Um estudo conduzido por pesquisadoras brasileiras trouxe uma abordagem curiosa para investigar o comportamento de uma espécie amazônica conhecida como cigarra-arquiteta. Durante o experimento, preservativos de látex foram utilizados como ferramenta científica para entender a função das torres de argila construídas pelas ninfas da espécie Guyalna chlorogena. As estruturas são erguidas no solo durante a fase final da metamorfose, um dos momentos mais delicados do ciclo de vida do inseto.
A pesquisa foi desenvolvida pelas estudantes Marina Méga, Izadora Nardi, Sara Feitosa e Maria Luiza Busato durante um curso de campo da Formação em Ecologia Quantitativa do Instituto Serrapilheira. O objetivo era verificar de forma experimental para que servem as pequenas torres de barro construídas pelas ninfas antes de emergirem como cigarras adultas — um comportamento já observado por cientistas, mas que ainda carecia de comprovação prática.
Para testar uma das hipóteses, as pesquisadoras precisavam interromper completamente a circulação de ar dentro das estruturas. A solução encontrada foi cobrir as torres com preservativos de látex, vedando-as do topo à base e fixando o material com filme plástico. Dessa forma, a troca de gases entre o interior da torre e o ambiente externo ficava bloqueada por cerca de 18 horas.
A ideia era simular uma situação de estresse respiratório. Caso as torres funcionassem como um sistema natural de ventilação para as ninfas, a ausência de circulação de ar deveria provocar mudanças no comportamento ou no desenvolvimento dos insetos.
Após o período de vedação, as pesquisadoras quebraram cuidadosamente as torres para observar a reação das ninfas e acompanhar a capacidade de reconstrução das estruturas durante a noite. Os resultados mostraram respostas distintas: ninfas instaladas em torres maiores aceleraram o crescimento após o experimento, enquanto aquelas que estavam em torres menores reduziram a taxa de reconstrução.
Os dados reforçam a hipótese de que as torres ajudam a regular as condições internas enfrentadas pelas cigarras ainda na fase subterrânea. Segundo as autoras, essas estruturas funcionariam como uma espécie de extensão do próprio organismo do inseto — um fenômeno conhecido na biologia como “fenótipo estendido”, quando características de um ser vivo se manifestam também nas construções que ele produz no ambiente.
Além da função respiratória, o estudo também investigou outra possível utilidade das torres: a proteção contra predadores. Para isso, as pesquisadoras colocaram pequenas iscas feitas de água, farinha e sardinha tanto no topo das torres quanto diretamente no solo.
Algumas horas depois, a presença de formigas — consideradas as principais predadoras das ninfas — foi registrada. O resultado chamou atenção: a probabilidade de encontrar formigas nas iscas colocadas no chão foi cerca de oito vezes maior do que naquelas posicionadas sobre as torres.
A conclusão indica que a elevação da estrutura pode reduzir significativamente o risco de ataques durante a metamorfose, período em que a ninfa emerge do solo e permanece vulnerável por algumas horas enquanto se transforma em cigarra adulta.
Os resultados inéditos da pesquisa foram publicados em fevereiro deste ano na revista científica Biotropica, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre o comportamento e as estratégias de sobrevivência dessa curiosa espécie amazônica. Com informações do portal Metrópoles















