Com Justin Sun como primeiro-ministro e apoio de Javier Milei, a Ilha-País aposta em blockchain e criptomoedas e já recebeu 1 milhão de pedidos de cidadania
Brasília – Diante de um cenário eleitoral em que, a dois meses do pleito, nenhum dos 13 candidatos à Presidência da República apresentou formalmente seu Plano de Governo, cresce entre os brasileiros o desencanto com o país e a busca por alternativas fora das fronteiras nacionais. É nesse contexto que a República Livre de Liberland, micronação libertária que desafia fronteiras, diplomacia e o próprio conceito de Estado, se apresenta como destino para aqueles que decidem desistir do Brasil.
O projeto, que já acumula 1 milhão de pedidos de cidadania, conta com o empresário Justin Sun como primeiro-ministro e com o apoio declarado do presidente argentino Javier Milei. A aposta da micronação em blockchain e criptomoedas integra sua estratégia de consolidação institucional.
Fundada em 2015 sobre uma faixa de terra disputada entre Croácia e Sérvia, a micronação idealizada pelo ativista tcheco Vít Jedlička não é reconhecida por nenhum país soberano. Ainda assim, sustenta sua trajetória com base em governança digital, criptomoedas e apoio político, posicionando-se como um laboratório do Estado mínimo.
No coração dos Bálcãs, às margens do rio Danúbio, numa das paisagens mais lindas do Mundo, existe um país que não consta em nenhum mapa oficial, não tem população residente e não é reconhecido por nenhuma das 193 nações integrantes da Organização das Nações Unidas. A República Livre de Liberland, proclamada em 2015 pelo político e ativista tcheco de direita libertária Vít Jedlička, ocupa uma faixa de 7 km² de planície aluvial conhecida como Gornja Siga, território que permanece no centro de uma disputa fronteiriça centenária entre Croácia e Sérvia.
O que começou como uma provocação jurídica e política tornou-se, uma década depois, um experimento global que combina capitalismo laissez-faire, expressão francesa que significa literalmente “deixar fazer”. No contexto econômico e político, designa a doutrina segundo a qual o Estado deve interferir o mínimo possível na economia, deixando que os agentes privados atuem livremente no mercado.
O termo é frequentemente atribuído aos fisiocratas franceses do século XVIII, e a frase completa costuma ser “laissez-faire, laissez-passer” (“deixai fazer, deixai passar”), que expressa a defesa da livre iniciativa e da livre circulação de mercadorias.
Os princípios centrais do laissez-faire incluem:
- Mínima intervenção estatal na economia, restringindo o papel do governo à proteção da propriedade, da ordem e dos contratos.
- Livre mercado, com preços, produção e distribuição determinados pela oferta e pela demanda, sem controles artificiais.
- Livre concorrência, sem monopólios estatais ou barreiras excessivas à entrada de novos agentes.
- Autonomia do indivíduo, que deve ser livre para empreender, negociar e contratar conforme seus interesses.
Liberland adotou na prática o governo mínimo, governança em blockchain e uma ambiciosa estratégia de reconhecimento diplomático. Em 2026, Liberland já acumula 800 mil pedidos de cidadania de um projeção inicial de 1 milhão, executando o plano de dobrar seu orçamento e consolidar investimentos na região, enquanto segue enfrentando a rejeição categórica de Zagreb, que administra de fato o território desde a Guerra de Independência da Croácia.
Conheça como tudo começou
A origem de Liberland está diretamente ligada à disputa fronteiriça entre Croácia e Sérvia, cuja raiz remonta a 1947, mas que permaneceu sem solução durante a existência da República Socialista Federativa da Iugoslávia. O impasse diz respeito à definição da fronteira ao longo do vale do Danúbio. A Sérvia defende que a linha internacional segue o talvegue, ou seja, o ponto mais profundo do leito do rio, enquanto a Croácia sustenta que a fronteira acompanha os limites dos municípios cadastrais ribeirinhos, que refletem o curso do Danúbio no século XIX.
Essa divergência criou áreas que nenhum dos dois países reivindica formalmente. Jedlička, membro do Partido dos Cidadãos Livres da República Tcheca, de orientação liberal clássica, invocou a doutrina jurídica da terra nullius — terra de ninguém — para proclamar a soberania sobre a maior dessas faixas, argumentando que respeitava a soberania tanto da Croácia quanto da Sérvia.
A Croácia, que administra o território desde a Guerra de Independência, rejeitou a alegação e classificou a iniciativa como provocativa, chegando a sugerir que poderia ser contida até mesmo pela força.
O projeto político de Liberland é explícito em sua inspiração ideológica. Jedlička, influenciado pelo economista austríaco Ludwig von Mises, defende um Estado mínimo, impostos voluntários, ausência de burocracia e plena liberdade econômica. O próprio nome do país deriva da palavra liberdade, e sua proposta institucional se apoia em dois pilares: o liberalismo clássico e a governança descentralizada por meio de blockchain.
A aposta em blockchain e criptomoedas
A singularidade de Liberland em relação a outras micronações reside na sua arquitetura tecnológica. O país se autodenomina a primeira república meritocrática governada em blockchain, com um sistema de cidadania digital e uma moeda própria, os Liberland Merits (LLMs), que representariam a participação de cada cidadão no projeto. Em 2026, a administração anunciou que está construindo sua própria blockchain e pontes para ecossistemas centralizados, com o objetivo de permitir que cidadãos estabeleçam empresas como organizações autônomas descentralizadas (DAOs).
A liderança do projeto reforça essa orientação tecnológica. Em janeiro de 2026, Jedlička anunciou que Justin Sun, fundador do ecossistema blockchain Tron e empresário de criptomoedas, foi reeleito primeiro-ministro de Liberland. A presença de Sun, que possui ampla rede de conexões políticas e empresariais globais, sinaliza a intenção de posicionar a micronação como um ambiente real de testes para inovações em governança digital.
Os números financeiros, embora modestos em escala global, revelam uma operação organizada. Segundo relatórios financeiros divulgados em 2023, Liberland reportou uma receita anual de US$ 1,5 milhão, com mais de 99% de suas reservas mantidas em Bitcoin. Essa concentração em criptomoedas foi classificada como imprudente por analistas de políticas públicas, e Christopher Carr, professor de criptografia e blockchain da Universidade de Exeter, alertou que Liberland poderia enfrentar desafios semelhantes aos que El Salvador enfrentou após adotar o Bitcoin como moeda oficial.
A disputa territorial e a reação croata
A relação de Liberland com a Croácia permanece o principal obstáculo à sua consolidação. Desde maio de 2015, as autoridades croatas bloqueiam sistematicamente o acesso a Gornja Siga. O próprio Jedlička foi detido em duas ocasiões naquele mês, condenado a pagar multa por cruzar ilegalmente a fronteira croata e, posteriormente, banido do país por cinco anos sob a acusação de atividades extremistas.
A tensão ganhou novo capítulo em janeiro de 2026, quando o parlamento croata discutiu o tema. Os deputados Stipan Šašlin, Vesna Bedeković e Denis Kralj levantaram questões sobre o Danúbio, a segurança fronteiriça e Liberland, associando a micronação a pressões migratórias e ameaças à integridade territorial. Em resposta, o governo de Liberland publicou, em 3 de fevereiro de 2026, uma nota oficial rejeitando as acusações como infundadas.
No documento, assinado pelo presidente Vít Jedlička, pelo primeiro-ministro Justin Sun e pelo ministro das Relações Exteriores Thomas Walls, Liberland afirma que não organiza nem tolera travessias ilegais de fronteira, que o território não funciona como ponto de trânsito para migrantes e que o projeto não representa ameaça à segurança. A nota pede que Liberland não seja retratada como território croata, vetor migratório, ameaça à segurança ou empreendimento criminoso, e se declara aberta ao diálogo com as instituições croatas.
A posição de Zagreb, no entanto, permanece inalterada. O Ministério das Relações Exteriores croata considera a ideia provocativa e sustenta que, após arbitragem internacional, o território deveria ser atribuído à Croácia ou à Sérvia, jamais a um terceiro. O governo tcheco, por sua vez, distanciou-se das atividades de Jedlička, classificando-as como inadequadas, ilegais e potencialmente prejudiciais. O professor de direito croata Goran Vojković descreveu Liberland como um circo que ameaça o território croata, argumentando que a atenção atraída pelo projeto poderia enfraquecer a reivindicação da Croácia sobre terras na outra margem do Danúbio.
Estratégia de reconhecimento e apoios políticos
Diante da ausência de reconhecimento por qualquer Estado-membro da ONU, Liberland desenvolveu uma estratégia diplomática baseada em alianças com atores alinhados ideologicamente. O exemplo mais citado é a aproximação com a Argentina após a eleição do presidente libertário Javier Milei, que mencionou Liberland em uma convenção em 2019 e é descrito pela micronação como cidadão.
O roadmap de 2026, apresentado pelo presidente Jedlička em janeiro, estabelece como prioridade o reconhecimento internacional, ancorado na adesão a princípios de liberdade, mercados livres e governança em blockchain. O documento cita a Somalilândia, primeira entidade a reconhecer Liberland por meio de um memorando de entendimento em 2017, como um precedente relevante. Jedlička também mencionou Petr Macinka, cidadão de Liberland que se tornou ministro das Relações Exteriores da República Tcheca, como um avanço do movimento pela liberdade.
A estratégia inclui ainda um plano de investimento de US$ 40 milhões para a região de Baranja, que abrange áreas na Croácia e na Sérvia, com a promessa de que ambos os países se beneficiariam da presença de Liberland por meio de investimentos, empregos e turismo. Em abril de 2026, a micronação recebeu o prêmio de país mais favorável a blockchain no Blockchain World Innovation Awards (BWIGA), consolidando sua imagem no ecossistema global de Web3.
Cidadania e números do projeto
Os dados sobre adesão ao projeto revelam uma discrepância significativa entre o interesse declarado e a realidade física do território. Em março de 2024, Liberland contava com 1.200 cidadãos registrados que pagaram até US$ 10 mil por passaportes simbólicos, além de 735 mil pedidos de cidadania. O roadmap de 2026 projeta alcançar 1 milhão de candidatos.
O acesso físico ao território, no entanto, permanece limitado. Mais de 200 pessoas conseguiram acessar a área durante a tentativa de desembarque de Jedlička em março de 2024, e aqueles que permaneceram por pelo menos uma semana se qualificaram para cidadania gratuita e passaram a ser elegíveis para ganhar Liberland Merits ao ajudar na construção, incluindo a primeira casa do país. Em novembro de 2023, apoiadores retornaram ao território e montaram acampamento em uma ilha fluvial adjacente ao Danúbio.
Contrapontos e nuances
A análise de Liberland exige cautela para não cair em leituras simplistas. De um lado, o projeto atrai atenção como um experimento de governança descentralizada e liberdade econômica, com apelo crescente em comunidades libertárias e no ecossistema de criptomoedas. De outro, especialistas questionam a seriedade da iniciativa, com alguns jornalistas classificando-a como um golpe publicitário e juristas de ambos os países envolvidos afirmando que Jedlička não possui o direito, sob as regras da legislação internacional, de reivindicar a área.
A concentração das reservas em Bitcoin levanta preocupações sobre a sustentabilidade financeira do projeto, especialmente diante da alta volatilidade da criptomoeda. A dependência de figuras como Justin Sun, cuja reputação no setor de criptomoedas é controversa, adiciona outra camada de incerteza. Além disso, o fato de o território ser uma planície aluvial sujeita a inundações, sem infraestrutura e sem população residente, coloca em questão a viabilidade prática de qualquer projeto de assentamento.
A associação de Liberland com a ascensão de líderes libertários, como Javier Milei na Argentina, reflete um fenômeno político mais amplo, mas não garante reconhecimento diplomático, que depende de fatores jurídicos, geopolíticos e bilaterais muito mais complexos do que afinidades ideológicas.
Paradoxo contemporâneo
A República Livre de Liberland permanece, em 2026, um paradoxo contemporâneo. É simultaneamente um experimento inovador de governança digital e um caso paradigmático de micronação sem reconhecimento, cuja existência depende de uma disputa fronteiriça que nenhum dos países envolvidos tem pressa em resolver. A aposta em blockchain, criptomoedas e alianças políticas com líderes libertários confere ao projeto visibilidade global, mas não altera o fato central de que nenhum Estado-membro da ONU reconhece sua soberania.
Desde a sua fundação, ninguém se mudou para Liberland, que carece de infraestrutura, mas tem 7.000 residentes aprovados e 700.000 inscrições, de acordo com as informações da Jedlicka. A micronação também tem uma bandeira nacional, hino e moeda — a criptomoeda Liberland.
O futuro de Liberland dependerá de fatores que transcendem o controle de seus fundadores. A resolução da disputa fronteiriça entre Croácia e Sérvia, a evolução do cenário regulatório global para criptomoedas e a capacidade do projeto de atrair investimentos e capital humano serão determinantes. Enquanto isso, a micronação segue como um estudo de caso sobre os limites e as possibilidades de se criar um Estado no século XXI, onde a tecnologia digital e a ideologia libertária se encontram em um território físico disputado no coração da Europa.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















