No fim dos anos 1950 — quando Belém ainda bocejava cedo e a Matinha cheirava a capim úmido, esterco fresco e café passado em pano — houve um tempo em que o bairro deixou de discutir futebol, política, mulher bonita ou o preço do peixe no Ver-o-Peso. Falava-se de uma coisa só. Ou melhor: de alguém. Um fantasma. Um espectro. Uma inconveniência do Além que resolveu se instalar, com notável falta de educação, na vacaria dos irmãos Quim Cuiú e Mané Poronga.
O perímetro da assombração era preciso, quase cartorial: entre as ruas 14 de Abril, 3 de Maio, Domingos Marreiros e Boaventura da Silva. Na área, havia um colossal igapó, pantanoso e cheio de árvores. Ali, dizia-se, o invisível tinha endereço fixo, horário irregular e um talento especial para perturbar bois, vacas e o sossego humano. A estrebaria era um ambiente de terror.
Os irmãos, portugueses de sotaque carregado e paciência curta, não estão mais entre nós para confirmar ou desmentir o ocorrido. Mas os moradores mais antigos, esses ainda vivos e cheios de memória, contam a história como quem mistura medo, riso e um deboche contido — porque, no fundo, ninguém sabe ao certo se acredita, mas ninguém ousa negar completamente.
Quim Cuiú era o leiteiro do bairro. Figura lendária antes mesmo do fantasma. Andava pelas ruas com uma foice numa mão e a leiteira na outra — a primeira para intimidar a rapaziada zombeteira que gritava “Cuiú!” à distância, a segunda para cumprir o ofício sagrado de distribuir leite fresco. E que leite. Quente, espesso, com gosto de madrugada e capim. Leite de verdade, desses que hoje só existem na memória e nas metáforas.
Cuiú detestava o apelido. Dizem que o apelido nasceu de uma piada antiga, daquelas que ninguém lembra mais como começou, mas que todo mundo repete. A foice não era para matar ninguém — ao menos oficialmente — mas para impor respeito. Funcionava. Até certo ponto.
Na conversa com os fregueses, entre uma caneca e outra, Cuiú soltava a confidência, sempre em voz baixa, como quem não quer chamar atenção do outro lado:
— Lá na vacaria tem coisa que não é deste mundo…
O fantasma, segundo ele, era um sujeito chato. Não daqueles solenes, de corrente arrastando e gemidos poéticos. Nada disso. Era um espírito irritadiço, mal-humorado, que jogava baldes para o alto, batia portas invisíveis, derrubava latas e fazia um escarcéu que nem boi acostumado com trovão aguentava. As vacas mugiam a noite inteira. Os bois não dormiam. E animal sem dormir não produz.
A zoação do Além
Mané Poronga, o irmão, era ainda mais nervoso. Outro que odiava o apelido — e com razão, diga-se. Se Cuiú era desconfiado, Poronga era explosivo. Brigou com o fantasma mais de uma vez, aos gritos, xingando o vazio, ameaçando o nada, como se o Além pudesse se intimidar com palavrão em português carregado.
Certa noite, depois de um barulho especialmente infernal — panelas voando, portas batendo e uma vaca desmaiando de susto — Mané perdeu a paciência. Procurou uma rezadeira famosa do bairro, mulher pequena, mas respeitada, que falava com santos, espíritos e o que mais aparecesse, desde que não fosse depois das oito da noite.
A rezadeira foi até a vacaria. Levou galho de arruda, água benta, vela grossa e um latim improvisado. Rezou. Benzou. Conversou com o ar. No fim, saiu com o rosto fechado e uma frase ambígua:
— Isso aí não é coisa simples, não.
O que, convenhamos, só piorou tudo.
Enquanto isso, a produção de leite caía. “Dia sim, dia não”, reclamavam os moradores. Criança sem leite chorava. Dona de casa reclamava. E Cuiú explicava, meio sério, meio resignado:
— As vacas tão apavoradas… ninguém trabalha direito com fantasma no curral.
O episódio mais famoso envolveu Mimosa, uma vaca específica, lembrada até hoje como “a fujona”. Tão aterrorizada estava a pobre criatura que, numa madrugada de lua pálida, rompeu o curral e saiu pelas ruas da Matinha como se fosse possuída por um espírito ainda pior: o do caos urbano. Derrubou cercados de madeira, espalhou lixo, quase invadiu uma venda. O bairro entrou em pânico.
Chamaram a prefeitura. Serviço municipal, homens de chapéu duro e corda grossa. Vieram os laçadores, que depois de muito custo conseguiram dominar a vaca furiosa e devolvê-la, contrariada, à vacaria amaldiçoada.
Mas o fantasma não se deu por vencido.
Espírito paga aluguel
Houve também o caso do cachorro que se recusava a passar em frente ao terreno depois das seis da tarde. Do galo que cantava às 10 da manhã. Da lamparina que apagava sozinha. Do menino que jurou ter visto “um homem sem pé” sentado sobre um monte de feno. E da senhora que dizia ouvir alguém ordenhando vacas invisíveis quando não havia ninguém ali.
Claro, havia os céticos. Sempre há. Diziam que era rato, vento, madeira velha, imaginação de gente simples. Diziam que Cuiú inventava história para justificar o leite ralo. Diziam que Mané bebia demais. Diziam tudo — mas atravessavam a rua ao passar em frente à vacaria.
No fim, o desgaste venceu o sobrenatural. Cansados da assombração, da queda na produção, das risadas pelas costas e das noites mal dormidas, os irmãos venderam a vacaria a um espanhol recém-chegado, homem prático, que não acreditava em fantasma nenhum.
— Espírito? Se aparecer, eu cobro aluguel, disse ele.
Cuiú e Poronga fizeram as malas, juntaram o pouco que tinham e foram sentar praça em outro bairro, levando consigo a foice, a leiteira e uma história que se recusava a morrer.
Dizem que o espanhol nunca viu fantasma algum. Dizem também que, estranhamente, as vacas nunca mais produziram como antes. Coincidência, claro. Sempre coincidência.
Hoje, quando o assunto surge entre um café e outro, alguém sempre solta uma risada nervosa e conclui:
— Era bobagem…
Mas ninguém, absolutamente ninguém, aceita ficar sozinho naquele quarteirão depois de escurecer.
Vai que o fantasma ainda mora lá. Ou pior: vai que nunca foi fantasma coisa nenhuma.















