Lula reúne chefes dos Três Poderes em Brasília, enquanto Flávio Bolsonaro testa força do bolsonarismo contra Lula e Moraes em ato que mira 100 mil pessoas
Brasília – O Brasil comemorou os 204 anos da Independência nesta segunda-feira (7/9) com o país politicamente dividido entre o desfile oficial na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, conduzido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e com a presença dos chefes dos Três Poderes, e o ato de oposição convocado pelo candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, na Avenida Paulista, em São Paulo, que reuniu lideranças da direita e do bolsonarismo em torno das palavras de ordem “Fora Lula” e “Fora Moraes”.
As agendas dos dois principais candidatos na corrida presidencial ocorreu em plena campanha eleitoral, com o governo estimando em cerca de 70 mil pessoas o público na capital federal, segundo a Secretaria de Comunicação (Secom), e com a oposição mirando a marca de 100 mil manifestantes na maior avenida do país, em um teste direto da força do bolsonarismo após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A cerimônia oficial e o retorno do STF à tribuna
O desfile cívico-militar teve início às 9h e se estendeu até por volta das 11h20, encerrado com a apresentação da Esquadrilha da Fumaça e de aeronaves da Força Aérea Brasileira. A celebração começou com o passeio de Lula e da primeira-dama, Janja Silva, a bordo do Rolls-Royce presidencial pela Esplanada, seguido da acomodação na tribuna das autoridades, onde já aguardava o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). Além do presidente da República, estiveram presentes o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), que chegaram por volta das 8h15, acompanhados do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do ministro da Fazenda, Dario Durigan.
A presença de Fachin na tribuna teve simbolismo político relevante. Em 2025, nenhum ministro da Corte compareceu à cerimônia, realizada durante o julgamento da trama golpista que resultou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Neste ano, apenas o presidente do STF acompanhou o evento, em meio à crise desencadeada na instituição após os desdobramentos das investigações sobre o Banco Master, que colocaram sob suspeita a relação do ministro Alexandre de Moraes com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A organização do evento foi coordenada pelas pastas da Secretaria-Geral da Presidência e da Secom, além do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). O Planalto submeteu todos os preparativos à Advocacia-Geral da União (AGU), comandada por Jorge Messias, que presta suporte jurídico à Presidência. O temor declarado é de que adversários acionem a Justiça Eleitoral sob o argumento de que a ocasião teria sido utilizada para promoção eleitoral da campanha à reeleição da chapa Lula-Alckmin. Embora não haja orientação explícita nesse sentido, ministros e apoiadores de Lula deverão evitar o uso de acessórios e símbolos que remetam ao PT, como o adesivo com o número 13 e as cores vermelhas.
O cuidado não é casual. Em 2023, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por abuso de poder político e econômico nas comemorações do Bicentenário da Independência, realizadas em 7 de setembro de 2022, declarando a inelegibilidade da chapa formada por ele e pelo candidato a vice Walter Braga Netto por oito anos, ou seja, até 2030.
Na tribuna das autoridades, uma cena chamou a atenção dos presentes. Cinco meses após ser rejeitado para uma vaga no STF, o ministro da AGU, Jorge Messias, foi visto cumprimentando o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. A governadora do Distrito Federal, Celina Leão, por sua vez, não participou da cerimônia, tendo visitado durante o desfile o Centro Integrado de Operações de Brasília (Ciob).
Os três eixos temáticos
O desfile deste ano foi estruturado em três eixos temáticos, que focaram a soberania nacional, o combate à violência contra a mulher e a Copa do Mundo Feminina de 2027. A defesa da soberania ganhou espaço no discurso do governo depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevou tarifas sobre produtos brasileiros em 2025, tornando-se uma das bandeiras da campanha de Lula à reeleição. Em pronunciamento transmitido no domingo (6/9), o presidente afirmou que o Brasil “não é e não será colônia de ninguém” e defendeu autonomia para proteger o território, as riquezas e as relações comerciais do país.
A programação reuniu estudantes de escolas públicas, tropas das Forças Armadas, policiais militares e bombeiros do Distrito Federal, além de blindados, motocicletas e cavalaria. O desfile contou ainda com o tradicional desfile motorizado, as apresentações da pirâmide humana e da Esquadrilha da Fumaça e honras militares. Durante a cerimônia, um robô do Exército brasileiro bateu continência às autoridades. No fim da celebração, o presidente Lula desceu da tribuna e acenou para os populares na Esplanada.
O ato da Paulista e o teste do bolsonarismo
Enquanto o governo celebrava em Brasília, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, convocou apoiadores para um comício na Avenida Paulista, em São Paulo, com concentração marcada para as 15h. Flávio chegou ao local por volta das 14h30 acompanhado da esposa, Fernanda, e cumprimentou os apoiadores em cima do trio elétrico. O evento teve início com um discurso da bispa Sonia Hernandes, seguido pela deputada federal Bia Kicis. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), discursou e afirmou que “Supremo é o povo brasileiro”.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também discursou no ato organizado pela direita, declarando que “ninguém está acima da lei e da Constituição”. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) voltou a chamar os áudios em que conversa com o banqueiro Daniel Vorcaro de “pastel de vento” e afirmou que o “lugar de Alexandre de Moraes é na cadeia”. O pastor Silas Malafaia, ao lado de Flávio e Tarcísio, pediu que o presidente do STF afaste o ministro Alexandre de Moraes.
O locutor do evento pediu anistia para o pai do candidato, Jair Bolsonaro, preso após condenação pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e que cumpre prisão domiciliar. Os manifestantes também homenagearam o ministro André Mendonça e levaram um “bonecão” inflável do ministro Alexandre de Moraes ao evento. Na sequência, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, prometeu que Jair Bolsonaro estará livre no dia seguinte da posse de Flávio, mas advertiu que, se o filho não vencer a eleição, o ex-presidente seguirá preso.
O ato é visto como termômetro da força atual do bolsonarismo, em meio à repercussão das mensagens trocadas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, preso no escândalo do Banco Master, e dos diálogos virtuais entre o ex-banqueiro e o ministro Alexandre de Moraes, a quem Vorcaro chegou a perguntar se deveria deixar o país dois dias antes de ser preso, em novembro de 2025. A manifestação teve como mote as frases “Fora, Lula, Fora, Moraes” e “É agora ou nunca”, e a campanha de Flávio a vê como ponto decisivo de virada, já que o candidato do PL tem aparecido atrás do presidente nas pesquisas de intenções de voto.
A estratégia da mobilização também engloba o reforço à candidatura de senadores alinhados à direita, como André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP), por São Paulo, para enfatizar a pauta de pedidos de impeachment no Congresso Nacional. O PL divulgou a frase “Vamos juntos resgatar o Brasil” nas convocações e estabeleceu a meta de atrair pelo menos 100 mil pessoas. A oposição pretende usar o ato para defender o avanço de pedidos de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes, concentrando as críticas em Lula e no magistrado, sem incentivar ataques à instituição STF como um todo.
O cenário ganhou contornos de disputa interna na Corte, uma vez que o ministro André Mendonça, relator do caso do Banco Master, retirou o sigilo das investigações e está em embate com Moraes sobre os rumos do inquérito. Flávio Bolsonaro defende que o ministro seja investigado e afastado do Supremo. O nome do candidato também foi citado no contexto das investigações, após virem à tona gravações de conversas suas com Vorcaro, em que pede dinheiro ao ex-banqueiro para custear o filme sobre seu pai, “Dark Horse”. O senador prometeu prestar contas do uso dos valores, o que ainda não ocorreu, havendo investigação em andamento no STF para apurar suspeita de uso de emenda parlamentar na produção.
Em meio à escalada da crise, o coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN), procurou o ministro Gilmar Mendes na semana anterior para sinalizar a intenção de manter relações institucionais com a Corte diante da hipótese de Flávio se eleger. “Temos todo o interesse de manter a relação institucional e queremos a compreensão do ministro de que iremos cobrar a Suprema Corte, mas o tribunal não é nosso adversário”, afirmou Marinho. Perto da Paulista, houve confusão com uso de bombas pela Polícia Militar antes do início do ato, segundo relatos de policiais no local.
O cenário eleitoral
O 7 de Setembro ocorreu em um momento de disputa acirrada pela Presidência. A mais recente pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada na quinta-feira (3/9), mostrou o presidente Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro. Em eventual segundo turno entre os dois, Lula apareceu com 46% e Flávio com 44%. No levantamento anterior, divulgado em 21 de agosto, Lula liderava com 47% contra 43% de Flávio. Pesquisas de outros institutos, como Atlas/Bloomberg e PoderData, apontaram cenários semelhantes, com vantagem de Lula dentro da margem de erro.
O ato na Paulista, portanto, foi tratado pela campanha do PL como um teste decisivo de capacidade de mobilização popular, em um contexto em que o principal líder da direita está preso e o candidato busca consolidar a narrativa de que o bolsonarismo permanece como força política relevante. O Monitor do Debate Político da USP e do Cebrap, em parceria com a organização More in Common, previa a divulgação de relatório com a estimativa do número de participantes, em um cenário em que protestos anteriores da direita na avenida reuniram 20,4 mil pessoas em março e 42,2 mil no 7 de Setembro de 2025.
O desfile oficial em Brasília, por sua vez, serviu ao governo para projetar a imagem de unidade institucional e de soberania nacional, em um ano em que a pauta econômica e as tensões comerciais com os Estados Unidos ocuparam o centro do debate. A presença de Fachin, ainda que isolada, sinalizou a tentativa de reconstruir a normalidade entre os Poderes após um ano de ausência da Corte, enquanto a oposição transformava o feriado em palco de pressão sobre o Judiciário.
O 7 de Setembro de 2026 consolidou, assim, um retrato do país em campanha: de um lado, a Esplanada celebrou a soberania e a unidade institucional sob a condução de Lula, com o STF retornando à tribuna em meio à crise do Banco Master; de outro, a Paulista reuniu a direita em torno de Flávio Bolsonaro para testar a força do bolsonarismo e pressionar o Supremo, em um movimento que transformou o feriado da Independência no primeiro grande embate eleitoral do segundo semestre, deixando claro que a disputa presidencial será travada tanto nas urnas quanto nas ruas, com o Judiciário no centro do confronto político.
Val-André Mutran é repórter especial do Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.






















