Empresários da Operação Carbono Oculto negociam acordo e prometem revelar propinas de R$ 500 milhões a políticos
Brasília – Metade do Congresso Nacional está em pânico com a possibilidade de os empresários foragidos Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, alvos centrais da Operação Carbono Oculto, fecharem uma negociação que está avançada com o Ministério Público de São Paulo para um acordo de delação premiada.
A expectativa é que as revelações dos empresários, supostamente munidos de “provas” como mensagens de WhatsApp, possam expor um esquema de propinas de mais de meio bilhão de reais envolvendo parlamentares e autoridades do Executivo, com o potencial de “derrubar metade do Congresso”, conforme fontes ligadas à investigação.
A Operação Carbono Oculto, deflagrada em 28 de agosto do ano passado, mira a suposta infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) na economia formal, com movimentação estimada em R$ 52 bilhões através de fundos de investimento e atuação no setor de combustíveis.
A Operação Carbono Oculto é descrita como a maior ofensiva já realizada para conter a infiltração do crime organizado na economia formal, com ramificações no setor de combustíveis, fintechs e fundos sediados na Avenida Faria Lima, em São Paulo.
“Beto Louco” e “Primo” negam que sejam do PCC
Os empresários “Beto Louco” e “Primo”, embora neguem veementemente qualquer elo com o PCC, são apontados como figuras importantes dentro do esquema investigado.
O Ministério Público suspeita que as atividades deles no setor de combustíveis estariam ligadas a uma “colossal rede de postos do crime organizado”, onde propinas eram pagas em troca de “alívio” para o setor.
As negociações para a delação premiada são conduzidas por promotores que atuam no combate ao crime organizado, ainda sob avaliação e sem alçada da Procuradoria-Geral.
Os empresários, atualmente foragidos, estariam “impacientes”, buscando o acordo para tentar se livrar de condenações por fraudes, sonegação fiscal, crimes tributários e organização criminosa.
No entanto, há a suspeita de que autoridades em outras instâncias, especialmente em Brasília, estariam relutantes em ouvir suas revelações. Fontes ligadas ao caso afirmam que os empresários já teriam oferecido “anexos com relatos detalhados” que, até o momento, foram ignorados.
A dimensão financeira da investigação é alarmante. Estimativas apontam que braços do PCC teriam movimentado R$ 52 bilhões no período investigado, com blindagem desses recursos por meio de 40 fundos de investimentos.
Desses, o BK Bank registrou R$ 17,7 bilhões em movimentações financeiras suspeitas, sendo que 80% desse montante, no período apurado, teria relação com o PCC. O Procurador-Geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, chefe do MP paulista, declarou em nota que o objetivo é “impessoal” e que “chegaremos não só a empresários e empresas, mas a agentes públicos e eventualmente até políticos”.
O BK Bank, por sua vez, informou ter sido surpreendido pela operação e que “conduz todas as suas atividades com total transparência, observando rigorosos padrões de compliance”.
Reag Investimentos na mira
Entre as empresas mencionadas na investigação está a Reag Investimentos, que administrava o fundo de investimentos Location no primeiro semestre de 2020. O único cotista desse fundo era Renato Steinle de Camargo, que, segundo os investigadores, atuava como “testa de ferro” de Mohamad Hussein Mourad — o “Primo” e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”.
Esta conexão evidencia o sofisticado método de lavagem de dinheiro e a complexidade da rede investigada pela Operação Carbono Oculto. A resistência em Brasília em receber as informações, e a impaciência dos empresários, sugere uma trama que se estende para além das fronteiras estaduais, com potencial para abalar estruturas políticas consolidadas, remetendo a questionamentos sobre a persistência de esquemas de corrupção que, após experiências como a Lava Jato, apenas “mudaram de mãos”.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















