Reag Trust DTVM, agora CBSF, foi identificada como “veículo facilitador de ilícitos” em investigações de fraudes expondo R$ 11,5 bilhões em empréstimos fraudulentos
Brasília – O Banco Central do Brasil (BC) decretou, nesta quinta-feira (15), a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A., anteriormente conhecida como Reag Trust Distribuidora de Títulos Valores Mobiliários S.A. (Reag). A decisão, assinada pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, surge na sequência de diversas apurações que indicam o envolvimento da instituição financeira em atividades ilícitas, incluindo fraudes no Banco Master e possíveis conexões com o crime organizado.
Além da CBSF/Reag, o Banco Central também oficializou a liquidação da Advanced Corretora de Câmbio na mesma data. A medida do BC fundamenta-se em um conjunto de “graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional”, conforme comunicado pela autoridade monetária.
A liquidação da ex-Reag Trust, ocorre um dia após a segunda fase da Operação Compliance Zero, na qual um dos alvos das investigações recai sobre seu fundador e principal executivo da corretora, João Carlos Mansur.
A instituição vinha sendo alvo de investigações, tendo seu nome associado à operação Carbono Oculto, que apura a ligação de fundos administrados pela antiga Reag Trust com organizações criminosas. Este cenário, considerado delicado, justificou a intervenção do regulador para resguardar os interesses do mercado financeiro e de capitais.
No relatório técnico que embasou a liquidação, apurou-se que o Banco Central identificou uma série de “operações atípicas e sem fundamentação econômica” conduzidas pelo Banco Master entre os anos de 2023 e 2024.
Essas operações, realizadas por meio de fundos administrados pela Reag, configuram violações às normas legais e estatutárias. A situação foi agravada pela “sobrevalorização de cotas desses fundos, a partir de precificação não comprovada de carteiras de ativos ilíquidos”.
Além disso, as autoridades apontam uma “atuação imprópria das áreas de compliance e auditoria interna”, que teriam permitido uma “atuação disfuncional do administrador dos fundos envolvidos”. O histórico de supostas irregularidades da Reag também foi um fator considerado na decisão.
Diante do quadro de ilícitos, o Banco Central sublinha que a CBSF (ex-Reag) pode ter funcionado como um “veículo facilitador de ilícitos”, cujas ações “afetam negativamente os interesses dos mercados financeiros e de capitais”. Como consequência da liquidação, Antonio Pereira de Souza, da APS Serviços Especializados de Apoio Administrativo Ltda., foi nomeado como liquidante responsável pelo processo.
O comunicado do Banco Central também esclarece que os “resultados das apurações poderá levar à aplicação de medidas sancionadoras de caráter administrativo e a comunicações às autoridades competentes, observadas as disposições legais aplicáveis”. Em conformidade com a legislação vigente, os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição tornam-se indisponíveis.
A gravidade das descobertas se estende a uma comunicação formal do Banco Central ao Ministério Público Federal (MPF) sobre operações fraudulentas no âmbito de empréstimos concedidos pelo Banco Master.
O jornal Valor, revelou detalhes dessas transações. Especificamente, sete das trinta e seis empresas que contraíram um total de R$ 11,5 bilhões em empréstimos supostamente fraudulentos, com o objetivo de desviar recursos do Banco Master, possuem em sua estrutura de controle fundos que eram administrados pela Reag. Este elo reforça a complexidade e a abrangência das irregularidades investigadas.
Apesar da seriedade das acusações e das implicações legais, o Banco Central informou que a instituição em questão representa uma parcela mínima do sistema financeiro nacional, menos de 0,001% do ativo total ajustado.
Tal dado, contudo, não minimiza a importância da medida, que visa coibir práticas nocivas e reafirmar a integridade e a segurança do mercado. A liquidação da CBSF DTVM reitera a postura vigilante do BC na fiscalização e na manutenção da solidez do ambiente financeiro brasileiro, sinalizando que a tolerância a violações e ilícitos é nula, independentemente do porte da instituição envolvida.
As autoridades competentes seguirão as investigações, e os desdobramentos prometem trazer mais clareza sobre a extensão dos envolvimentos e as responsabilidades dos implicados.
No campo político, deputados de vários campos ideológicos convergem numa opinião: a urgência da criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no âmbito do Congresso Nacional para elucidar a teia que envolve as relações entres os atores do escândalo bilionário do Banco Master.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















