Dez anos após o início da operação da primeira turbina da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, organizações ambientais e de direitos humanos voltaram a denunciar os impactos sociais e ambientais provocados pelo empreendimento no rio Xingu, no Pará. Em uma carta aberta divulgada nesta semana, entidades afirmam que comunidades indígenas, ribeirinhas e pescadores artesanais seguem enfrentando graves consequências relacionadas à redução do fluxo natural das águas e à perda de recursos pesqueiros.
O documento foi assinado por organizações como Conselho Indigenista Missionário, Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, Movimento Xingu Vivo Para Sempre e a Associação Interamericana para Defesa do Ambiente (AIDA). As entidades afirmam que cerca de 80% da vazão natural da água na região conhecida como Volta Grande do Xingu foi desviada, afetando diretamente a vida das populações locais.
Segundo a carta, desde 2023 não há registros de piracema — período de reprodução dos peixes — em áreas monitoradas pelas comunidades tradicionais. O cenário, segundo os denunciantes, ameaça espécies aquáticas, compromete a segurança alimentar e altera profundamente o modo de vida de famílias que dependem do rio para sobreviver.
As organizações também apontam que os períodos de seca extrema registrados recentemente na Amazônia agravaram ainda mais os impactos ambientais na região. Além da redução da pesca, moradores relatam dificuldades de navegação, isolamento de comunidades e mudanças no cotidiano cultural e econômico das populações tradicionais.
O caso relacionado a Belo Monte tramita desde 2011 na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. As entidades pedem reparação integral às comunidades afetadas, adoção de um hidrograma ecológico — mecanismo para garantir maior equilíbrio ambiental na vazão do rio — e a suspensão de novos projetos de grande impacto até que os danos acumulados sejam avaliados.
Representantes da AIDA afirmam que parte significativa das condicionantes ambientais previstas no licenciamento ainda não teria sido plenamente cumprida. Também criticam indenizações financeiras consideradas insuficientes diante das perdas culturais, ambientais e econômicas enfrentadas pelos moradores da região.
Em resposta, a Norte Energia, concessionária responsável pela usina, afirmou que continua cumprindo as obrigações socioambientais estabelecidas no licenciamento ambiental. Segundo a empresa, das 71 condicionantes previstas, 42 já foram atendidas e outras seguem em andamento. A companhia também declarou que estudos identificaram mais de 140 áreas de piracema na Volta Grande do Xingu e defendeu que há segurança alimentar nas comunidades monitoradas.
O debate sobre Belo Monte volta ao centro das discussões justamente em um momento em que a Amazônia enfrenta desafios climáticos e sociais intensos, além da crescente pressão internacional sobre projetos de desenvolvimento na região. Enquanto organizações denunciam um “custo humano crescente”, comunidades atingidas seguem aguardando respostas definitivas sobre reparação e proteção de seus territórios.
Com informações do portal G1















