▪︎Tecnologia criada por pesquisadores do CNPEM promete reduzir custos de diagnóstico e democratizar acesso ao teste em todo o país
▪︎Sensor que detecta metástase é uma das inovações radicais em desenvolvimento no SUS
Brasília – Pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, desenvolvem inovação radical que utiliza inteligência artificial para identificar sinais de metástase a partir de amostras de saliva. O projeto ganhou novo impulso em 2026 ao integrar o Programa Nacional de Inovação Radical em Saúde, iniciativa do Ministério da Saúde que articula ciência e produção para potencializar a oferta de novos medicamentos e terapias para a população.
O biossensor, em formato de chip portátil, utiliza princípios semelhantes aos dos microchips de smartphones para identificar biomarcadores de metástase de câncer de boca.
A tecnologia emprega espectroscopia de impedância eletroquímica para detectar alterações elétricas na superfície do chip a partir da saliva, convertendo os dados em sinais digitais em tempo real. O método substitui, nesta fase, o uso de um espectrômetro de massas, equipamento laboratorial de grande porte orçado em até um milhão de dólares ou 5,17 milhões de reais na cotação desta quinta-feira (18).
Pesquisa revolucionária
A pesquisa, conduzida por cientistas brasileiros, foi além das técnicas convencionais de detecção de vírus, bactérias e sequenciamento de DNA. Segundo a pesquisadora Adriana Franco Paes Leme, líder do Núcleo de Tecnologia em Proteômica e da Divisão de Núcleos Avançados em Tecnologias para Saúde do Laboratório Nacional de Biociências do CNPEM, a iniciativa já utilizava um método sólido estruturado em 60 amostras de pacientes com e sem metástase. Agora, o projeto contará com um volume 13 vezes maior que o inicialmente previsto, expandindo a pesquisa para quase 800 amostras através de uma análise multicêntrica.
A ampliação tornou-se possível porque o Programa Nacional de Inovação Radical em Saúde aproxima instituições de peso como o próprio CNPEM, o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e os hospitais de excelência vinculados ao Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS).
Para acelerar a pesquisa da detecção de metástase, a cooperação será realizada com o Hospital Sírio Libanês, que contribuirá com acesso a pacientes e validação clínica, enquanto o CNPEM aporta infraestrutura, conhecimento científico e engenharia para o desenvolvimento do dispositivo.
Antes dessa parceria, o biossensor já apresentava uma acurácia de 76%, medida que define o grau de proximidade entre um resultado medido e seu valor real. Os esforços atuais concentram-se em elevar essa confiabilidade. Conforme destacou Adriana Franco Paes Leme, a oportunidade de realizar estudos em parceria com os centros de excelência fornecerá perspectivas que não existiam anteriormente, potencializando a validação clínica do dispositivo.
Historicamente, o ciclo que separa o início de uma pesquisa até a oferta de um medicamento na prateleira da farmácia pode ultrapassar dez anos. Isso porque o percurso envolve etapas complexas, como testes laboratoriais, ensaios clínicos, validação regulatória e adaptação para produção em escala.
A secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, Fernanda De Negri, destaca que o foco do programa é justamente encurtar esse caminho, com atuação integrada e direta para superar os desafios que ainda costumam travar projetos promissores.
“A missão é fortalecer a inovação radical, com o desenvolvimento de novas moléculas, medicamentos e produtos de saúde de ponta para reduzir a dependência externa e garantir a soberania do SUS”, pontuou.
De acordo com De Negri, a iniciativa parte do diagnóstico de que o país possui alta capacidade científica, mas ainda apresenta baixa conversão de conhecimento em soluções.
Para viabilizar essa transição, o Governo do Brasil vai financiar a instalação de um laboratório de pesquisa e desenvolvimento dedicado às necessidades estratégicas do setor produtivo de saúde, com foco na indústria farmacêutica.
A criação dessa infraestrutura no CNPEM representa um marco de inovação, uma vez que o Brasil passará a contar com um suporte tecnológico inédito, essencial para transformar pesquisa em recursos reais que posicionem o país como referência em biotecnologia e saúde.
Projetos-piloto
Ao todo, quatro projetos-piloto em execução no CNPEM foram selecionados para integrar o Programa Nacional de Inovação Radical em Saúde.
Além do biossensor, há pesquisas avançadas para desenvolver soluções para dor crônica neuropática, doenças neurodegenerativas e autoimunes. Para sair do laboratório e chegar ao paciente, os projetos percorrem um processo estruturado em duas etapas.
Primeiro, as iniciativas passam por avaliação técnica, regulatória e de viabilidade comercial, com foco no potencial de escalabilidade e incorporação ao SUS. Em seguida, o programa apoia a captação de recursos, a formalização de parceiros e o acesso à infraestrutura de ponta do CNPEM, para transformar pesquisas em soluções reais e validadas para a saúde pública.
Em novembro de 2025, o Ministério da Saúde celebrou um acordo com o CNPEM, órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, para torná-lo o primeiro polo de inovação radical em saúde do país. Com isso, a instituição assumiu o papel de primeiro centro-âncora nacional, com atuação voltada às prioridades do SUS.
Na prática, a parceria fortalece a autonomia tecnológica e a soberania nacional ao disponibilizar infraestrutura científica de alto nível para pesquisadores, startups e indústrias parceiras do programa.
Entre os destaques da infraestrutura está o Sirius, maior fonte de luz síncrotron da América Latina, capaz de visualizar estruturas biológicas em nível atômico.
Essa infraestrutura é essencial para desenvolver e validar projetos de inovação radical, com a redução da dependência externa e a aceleração na entrega de novos tratamentos à população. O equipamento representa um diferencial competitivo para a pesquisa brasileira, permitindo análises que antes exigiam deslocamento para laboratórios internacionais.
Diferentemente da inovação incremental, que apresenta melhorias graduais de tecnologias já conhecidas, como uma nova formulação de medicamento ou a versão atualizada de um protocolo, a inovação radical promove rupturas tecnológicas capazes de transformar a prevenção, o diagnóstico e o tratamento de doenças.
Exemplos incluem o uso de inteligência artificial para diagnóstico, a implementação de terapias celulares avançadas e as vacinas com novas plataformas tecnológicas.
O biossensor representa, portanto, um exemplo concreto dessa abordagem inovadora. Sua capacidade de detectar metástase de câncer de boca a partir de uma simples amostra de saliva, combinada com inteligência artificial, oferece potencial significativo para transformar a prática clínica.
A redução de custos operacionais, a portabilidade do dispositivo e a possibilidade de diagnóstico rápido e preciso podem democratizar o acesso ao diagnóstico precoce, especialmente em regiões com menor infraestrutura laboratorial.
As implicações dessa inovação estendem-se além do diagnóstico de câncer de boca. O sucesso do biossensor pode abrir caminho para o desenvolvimento de sensores similares para detecção de outros tipos de câncer e doenças, utilizando diferentes fluidos corporais.
Além disso, a consolidação do CNPEM como polo de inovação radical em saúde posiciona o Brasil como protagonista no desenvolvimento de tecnologias médicas de ponta, reduzindo a dependência de importações e gerando oportunidades de exportação de soluções inovadoras.
O programa também representa um avanço na integração entre pesquisa básica e aplicada, aproximando universidades, institutos de pesquisa e o setor produtivo.
Essa sinergia é fundamental para acelerar a transformação de descobertas científicas em produtos e serviços que efetivamente cheguem aos pacientes do SUS, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida da população brasileira.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















