Operação cumpre cinco mandatos de prisão. Dono tentou fugir num jatinho. Oferta de compra pelo Banco BRB também foi rejeitada, há um mês, pela autoridade financeira nacional
Brasília – Com uma reviravolta dramática no cenário financeiro brasileiro, o Banco Master e seu proprietário, Daniel Vorcaro, tornaram-se o epicentro de uma série de eventos que culminaram na prisão do banqueiro e na liquidação extrajudicial da instituição. A Polícia Federal deflagrou a operação “Compliance Zero” nas primeiras horas desta terça-feira (18), apurando suspeitas de crimes na venda do banco para o BRB, enquanto o Banco Central (BC) decretava o fim das operações do Master, encerrando também uma recente proposta de aquisição pela Fictor Holding Financeira.
A operação “Compliance Zero” teve início com a prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ainda na noite da segunda-feira (17), no Aeroporto de Guarulhos. A Polícia Federal agiu antecipadamente após detectar uma tentativa de fuga de Vorcaro para o exterior em um jatinho particular, por volta das 22h.
A suspeita é que a informação do mandado de prisão havia vazado, levando os investigadores a adiantarem a ação. Nesta manhã, a PF deu sequência à operação com cinco mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 25 mandados de busca e apreensão, mirando, além de Vorcaro, outro sócio do banco, Augusto Lima.
A investigação aponta para suspeitas de crimes como gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa. A principal linha de apuração foca na emissão de títulos de crédito falsos pelo Banco Master, que teriam sido vendidos ao BRB. Após uma fiscalização do Banco Central, esses títulos foram supostamente substituídos por outros ativos sem a devida avaliação técnica.
A crise no Banco Master não é recente. Desde o final do ano passado, a instituição vinha apresentando dificuldades financeiras, com uma estratégia de crescimento baseada em ativos de pouca liquidez, como precatórios, enquanto prometia alta remuneração a investidores através de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), garantidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Ativos “podres”
Em março, o banco tinha cerca de R$ 60 bilhões em depósitos a pagar. Diante do cenário, Daniel Vorcaro realizou vendas de bens pessoais e buscou outras negociações, como a venda de R$ 1,5 bilhão em ativos ao BTG em maio, e recorreu a uma linha de mais de R$ 4 bilhões do FGC para honrar resgates de depósitos.
Em setembro, o Banco Central já havia reprovado a compra de uma fatia do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). O BC analisou o processo por cinco meses, e a decisão foi centralizada no risco de o BRB ser contaminado pelos ativos do Master, considerados “podres”.
O acordo frustrado previa a aquisição de R$ 23 bilhões em ativos do banco de Vorcaro, e a rejeição deixou o futuro do Master incerto, com a possibilidade de intervenção ou liquidação pelo Banco Central.
Em meio a esse turbulento cenário, a Fictor Holding Financeira anunciou, também na segunda-feira, uma proposta para comprar o Banco Master. A Fictor, pouco conhecida no mercado financeiro, pretendia adquirir o banco em conjunto com um consórcio de investidores dos Emirados Árabes Unidos, que somam mais de US$ 100 bilhões em ativos sob gestão.
A proposta incluía um aporte de R$ 3 bilhões para fortalecer a estrutura de capital do banco, e, se concretizada, Vorcaro deixaria a instituição, que seria renomeada para Banco Fictor. A operação, contudo, estaria sujeita à aprovação do Banco Central e do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). No entanto, pessoas a par das tratativas apontaram que a Fictor não havia entregue formalmente a proposta ao BC antes do anúncio público, o que é incomum no setor.
A Fictor é parte de um conglomerado com atuação em diversos setores e patrocinadora do Palmeiras. A Fictor Alimentos, braço da holding, inclusive tem ações negociadas na B3 — a Bolsa de Valores do Brasil. Curiosamente, a FictorPay, empresa de pagamentos do grupo, sofreu um furto de R$ 24 milhões no mês anterior devido a um ataque cibernético.
Reviravolta
A reviravolta final para o Banco Master veio nesta terça-feira. Menos de um dia após o anúncio da proposta da Fictor, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. A decisão, assinada pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, estende-se também à Master SA Corretora de Câmbio e efetivamente encerra qualquer possibilidade de o acordo com a Fictor avançar.
A liquidação já estava no radar desde a rejeição da compra pelo BRB em setembro, devido ao modelo de negócios do Master, considerado problemático por emitir papéis garantidos pelo FGC e pagar taxas muito acima do mercado.
A sucessão de eventos – a prisão de Daniel Vorcaro, a operação policial apurando graves crimes financeiros, e a imediata liquidação do Banco Master pelo Banco Central – desenha um quadro de profunda crise e instabilidade.
As implicações diretas recaem sobre a instituição, seus envolvidos e o mercado financeiro, que observa atentamente as ações regulatórias e policiais.
O veto do BC à compra pelo BRB, as dificuldades financeiras do Master, a tentativa frustrada de venda à Fictor e, finalmente, a liquidação demonstram um cenário onde a fiscalização regulatória se mostrou crucial diante de um modelo de negócios de alto risco e suspeitas de ilícitos.
A atuação do FGC, que já havia concedido linhas bilionárias, ressalta a importância do fundo para a proteção dos depositantes em casos de quebra bancária.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















