▪️Comissário europeu chega ao Brasil nesta semana para negociar acordos de cooperação em quatro projetos estratégicos, enquanto país debate marco regulatório para industrializar cadeia de minerais essenciais à transição energética global
▪️Brasil precisa recuperar o tempo perdido e realizar o mapeamento definitivo ou completo de 100% de seu território no que diz respeito aos depósitos de Elementos de Terras Raras (ETR)
Brasília – O Brasil enfrenta uma encruzilhada histórica que pode redefinir seu modelo de desenvolvimento econômico no que diz respeito à exploração e verticalizarão de Terras Raras. Com a chegada do comissário de Parcerias Internacionais da União Europeia, Jozef Síkela, prevista para 18 de junho de 2026, o país tem a oportunidade de corrigir décadas de exportação de commodities brutas e construir cadeias produtivas integradas de minerais críticos.
A visita marca o início de negociações que podem transformar o Brasil de simples fornecedor de matérias-primas em ator estratégico da transição energética global, enquanto a UE busca desesperadamente reduzir sua dependência da China no processamento de insumos essenciais como lítio, níquel, cobalto e terras raras.
Essa disputa geopolítica por recursos estratégicos coloca o país no centro da competição tecnológica do século XXI, mas exige que o governo brasileiro acelere seu marco regulatório e demonstre disposição em agregar valor localmente. E ainda mais: o país ainda não possui um mapeamento definitivo ou completo de 100% de seu território no que diz respeito aos depósitos de Elementos de Terras Raras (ETR).

O contexto que impulsiona essa aproximação da UE e dos Estados Unidos é claro e urgente. A China concentra entre 70% e 90% do processamento global de minerais críticos, criando uma dependência estrutural que a União Europeia, assim como, os Estados Unidos, consideram intolerável para sua segurança econômica e tecnológica.
No Ato Europeu de Minerais Críticos, lançado em 2023, o bloco estabeleceu metas ambiciosas para reduzir essa vulnerabilidade. A UE determinou que ao menos 40% de seu consumo anual de minerais críticos deve ser processado em unidades localizadas nos países integrantes do bloco até 2030, enquanto o máximo de 65% do consumo anual para cada matéria-prima poderá vir de um único país fora da região.
Essas metas revelam a percepção europeia de que a região está ficando para trás na corrida tecnológica e a necessidade urgente de construir cadeias produtivas sustentáveis e resilientes.
O Brasil emerge como parceiro estratégico nesse cenário porque possui algumas das maiores reservas mundiais de minerais críticos. O país detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, além de significativas reservas de lítio, níquel, cobalto e nióbio.
Diferentemente de outros fornecedores, o Brasil oferece à UE a possibilidade de construir cadeias de suprimentos integradas e verticalizadas, agregando valor através do processamento e refino local. Essa abordagem alinha-se com os objetivos europeus de autonomia estratégica e competitividade tecnológica.

Projetos identificados
A UE já identificou quatro projetos prioritários no Brasil que receberão atenção especial durante as negociações. O primeiro deles é o Colossus, empreendimento da empresa australiana Viridis localizado em Poços de Caldas, Minas Gerais.
O projeto abriga reservas de terras raras essenciais para a fabricação de ímãs usados em veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas de defesa e equipamentos de alta tecnologia.
De acordo com estudo de pré-viabilidade, a Viridis prevê investir US$ 356 milhões no Colossus, com previsão de iniciar operações no primeiro semestre de 2028. Os diretores executivos Klaus Petersen e José Marques Braga indicaram que a empresa também estuda o refino de óxidos de terras raras e a reciclagem de ímãs, visando construir uma cadeia de suprimentos mais integrada e verticalizada no país.

O segundo projeto de interesse europeu é a Refinaria São Miguel Paulista, localizada no bairro de mesmo nome na zona leste de São Paulo. A refinaria, que pertence à Jervois, controlada por um fundo americano, foi classificada pela UE como projeto estratégico, qualificando-a para receber apoio financeiro europeu.
A unidade terá capacidade de produzir 12 mil toneladas de níquel refinado e 2 mil toneladas de cobalto por ano, tornando-se a única refinaria de níquel classe 1 e cobalto na América Latina.
O empreendimento deve retomar operações em 2027, após investimento de R$ 500 milhões. Conforme explicou o presidente da Jervois Brasil, Carlos Braga, inicialmente a refinaria trabalhará com níquel e cobalto importado, sem contratos de fornecimento definidos. Uma das estratégias é que aquilo que não for absorvido pelo mercado brasileiro seja direcionado ao mercado europeu.
O terceiro projeto é o da britânica Brazilian Nickel, localizado em Capitão Gervásio Oliveira, no Piauí. A produção anual prevista é de aproximadamente 28 mil toneladas de níquel e mil toneladas de cobalto nos primeiros dez anos de operação, com primeira produção comercial estimada para 2029.
O projeto, com investimento estimado em US$ 1,4 bilhão, produzirá um produto intermediário na cadeia do níquel que necessita ser refinado. Como não há refinaria em operação no Brasil para essa etapa, a produção deve ser exportada. A Brazilian Nickel já possui acordos de fornecimento com empresas estrangeiras como a americana Westwin e a francesa EMME.
O quarto projeto é da empresa AMG, com sede nos EUA e na Holanda, que opera minas de lítio e tântalo em Minas Gerais. A companhia realiza a primeira etapa industrial de concentração desses minerais no Brasil e avalia investir em uma unidade de processamento de hidróxido de lítio.
Segundo Thomas Swoboda, chefe de Relações com Investidores da AMG, a empresa tem instalações em dez países na área de minerais críticos. Atualmente, o lítio brasileiro é exportado para a China e de lá transportado para a Alemanha, onde é usado na fabricação de baterias para a indústria automotiva, enquanto o tântalo é exportado integralmente para o Japão.
A visita do comissário Síkela a Poços de Caldas é interpretada pela diplomacia brasileira como uma sinalização política de que a UE deseja se aproximar do Brasil, embora não se espere a assinatura de um memorando concreto durante essa primeira visita.
O objetivo imediato é firmar um memorando de entendimentos com o governo brasileiro, a exemplo do que já foi feito com Argentina e Chile, abrindo caminho para acordos de cooperação e investimentos na área.
Joan Canton, chefe da Unidade de Descarbonização, Mobilidade e Materiais Críticos da Comissão Europeia, afirmou durante evento em Bruxelas que é absolutamente essencial trabalhar com parcerias, adicionando valor aos parceiros. “Podemos oferecer infraestrutura e tecnologia. Temos muito interesse no Brasil”, declarou Canton ao jornal O Globo.
Do lado brasileiro, a aproximação com a UE é vista como uma oportunidade para desenvolver a cadeia produtiva de minerais críticos e construir refinarias que possam processar a matéria-prima, agregando valor aos produtos e criando empregos.
O governo não deseja que o apoio europeu se limite à extração dos minerais, mas que contribua para a industrialização da cadeia. Essa posição reflete a preocupação de especialistas que alertam para o risco de o Brasil repetir seu padrão histórico de exportar minério bruto e importar tecnologia cara.
Contudo, o governo Lula não demonstra a mesma urgência que a UE. O Brasil ainda discute seu marco regulatório para minerais críticos, e existem lacunas sobre como os projetos devem ser estruturados. Essa é uma das razões pelas quais não se espera a assinatura de um memorando já nesta semana.
Além disso, não está claro se a UE disporá de recursos suficientes para participar dos projetos de seu interesse, uma vez que tem sido pressionada para ampliar o orçamento para segurança desde o início da guerra na Ucrânia.
O bloco europeu não pretende entrar sozinho em eventual financiamento de projetos de minerais críticos. Busca mobilizar capital de bancos de desenvolvimento locais, como o BNDES, e recursos de agências de fomento nacionais de países europeus.
O projeto Colossus, por exemplo, já foi elegível para financiamento por três agências internacionais de crédito à exportação: a Bpifrance Assurance Export, ligada ao governo da França, a Export Development Canada, do governo canadense, e a Export Finance Australia. A iniciativa também foi selecionada para receber recursos do BNDES e Finep. A AMG recebeu apoio do governo alemão para expansão de atividades, assim como do governo americano.
O apoio financeiro da UE aos projetos brasileiros, se concretizado, será feito no âmbito do Global Gateway, estratégia lançada em 2021 com o objetivo de mobilizar até € 300 bilhões de euros em investimentos, incluindo recursos públicos e privados, em setores como digitalização, clima e energia por meio de parcerias internacionais. Jozef Síkela, o comissário que vem ao Brasil, é o principal responsável por essa estratégia.
As conversas com o Brasil ocorrem em nível bilateral, mas nada impede que evoluam para que o tema seja foco do acordo UE-Mercosul, que entrou em vigor provisoriamente em 1º de maio de 2026.
O tratado contém uma cláusula que permite ao Brasil elevar impostos de exportação sobre minerais, com o objetivo de exercer controle sobre as reservas. Se isso acontecer, porém, é assegurado à UE tratamento preferencial, com uma espécie de desconto sobre a tarifa.
A disputa pelos minerais críticos brasileiros não se limita à Europa. Os Estados Unidos também demonstram interesse estratégico nos recursos brasileiros, criando uma dinâmica competitiva que pode beneficiar o Brasil em termos de negociação.
Especialistas alertam que o país deve acelerar sua política de minerais críticos para não perder a oportunidade de industrializar a cadeia e consolidar sua posição como fornecedor estratégico na nova ordem energética global.
Brasil precisa fazer o dever de casa
O Brasil ainda não possui um mapeamento definitivo ou completo de 100% de seu território no que diz respeito aos depósitos de Elementos de Terras Raras (ETR).
Embora o país seja amplamente reconhecido por ter uma das maiores reservas integradas do planeta (estimada em cerca de 21 milhões de toneladas, atrás apenas da China), a maior parte do território nacional ainda precisa de estudos geológicos em escalas de maior detalhamento para que o potencial real seja mensurado.
O cenário atual do mapeamento e da identificação dessas jazidas no país está estruturado da seguinte forma:
1. O avanço recente do serviço geológico do Brasil (SGB)
O governo brasileiro, por meio do SGB (antiga CPRM), tem intensificado os esforços para cobrir o “vazio geológico” sobre minerais críticos.
● Novas ferramentas: O SGB lançou uma plataforma interativa (Dashboard Panorama dos Elementos Terras Raras no Brasil) com o objetivo de centralizar os dados geocientíficos públicos existentes e atrair investimentos privados para pesquisa de campo.
● Estudos de fronteira: Pesquisas recentes avançaram em áreas específicas, como o Cinturão Ribeira (entre São Paulo e Paraná) e novas províncias minerais nas regiões Norte e Nordeste.
2. Investimentos internacionais no mapeamento
Diante da corrida global pela transição energética e tecnológica, o conhecimento geológico brasileiro vem recebendo aportes externos importantes.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em cooperação financeira com o Japão, destinou recursos para financiar novos levantamentos geofísicos e geoquímicos focados em minerais estratégicos.
O foco inicial dessas novas varreduras de alta precisão concentra-se em regiões da Bahia e no Vale do Jequitinhonha (MG).
3. Onde estão os depósitos já conhecidos?

Os depósitos mapeados e com projetos ativos ou em implantação estão concentrados em províncias geológicas muito específicas:

Da geologia à produção
O maior desafio brasileiro não é a falta de indícios minerais, mas a necessidade de refinar as escalas de mapeamento (passar de levantamentos regionais para detalhamentos que permitam a cubagem de reservas comerciais).
Além disso, o país enfrenta a barreira tecnológica da separação desses elementos químicos. Como os minerais de terras raras apresentam uma composição mineralógica e texturas muito variáveis, o processamento exige alta tecnologia industrial — etapa que o país tenta consolidar através de parcerias entre mineradoras comerciais e plantas de refino.
Para entender melhor o contexto econômico e geopolítico que envolve essas reservas e como o Brasil se posiciona na corrida por esses insumos minerais, vale a pena assistir à análise detalhada feita no vídeo Os minerais que fazem o mundo olhar para o Brasil. O material explica o peso estratégico que o país ganhou no mercado global de minerais críticos.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














