Em sabatina da TV Globo, ex-governador pede anistia “geral e ampla”, cobra STF sobre sigilos do INSS e caso Master e entrevistadores apresentam “arsenal de pegadinhas”
Brasília – Em teste diante do maior público de sua campanha, Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, repetiu a promessa de anistia “geral e ampla” aos condenados pelos atos golpistas, comparou o caso à anulação das condenações de Lula e foi o segundo alvo de “arsenal de pegadinhas” de César Tralli e Renata Vasconcelos na segunda sabatina da Rede Globo com os presidenciáveis, na noite de terça-feira (25). Veja, ao final da reportagem, o método GLOBO de avaliação dos candidatos.
O candidato do PSD à Presidência da República, Ronaldo Caiado, de 76 anos, ex-governador de Goiás por dois mandatos, defendeu na terça-feira (25), em entrevista à TV Globo, a anistia “ampla, geral e irrestrita” aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Prometeu limitar o crescimento das despesas federais à inflação mais 50% do crescimento do PIB e voltou a atacar o governo Lula, a quem acusou de “cooptar” partidos e de promover uma “grande farsa” no arcabouço fiscal, sem, no entanto, detalhar onde seriam feitos os cortes.
A sabatina, conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, foi a segunda da série de entrevistas com os presidenciáveis exibidas após o Jornal Nacional, e rendeu ao candidato uma avaliação crítica dos colunistas do GLOBO, que lhe atribuíram nota média de 1,4 em uma escala de 1 a 5, classificando a performance como “enrolada” e “inconsistente”.
Cooptação partidária e a ausência de apoio dentro do próprio PSD
Logo no início da sabatina, Caiado foi questionado sobre a falta de apoio à sua candidatura entre integrantes da própria legenda nos estados e atribuiu a situação à articulação do governo federal com os partidos. Ele citou a decisão do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, de não intervir nos diretórios estaduais e afirmou que o governo Lula teria “cooptado” as siglas.
“Kassab deixou bem claro: ‘eu não vou fazer intervenção em estado algum’. Mas preste atenção: o que que o governo federal fez? ‘Vamos abafar todos os partidos no Brasil e cooptar todos'”, declarou. Em seguida, completou: “Olha que escárnio chegou a política nacional”. A fala ocorre em um contexto de fragilidade da candidatura do ex-governador, que, segundo levantamentos eleitorais, disputa espaço como terceira via em uma corrida polarizada entre Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), atual segundo colocado nas pesquisas.
Anistia ao 8 de Janeiro e a comparação com a Lava Jato
Um dos pontos centrais da entrevista foi a defesa de uma anistia geral aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro. Caiado afirmou que, se eleito, encaminhará ao Congresso Nacional um projeto sobre o tema e argumentou que a medida ajudaria a reduzir a polarização e a “pacificar o país”. “Posso garantir neste momento que encaminharei, sim, ao Congresso Nacional um projeto para que haja uma anistia geral, ampla”, disse.
Para fundamentar a proposta, o candidato comparou a situação dos condenados do 8 de Janeiro à anulação das condenações do presidente Lula na esteira da Operação Lava Jato. “Lula foi condenado em todas as instâncias, vimos diversas notícias de corrupção e, de repente, o Supremo anistiou”, afirmou, em referência à decisão do STF que anulou as condenações do petista.
“Nós precisamos acabar com essa polarização, nós temos que pacificar o país. Ninguém aguenta mais essa situação”, completou. Ao final, Caiado classificou a medida como um projeto de anistia “geral e restrita”, oscilando entre os termos “ampla, geral e irrestrita” e “geral e restrita” ao longo da fala.
A proposta, no entanto, foi recebida com ressalvas pela bancada de checagem do g1, veículo do Grupo Globo, que apontou inconsistências na argumentação do candidato. Caiado também foi corrigido ao vivo por Renata Vasconcellos ao tentar minimizar a decisão judicial sobre a tentativa de golpe, em um dos momentos de maior tensão da sabatina.
Ajuste fiscal sem detalhamento e a metáfora do paciente atropelado
Na área econômica, Caiado prometeu limitar o crescimento das despesas do governo federal à inflação mais 50% do crescimento do PIB, regra que seria encaminhada ao Congresso por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) no primeiro dia de um eventual governo. Questionado sobre onde seriam feitos os cortes necessários para cumprir a medida, o candidato não especificou quais despesas seriam reduzidas e pediu “calma”, comparando a situação fiscal a um paciente que sofreu um atropelamento. “Um paciente foi atropelado por um ônibus. Quais são os pontos que você vai priorizar? Poxa, eu nem examinei o paciente. Calma”, afirmou.
Caiado disse que pretende fazer uma reforma administrativa e cortar gastos no Executivo, Legislativo, Judiciário e no Tribunal de Contas da União (TCU), classificou o atual arcabouço fiscal como uma “grande farsa” e defendeu o combate a salários que considera excessivos e a desvios de recursos de emendas parlamentares.
Ao ser cobrado pela falta de detalhamento das propostas econômicas e por não se posicionar sobre a necessidade de mexer na idade mínima de aposentadorias, o candidato afirmou que terá “humildade” de consultar especialistas. “Não estamos aqui numa mesa examinadora. Eu tenho que ter um plano. Você tem que me cobrar as metas, os parâmetros máximos que eu vou definir. Dentro daquilo, vão ser acomodadas as áreas do governo”, argumentou.
Salário mínimo, Previdência e a referência a Bernard Appy
Caiado afirmou que pretende preservar o poder de compra do salário mínimo e das aposentadorias, defendendo que o ajuste comece pelos próprios gastos do governo. “O pobre coitado pegando um salário mínimo, o pobre coitado que está vivendo de aposentadoria, deixa eles em paz, pelo amor de Deus. Vamos dar o exemplo que um presidente precisa dar: cortar na própria carne. Vamos para cima desses salários abusivos”, declarou.
Sobre a Previdência Social, o candidato não apresentou medidas específicas e disse que pretende reunir especialistas para formular propostas, afirmando que “isto aqui não vai sair da cabeça de um iluminado”, em referência ao ex-secretário da reforma tributária Bernard Appy.
Polícia transnacional e o “resort” do narcotráfico
Na área de segurança, Caiado voltou a defender a criação de uma polícia conjunta entre países da América Latina para combater o narcotráfico e o crime organizado, afirmando que a força poderia realizar prisões nos países participantes e ampliar o compartilhamento de informações de inteligência.
O candidato disse que o Brasil se tornou o “maior hub de narcotráfico” e citou a atuação de facções brasileiras, colombianas e mexicanas. Ao defender a proposta, afirmou que a maioria dos presidentes sul-americanos é atualmente de centro-direita. “Os presidentes hoje são de centro-direita. Só está faltando o Caiado ganhar a eleição para completar”, disse. “Hoje o único nicho que tem para traficante na América do Sul é o Brasil, que é o grande resort do narcotráfico”, alegou.
A proposta, porém, apresentou fragilidades apontadas pela checagem do g1. Enquanto a declaração de Caiado sobre o compartilhamento de informações pela Europol, agência de cooperação policial da União Europeia que inspiraria o projeto, foi classificada como #FATO, a afirmação sobre a possibilidade de a Europol efetuar prisões foi marcada como #FAKE. Ao ser confrontado pelos entrevistadores com a limitação da Europol para realizar prisões, Caiado alegou, de forma vaga, que iria “propor aos presidentes de países vizinhos que a prisão seja feita”, sem explicar como impediria um conflito de competências entre essa polícia multinacional e as Forças Armadas.
Endividamento das famílias, Reforma Tributária e o pedido ao STF
Questionado sobre o endividamento de famílias e empresas, Caiado criticou a política econômica do governo Lula e o programa Desenrola. “Eu não vou mentir para vocês. O Lula que te enrolou”, afirmou, em um de seus ataques mais diretos ao petista, a quem também se referiu como “agiota” e acusou de ter “conivência” com a expansão de facções criminosas. O candidato voltou a mencionar uma mudança constitucional como parte da solução para o problema, sem detalhar a medida.
Revisão da Reforma Tributária
Sobre a Reforma Tributária, Caiado foi contundente nas críticas. Afirmou que pretende revisitar o tema caso seja eleito, questionando os impactos da reforma para pequenos empresários, trabalhadores e exportadores. “Você vai revisitar o tema. Aqueles pontos são positivos, você faz simulação com o outro. Veja bem como é que o pequeno microempresário do Brasil vai viver. Como é que o cidadão hoje da indústria vai viver? Como é que o exportador vai viver?”, questionou.
O candidato defendeu que a discussão considere se todos os trabalhadores e setores conseguem acumular créditos tributários, citando o exemplo de profissionais que, segundo ele, não teriam créditos a acumular no exercício da atividade. “E que um profissional, amanhã, cinegrafista, o que ele está acumulando de crédito para ele? Nada”, disse.
A Reforma Tributária aprovada pelo Congresso Nacional começou a entrar em uma fase prática em 2026, com a substituição gradual de tributos atuais pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e pelo Imposto Seletivo, em um processo que ainda exige ajustes e acompanhamento do Congresso.
Por fim, Caiado fez um apelo ao Supremo Tribunal Federal, pedindo que a corte abra o sigilo de investigações sobre fraudes no INSS, no caso Master e na chamada “Carbono Oculto”. “Eu queria fazer uma solicitação ao Supremo Tribunal Federal. Nós estamos em uma eleição em que nós não podemos, amanhã, ser surpreendidos. Eu pediria que eles refletissem bem e abrisse o sigilo do INSS, do caso Master, e junto a ele também, toda essa parte do Carbono Oculto para que nós não fôssemos, amanhã, enganados. Pessoas envolvidas em graves crimes que, amanhã, pudessem ser eleitas”, disse, em referência indireta a eventuais adversários na disputa eleitoral.
A performance sob avaliação crítica
A sabatina de Caiado, a segunda da série iniciada na segunda-feira (24) com Romeu Zema (Novo), foi avaliada de forma dura pelos colunistas do GLOBO, que lhe deram nota média de 1,4 em uma escala de 1 a 5, descrevendo a performance como “enrolada” e “inconsistente”. O candidato recorreu em diferentes momentos ao contraponto a Lula para se esquivar de apresentar detalhes de suas propostas, acenou ao bolsonarismo com a promessa de anistia e tentou se posicionar como alternativa ao senador Flávio Bolsonaro na corrida presidencial.

Método GLOBO de avaliação dos candidatos
A repercussão nas redes sociais foi implacável e deu o tom das críticas ao formato adotado pela emissora fluminense: “Longe de uma sabatina com necessárias perguntas diretas ao programa de governo do candidato, a dupla de entrevistadores se vestiram de examinadores de uma Banca Examinadora de uma tese de Pós-Doutorado sobres a mazelas do Brasil”.
Reprovado por colunistas que “corrigiram a prova” após a “defesa de tese” da banca examinadora, o aluno (Ronaldo Caiado) foi reprovado por uma proposta fiscal considerada confusa, em meio a um cenário de inflação de alimentos que pesa sobre a avaliação do governo.
Ex-governador de Goiás recebeu nota média 1,4 dos oito avaliadores do GLOBO, com críticas à confusão na proposta fiscal, à evasão nas respostas e à defesa da anistia aos condenados do 8 de Janeiro.
O jornal apresentou após o término da “sabatina” na TV o “desmonte” do candidato. Com a manchete: “Caiado na TV Globo: como o ex-governador se saiu na entrevista? Veja as notas e avaliações dos colunistas do GLOBO”. O maior grupo de comunicação do país não esconde a sua preferência na corrida presidencial. Veja o resumo da “opinião” do restante da “Banca de Examinadores” recrutada:
A TV Globo deu início na segunda-feira (24) à série de sabatinas com os seis candidatos à Presidência mais bem colocados na última pesquisa Quaest, transmitidas ao vivo após o Jornal Nacional, dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, sob o comando de Renata Vasconcellos e César Tralli. Na terça-feira (25), o segundo entrevistado, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), recebeu nota média 1,4, numa escala de 1 a 5, atribuída por oito colunistas do GLOBO — a pior da série até aqui, abaixo do antecessor Romeu Zema (Novo), avaliado com média 2.
Pela primeira vez, a emissora reservou um programa eleitoral fora do bloco do telejornal, com estúdio montado para aproximar o candidato do eleitor. Cada sabatina, transmitida pela TV Globo, GloboNews e g1, é seguida de análise dos jornalistas. Os postulantes foram escolhidos pelo desempenho nas pesquisas, e a ordem, definida por sorteio na presença de representantes dos partidos. Depois de Zema (segunda) e Caiado (terça), serão sabatinados Renan Santos (Missão), na quarta (26); Lula (PT), na quinta (27); Flávio Bolsonaro (PL), na sexta (28); e Augusto Cury (Avante), no sábado (29).
Com trajetória consolidada na direita, Caiado chegou à sabatina credenciado pela imagem de gestor bem avaliado e de nome da terceira via, ao lado de Zema, entre os queridinhos da Faria Lima. No debate da Band, no domingo (23), demonstrara experiência e clareza, mas a entrevista rendeu a pior avaliação da série. Para os colunistas, faltou preparo e sobraram propostas vagas — justamente quando o candidato falava, pela primeira vez, a dezenas de milhões de eleitores em rede nacional.
O ponto mais criticado foi a proposta de ajuste fiscal. Caiado defendia uma emenda constitucional para limitar o crescimento das despesas federais a uma parcela do avanço do PIB, com limites citados entre 40% e 50%, e sinalizara não mexer nos pisos de gastos com saúde e educação nem no salário mínimo. Na sabatina, porém, afirmou, mais de uma vez, que a despesa do governo deveria ser “limitada” a 50% do PIB — o que, na prática, dobraria os gastos previstos no Orçamento atual. Míriam Leitão classificou a declaração como demonstração de “ignorância abissal” e disse que o candidato não respondeu às perguntas, limitando-se a empilhar problemas do país. O g1 registrou ainda que ele propôs corte de gastos sem explicar onde seriam feitos.
A defesa da anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro, apresentada como caminho para “pacificar o país”, também rendeu críticas. Bernardo Mello Franco apontou a tática de falar muito para não responder nada, e Pablo Ortellado observou que a proposta mais visível de quem se apresenta como alternativa à polarização é justamente tirar da cadeia os bolsonaristas condenados. Caiado ainda mirou Lula, citou corrupção e comparou a anistia do 8/1 à anulação dos processos da Lava-Jato, equiparação criticada por confundir o eleitor.
Vera Magalhães descreveu a entrevista como confusa e difícil de acompanhar, com o candidato falando por cima dos entrevistadores para escapar das inconsistências das próprias respostas, o que afugentou o espectador. Renato Meirelles afirmou que ele não respondeu às perguntas nem apresentou propostas concretas e que uma terceira via competitiva precisa oferecer mais do que antipetismo. Merval Pereira resumiu que Caiado não se impôs como alternativa à polarização, e Fabio Graner avaliou que ele ficou distante do candidato do debate da Band, atrapalhado e menos convincente que Zema.
A avaliação expôs o descompasso entre a proposta fiscal divulgada nos dias anteriores e a forma como foi apresentada ao eleitor, gerando ruído de comunicação que o candidato precisará corrigir nas próximas aparições, inclusive diante do mercado financeiro. Reacende ainda o debate sobre a capacidade de candidatos fora do eixo PT-PL sustentarem um discurso competitivo — Lula e Flávio Bolsonaro, sabatinados nos próximos dias, terão a mesma vitrine para contrastar. Com a pior nota da série, Caiado deixa a sabatina com a tarefa de provar que o gestor aclamado em Goiás consegue transformar experiência em propostas claras e mensuráveis, sob pena de o projeto de terceira via, já pressionado pela polarização, perder ainda mais fôlego.
Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















