▪︎ Projeto marca aprofundamento das relações sino-brasileiras e desafia hegemonia americana nas Américas
▪︎ Com invulgar capacidade de auto sabotagem, comunidades indígenas da região protestam contra impactos ambientais do bilionário empreendimento
Brasília – No sertão cearense, a ByteDance constrói seu maior data center fora da China, um investimento de R$ 200 bilhões que consolida a estratégia de expansão global de Pequim e intensifica a disputa tecnológica com Washington nas Américas. Porém, o projeto enfrenta resistência de comunidades indígenas, revelando as contradições do Brasil em conciliar desenvolvimento econômico com direitos territoriais historicamente negligenciados.
Anunciado em dezembro de 2025 durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Ceará, o projeto será instalado na zona franca do Porto de Pecém, em Fortaleza.
A infraestrutura terá capacidade inicial de 200 megawatts, podendo expandir-se até 1 gigawatt, com o primeiro data center previsto para entrar em operação no final de 2027.
A Omnia, empresa brasileira especializada em data centers, e a Casa dos Ventos, principal produtora de energia renovável do país, são parceiras no empreendimento.
A escolha do Brasil não é acidental. O país reúne atributos estratégicos para empresas chinesas de inteligência artificial que buscam superar concorrentes americanas.
O país dispõe de energia renovável abundante, com hidrelétricas, solar e eólica respondendo por quase 90% da geração de energia. Fortaleza funciona como centro nevrálgico das telecomunicações hemisféricas, conectada à América do Norte, Europa e África por múltiplos cabos submarinos. Cerca de 90% do tráfego internacional de internet do país passa por 16 cabos enterrados sob a Praia do Futuro, na belíssima capital cearense.
Segundo a BloombergNEF, o Brasil hospeda mais de 100 centros de dados, fração dos quase 1.700 dos Estados Unidos. A consultoria Aurora Energy Research projeta que a capacidade brasileira ultrapassará 4 gigawatts no início da década de 2030.
“O Brasil tem todos os atributos para se tornar um polo de data centers”, afirma Rodrigo Borges, representante da Aurora no país.
O investimento integra-se a um movimento mais amplo de gigantes chinesas de tecnologia. O Alibaba Group planeja alugar espaço em data centers em São Paulo para cargas de trabalho de inteligência artificial.
A Ascenty investe US$ 1,2 bilhão em instalações na América Latina. A Elea Data Centers e a Scala Data Centers, apoiadas por investidores americanos, também planejam projetos de grande escala no Brasil. É, literalmente, uma corrida ao futuro das duas maiores potências do planeta.
Para Lula, o data center no Ceará representa o fruto de décadas de esforços para estreitar laços com Pequim. A China é o maior parceiro comercial do Brasil, importando quase US$ 100 bilhões em petróleo, minério de ferro, açúcar, soja e carne bovina anualmente.
O Brasil foi o principal destino do investimento estrangeiro chinês em 2025, segundo o American Enterprise Institute. O projeto diversificará os investimentos chineses além de barragens hidrelétricas, linhas de transmissão e portos.
A iniciativa desafia o objetivo do presidente americano Donald Trump de reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos nas Américas. Embora empresas como Alphabet, Meta Platforms e Microsoft tenham mais de 140 milhões de usuários no Brasil, não se apressaram em instalar data centers no país.
Um fator inibidor é o risco de ficarem no meio de uma guerra comercial entre Estados Unidos e Brasil. Trump anunciou tarifa de 50% sobre importações brasileiras em resposta ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Uma decisão da Suprema Corte em fevereiro anulou esses impostos, mas a Casa Branca sugeriu que outros podem ser implementados.
“Os chineses assumem certos riscos”, observa Eduardo Menossi, fundador do Grupo EBM, empresa de engenharia de data centers com sede em São Paulo. “Um americano é mais conservador.” Menossi acredita que ataques de drones contra centros de dados da Amazon no Oriente Médio podem ter aumentado o interesse das gigantes americanas pelo Brasil, país distante das atuais zonas de conflito mundial.
Para o governo Lula, a construção de data centers tornou-se prioridade estratégica. Cerca de dois terços dos dados brasileiros são processados no exterior, vulnerabilidade que Luis Fernandes, vice-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, identifica como “a nossa principal vulnerabilidade nacional: a soberania digital”. Contudo, o novo data center da ByteDance não diminuirá essa dependência, já que atenderá usuários fora dos Estados Unidos e da Europa.
Brasil: A capacidade extraordinária de auto sabotagem, lentidão no Congresso e comunidades indígenas protestando
O Brasil perdeu oportunidades no setor. Um programa de incentivos para reduzir impostos de importação sobre servidores está parado no Congresso. Um leilão para armazenamento de baterias necessário para dar suporte à geração intermitente de energia eólica e solar foi adiado para dezembro. E agora, comunidades indígenas não querem o projeto da Bytedance perto de suas malocas caindo sobre suas cabeças, num dos locais mais miseráveis do Brasil.
Nos Estados Unidos, data centers elevaram contas de energia, pressionaram o abastecimento de água e se tornaram tema politicamente sensível.
No Brasil, quase não houve reação negativa até agora, com exceção dos protestos indígenas. A infraestrutura digital já atraiu centenas de startups que esperam ter acesso a data centers mais avançados.
O projeto enfrenta resistência de comunidades indígenas. Quando Lula anunciou o investimento em dezembro, membros da tribo Anacé bloquearam estradas em protesto. Desde então, fazem piquetes esporádicos no local de construção. Para os Anacé, este é o mais recente insulto em uma longa história de abusos.
No início dos anos 1990, autoridades estaduais desapropriaram famílias de suas terras ancestrais para construir o Porto de Pecém e um parque industrial adjacente.
Na década de 2010, a Petrobras planejou uma gigantesca refinaria na zona franca, resultando no deslocamento de outras famílias Anacé. O projeto fracassou, deixando o terreno disponível para a ByteDance.
“Sinceramente, não vejo nada de positivo para a nossa comunidade”, afirma Andrea Coelho, líder tribal. “Não apoio o projeto.” Um data center consumirá tanta energia quanto uma cidade de porte médio, enquanto os Anacé sofrem com apagões frequentes em sua reserva.
A Omnia diz estar treinando centenas de membros da comunidade local como eletricistas e encanadores. Fábio Feijó, secretário de Desenvolvimento Econômico do Ceará, afirma que o projeto é apenas o começo.
“Quando o primeiro data center estiver pronto, outros virão. O mundo inteiro está de olho.”
O investimento marca um ponto de inflexão na competição geopolítica por infraestrutura digital. Enquanto os Estados Unidos enfrentam pressões políticas domésticas, o Brasil oferece um cenário diferente.
A infraestrutura digital de Fortaleza já atraiu centenas de startups. “Do ponto de vista de uma startup, é uma excelente oportunidade para testar software e tecnologia”, afirma Caetano Lima, analista sênior da Ninna Hub, incubadora de tecnologia.
O projeto da ByteDance evidencia como a competição tecnológica global se materializa em decisões de investimento que redefinem a geopolítica das Américas.
Para o Brasil, representa oportunidade de diversificar sua economia e fortalecer sua posição como polo de infraestrutura digital. Para a China, consolida sua estratégia de expansão global em inteligência artificial. Para os Estados Unidos, é sinal de que sua hegemonia tecnológica nas Américas não é mais garantida. Para os Anacé, é mais um capítulo de uma história de desapropriação e marginalização que persiste apesar das promessas de desenvolvimento.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















