A repercussão dos vídeos que mostram moradores utilizando um trecho do Canal do Tucunduba como uma “praia improvisada”, em Belém, levou a Prefeitura da capital paraense a anunciar uma série de medidas para impedir novos banhos no local e reforçar os alertas sobre os riscos à saúde. A decisão foi divulgada pela Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) após dias de grande circulação de imagens nas redes sociais durante o verão amazônico.
Segundo a Sesma, a Vigilância em Saúde emitirá um alerta para toda a rede municipal sobre doenças relacionadas à exposição à água potencialmente contaminada. Além disso, a pasta informou ter solicitado apoio da Secretaria Municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade (Segbel), por meio da Guarda Municipal, para intensificar a fiscalização na área e evitar que moradores continuem utilizando o canal como balneário. Equipes de Educação em Saúde e da Coordenação de Endemias também foram deslocadas para orientar a população sobre os riscos da prática.
Especialistas alertam para doenças graves
Embora as imagens tenham viralizado pelo aspecto inusitado, profissionais de saúde afirmam que canais urbanos não são ambientes seguros para banho.
A médica infectologista Andrea Beltrão explica que águas de canais urbanos podem receber esgoto doméstico, resíduos industriais, lixo, fezes de animais e diversos microrganismos capazes de provocar infecções.
Entre as doenças associadas à exposição estão:
- leptospirose;
- hepatite A;
- gastroenterites;
- diarreias infecciosas;
- dermatites;
- micoses;
- conjuntivites;
- otites;
- verminoses.
Segundo a especialista, o risco aumenta quando há ingestão da água contaminada ou contato com cortes e feridas abertas. Ela recomenda procurar atendimento médico caso surjam sintomas como febre, dores musculares, vômitos, diarreia ou lesões de pele nas semanas seguintes ao banho.
A orientação também é compartilhada pela Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), que reforça que o contato com águas contaminadas pode favorecer doenças infecciosas e deve ser evitado.
Moradores contestam os alertas
Apesar das recomendações oficiais, moradores da região afirmam que o banho no Tucunduba não começou agora.
Os autônomos Marcos Antônio e Everton Lima, ambos de 44 anos, disseram que frequentam o local desde a década de 1990 e defendem que a água só é utilizada durante a maré cheia, quando o fluxo vindo do Rio Guamá renova a água do canal.
Segundo eles, nunca presenciaram casos de doenças relacionados à prática e afirmam que o acúmulo de lixo observado atualmente aumentou após o início das obras de requalificação das margens do canal.
Marcos afirma que os moradores conhecem o comportamento das marés e evitam entrar na água quando ela começa a baixar, período considerado inadequado para o banho.
Obras continuam até 2027
Em meio à repercussão, a Secretaria de Estado de Obras Públicas (Seop) esclareceu que as obras de urbanização do Canal do Tucunduba seguem normalmente.
O projeto foi oficialmente lançado em 1º de abril de 2026, com participação do ministro das Cidades, Jader Filho, do governador Helder Barbalho e do prefeito Igor Normando. O investimento integra um amplo programa de macrodrenagem, saneamento e habitação voltado para a Bacia do Tucunduba, beneficiando mais de 300 mil moradores da Região Metropolitana de Belém.
Atualmente estão sendo executados serviços como:
- dragagem do canal;
- limpeza da área;
- troca de solo;
- terraplenagem;
- implantação de redes de água e esgoto;
- construção de conjuntos habitacionais.
A previsão oficial é que o empreendimento seja concluído em dezembro de 2027.
Problema antigo
A situação do Tucunduba ocorre em uma bacia hidrográfica historicamente marcada por problemas de drenagem, ocupação irregular e lançamento de esgoto.
Nos últimos anos, moradores e organizações comunitárias passaram a promover ações voluntárias de limpeza e recuperação ambiental das margens do rio, enquanto o Governo do Pará e instituições como o Instituto Evandro Chagas (IEC) iniciaram projetos de monitoramento da qualidade da água em rios e igarapés da Região Metropolitana de Belém.
Especialistas avaliam que o episódio da “praia do Tucunduba” evidencia um desafio maior: além da necessidade de fiscalização para evitar riscos imediatos à saúde, a cena expõe a carência histórica de áreas públicas de lazer, balneários urbanos seguros e investimentos contínuos em saneamento básico na capital paraense. Enquanto as obras avançam, autoridades insistem que o canal permanece impróprio para banho, mesmo durante a maré cheia, e orientam que a população utilize apenas locais oficialmente monitorados quanto à balneabilidade.
Fonte: oliberal.com















