O agro brasileiro está a 1,2% de superar os EUA no ranking mundial
Brasília – O governo dos Estados Unidos, sob o comando de Donald Trump, passa a cobrar nesta quarta-feira (22) uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A medida, no entanto, abre exceção para uma lista de itens considerados estratégicos para empresas e consumidores americanos. Paralelamente ao tarifaço, o Brasil vive um momento histórico no agronegócio. Reportagem do jornal britânico Financial Times, publicada na segunda-feira (21), aponta que o país está prestes a superar os Estados Unidos e se tornar o maior exportador agrícola do mundo. A informação já repercute nos principais veículos de comunicação nacionais e estrangeiros.
O levantamento utiliza dados oficiais do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) e do Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil, além de estatísticas da alfândega chinesa e de entidades setoriais como a American Farm Bureau Federation e a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).
Em vinte anos, o Brasil reduziu de 137% para apenas 1,2% a vantagem americana nas exportações agrícolas. A virada deve se concretizar ainda em 2026, impulsionada pela guerra tarifária de Trump contra a China, pelos ganhos de produtividade no campo brasileiro e pela demanda asiática por soja, carnes e algodão.
Apesar da nova taxa norte-americana, a lista de exceções é ampla. Mais de 2.100 itens brasileiros ficaram de fora da tarifa de 25%, entre eles carne bovina, suco de laranja, componentes para aeronaves, açaí e água de coco.

O tamanho da virada
Os números que sustentam a tese são expressivos. Em 2025, os Estados Unidos exportaram US$ 171 bilhões em produtos agrícolas, enquanto o Brasil embarcou US$ 169 bilhões — uma diferença de apenas US$ 2 bilhões. Quatro anos antes, em 2021, essa distância era de US$ 56 bilhões, o que representava uma vantagem americana de 137% sobre os brasileiros.
A redução drástica do hiato, portanto, não é fruto de um evento isolado, mas de uma trajetória consistente de crescimento das vendas externas brasileiras aliada a uma perda relativa de competitividade dos EUA no mercado internacional de commodities.
No primeiro semestre de 2026, o Brasil já embarcou US$ 87 bilhões em produtos do agronegócio, um recorde histórico para o período, com alta de 6% na comparação com o mesmo intervalo de 2025.
Os destaques ficaram por conta da soja, das carnes bovina e de frango e do algodão, que atingiram máximas históricas de embarques, segundo dados do Ministério da Agricultura. A soja brasileira para a China saltou 83% no primeiro bimestre de 2026 ante igual período do ano anterior, de acordo com a Administração Geral de Alfândega da China (GACC). O país asiático já responde por 33% de todo o valor exportado pelo agro brasileiro, o equivalente a US$ 55,3 bilhões em 2025.
Guerra tarifária como acelerador
O fator geopolítico mais relevante por trás dessa mudança de patamar é a guerra comercial entre Estados Unidos e China, intensificada a partir de 2025 com a imposição de tarifas de Donald Trump sobre produtos chineses e a retaliação de Pequim. A China passou a taxar em 10% a soja americana — alíquota inferior aos 25% aplicados no primeiro mandato de Trump, mas suficiente para redirecionar a demanda. Com a soja americana mais cara no mercado chinês, os compradores asiáticos ampliaram maciçamente as aquisições do Brasil, que oferecia preços mais competitivos e disponibilidade de produto.
O Financial Times destaca que o movimento não se restringe à soja. As tarifas e a incerteza comercial têm afetado todo o cardápio de exportações agrícolas americanas, do milho ao algodão, passando por carnes e lácteos. A American Farm Bureau Federation estima perdas médias de US$ 341 por hectare de soja e US$ 413 por hectare de milho para os produtores americanos já em 2027, o que sinaliza uma deterioração estrutural da competitividade americana.
Fatores estruturais além das tarifas
Embora a guerra comercial seja o gatilho mais visível, especialistas apontam que fatores estruturais também explicam a ascensão brasileira. O país ampliou expressivamente sua área cultivada, investiu em tecnologia agrícola tropical, dobrou a produtividade por hectare em culturas como soja e milho nas últimas duas décadas e diversificou sua pauta de exportações, com avanço significativo de proteínas animais, algodão, café, suco de laranja e, mais recentemente, frutas frescas — cujas exportações bateram recorde de US$ 709 milhões no primeiro semestre de 2026, alta de 21%.
O Brasil também se beneficiou de uma rede logística em expansão, com novos corredores de exportação no Arco Norte — que escoa a produção do Centro-Oeste e do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) pelos portos do Norte e Nordeste, reduzindo custos e dependência do Porto de Santos. Estados como Bahia, Maranhão e Piauí emergiram como novas fronteiras agrícolas, impulsionando a produção nacional.
O outro lado da balança
A guerra tarifária EUA-China, no entanto, não produz apenas efeitos positivos para o Brasil. Uma análise mais detida revela impactos heterogêneos entre regiões e setores. Enquanto o agronegócio do Centro-Oeste e do Matopiba se beneficia do redirecionamento da demanda chinesa, estados industrializados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro — os três maiores PIBs do país — registram perdas bilionárias com a retaliação comercial e a desorganização das cadeias globais de valor, conforme apurou a Agência Pública.
Além disso, há riscos concretos no horizonte. A queda nos preços internacionais das commodities, aliada ao aumento da oferta global, pode comprimir a receita do setor mesmo com volumes recordes de exportação. A Abiove, por exemplo, projeta safra e exportação recordes de soja em 2026, mas alerta que a receita do setor pode recuar devido aos preços mais baixos. Já a China sinalizou que pode importar menos soja no ciclo 2026/27 — 95,5 milhões de toneladas ante 103,3 milhões previstas para o ciclo anterior —, o que poderia arrefecer o ímpeto exportador brasileiro.
Outro fator de incerteza é a política cambial e monetária. O real desvalorizado frente ao dólar tem beneficiado as exportações ao tornar os produtos brasileiros mais competitivos, mas também encarece insumos importados, como fertilizantes e defensivos agrícolas — o Brasil importa atualmente 333 mil toneladas de agrotóxicos, volume 7,5% inferior ao de 2025, mas ainda expressivo em termos de custo.
Número um no Mundo
A possibilidade de o Brasil assumir a liderança global nas exportações agrícolas gerou ampla repercussão na imprensa brasileira e internacional. Faltam apenas mais US$ 2 bilhões para o Brasil destronar os Estados Unidos da primeira posição no ranking mundial.
É importante notar, contudo, que a ultrapassagem não é um fato consumado, mas uma projeção consistente com as tendências atuais. Uma trégua comercial entre EUA e China, a retomada da competitividade americana ou uma quebra de safra no Brasil — provocada por eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes — podem adiar ou mesmo reverter o movimento. O Financial Times ressalva que “a diferença, de apenas US$ 2 bilhões, está dentro da margem de variação anual típica do comércio agrícola”, o que significa que o posto pode oscilar entre os dois países nos próximos anos.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















