, é que o Brasil vive hoje uma confusão deliberada de papéis, estimulada por interesses políticos, corporativos e ideológicos. O caso do banco Master é emblemático.
Mendes aponta que, diante de ilícitos identificados pelo Banco Central, houve uma sequência de interferências escandalosas: “um ministro do TCU exorbitando de suas prerrogativas”, um ministro do STF que “se sobrepôs à autoridade investigativa da Polícia Federal”, além da suspeita gravíssima de “advocacia administrativa” envolvendo familiar de ministro da Corte.
Isso não é defesa da democracia. Isso é sabotagem institucional.
O quadro se agrava quando o colunista mostra que a contaminação não se restringe a um poder ou a um caso isolado. “Há oito gabinetes de juízes do STJ sob investigação de venda de sentenças”, lembra Mendes, enquanto “um sem-número de casos de desvios de emendas parlamentares” distorce a competição eleitoral. O jogo democrático deixa de ser disputa de ideias e passa a ser uma engrenagem de proteção mútua entre castas.
Talvez o trecho mais revelador do artigo seja aquele que desnuda a hipocrisia dos autoproclamados paladinos da democracia. Mendes escreve, sem rodeios: “O PT e seus satélites posam de defensores da democracia, por serem adversários do bolsonarismo, mas dão suporte à corrosão da democracia por outras vias.” Eis o ponto nevrálgico.
A democracia virou um rótulo conveniente, não um valor real.
Enquanto denunciam — com razão — os impulsos autoritários do bolsonarismo, esses grupos operam um autoritarismo de sinal trocado, mais sofisticado, mais institucionalizado e, por isso mesmo, mais perigoso.
A “descondenação” em série de políticos, o desmonte da Lava Jato “jogando fora provas explícitas de crime”, a tentativa de anular acordos de leniência para “inocentar criminosos confessos” e o uso da máquina estatal para calar críticos não são acidentes: são método.
A passagem em que Mendes menciona o inquérito das fake news, nascido para impedir a divulgação de informações de interesse público pela imprensa, é especialmente perturbadora. O que se vê ali não é defesa da democracia, mas supressão da liberdade de expressão, o pilar sem o qual qualquer democracia é uma farsa.
Quando a Advocacia-Geral da União passa a processar cidadãos por opiniões em redes sociais, o Estado já cruzou uma linha perigosa: a do controle do pensamento.
É nesse ponto que o discurso democrático se revela uma máscara. Os mesmos que juram proteger a democracia agem como seus coveiros mais eficientes. Falam em “vontade popular” enquanto tratam o cidadão como incapaz, tutelado, alguém que precisa ser vigiado, corrigido e silenciado.
Não defendem democracia; defendem poder. Não combatem ditaduras; aspiram a uma versão ideologicamente aceitável delas.
Os pilares democráticos brasileiros, à luz do que descreve Marcos Mendes, são tão sólidos quanto uma nota de três reais: existem apenas na retórica. Na prática, o que se consolida é um sistema onde autoridades não eleitas se sobrepõem às eleitas, onde investigações são abafadas, onde a crítica é criminalizada e onde a lei deixa de ser regra para virar instrumento.
Ao final, Mendes aponta a última trincheira: “Algumas instituições, como Polícia Federal, Receita e Banco Central resistem.” Mas alerta: “A política partidária parece ter perdido capacidade de estancar a degradação” .
Se isso for verdade — e tudo indica que é —, resta à sociedade civil romper o silêncio, antes que a palavra “democracia” seja esvaziada de vez e se torne apenas um slogan autoritário, repetido à exaustão por aqueles que mais trabalham para enterrá-la.















