A capital do Pará sempre foi uma cidade generosa em histórias. Algumas são épicas, outras dramáticas. E há também aquelas que parecem ter saído diretamente de um manual muito particular de filosofia popular, onde a regra básica é simples: cada doido com sua mania.
Anos atrás, na capital paraense, circulava uma figura que havia resolvido levar o amor-próprio a um nível quase científico. Nada de depender de terceiros, nada de sofrer por reciprocidade. Ele encontrou uma solução muito mais eficiente: apaixonar-se por si mesmo — com direito a correspondência romântica.
O ritual era meticuloso, digno de um romance epistolar do século XIX.
O cidadão escrevia cartas de amor inflamadas, cheias de declarações apaixonadas, elogios generosos e promessas sentimentais. Até aí, nada demais. O detalhe curioso era o destinatário: ele próprio.
Para dar um toque de suspense à trama, usava o endereço de um primo. Depois colocava o envelope no correio, como qualquer amante dedicado faria. A carta seguia viagem pela rede postal, cumpria todo o percurso burocrático da paixão e finalmente chegava ao destino.
Dias depois, lá estava ele.
Comparecia ao endereço, pegava a correspondência e, diante de quem estivesse por perto, abria o envelope com o entusiasmo de quem espera notícias do grande amor. Lia cada linha com atenção, como se estivesse descobrindo sentimentos secretos.
No clímax do espetáculo, vinha o momento mais solene.
Ele beijava a carta.
E então, com voz alta e convicção digna de declaração em praça pública, anunciava para o mundo:
— Eu me amo muito! Estou apaixonado por mim!
Era uma cena que misturava teatro, filosofia e uma boa dose de surrealismo amazônico.
A vizinhança, claro, assistia a tudo com aquela sabedoria popular que Belém produz como ninguém. Depois de alguns episódios do romance postal consigo mesmo, surgiu o veredicto coletivo, curto e definitivo:
— Cada doido com sua mania.
E talvez seja mesmo uma das frases mais sábias já inventadas.
Porque, no fundo, olhando bem, a história daquele apaixonado por si mesmo não é tão diferente de outras extravagâncias humanas. Há quem converse com plantas, quem discuta com o rádio, quem jure que o time vai ser campeão todo ano — e, agora, como vimos outro dia, há quem namore inteligência artificial com sotaque irlandês.
Comparado a isso, o sujeito das cartas talvez fosse até um visionário.
Pelo menos tinha uma vantagem importante: nunca corria o risco de levar um fora.















