Pizza no forno: Grupo de Gilmar, Zanin e Dino prepara sete preliminares para evitar análise das mensagens com Vorcaro
Brasília – O Supremo Tribunal Federal (STF) realiza nesta terça-feira (15), em sessão extraordinária convocada para as 10h, um julgamento inédito na história da Corte, que poderá autorizar a abertura de uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes.
Uma crise sem precedentes em 135 anos de história da instância máxima do judiciário brasileiro foi criada a partir das 52 mensagens trocadas com o banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. Diante do risco de se tornar o primeiro magistrado do tribunal a ser alvo de uma apuração dessa natureza, um grupo de aliados do ministro, formado por Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Flávio Dino, preparou uma bateria de questões preliminares, ao menos sete segundo apuração dessa reportagem, com o objetivo declarado de impedir que o plenário chegue à análise do mérito do caso.
“Em vez de entregar justiça, que sirva-se uma pizza à população”, publicaram nas redes sociais aliados do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), colando a crise ao adversário Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que pleiteia o quarto mandato presidencial a três semanas do pleito.
A “prévia” desse roteiro já veio à tona nos últimos dias, com a guerra de ofícios que partiu da exigência do levantamento do sigilo do caso Master, inclusive de frentes de investigação sem relação direta com Moraes, além do acesso ao material extraído do celular do ex-banqueiro.
O episódio que está no centro da crise é uma mensagem enviada por Vorcaro ao ministro em 15 de novembro de 2025, na qual o então banqueiro pergunta: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Dois dias depois, numa segunda-feira, Vorcaro foi preso no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, quando tentava embarcar para Dubai. A pergunta, revelada no relatório da Polícia Federal, alimenta a suspeita de que o empresário teria sido alertado sobre a iminência da operação.
A estratégia do grupo de Moraes, segundo a apuração, começa pelo formato da deliberação. A prioridade da lista de preliminares é decidir se a sessão será aberta, como pretende o presidente do STF, Edson Fachin, ou fechada, como quer a ala do ministro. Mais do que uma questão formal, a escolha pode selar o resultado, já que, na avaliação dos aliados, uma sessão secreta ajudaria a atrair o voto dos magistrados mais suscetíveis à pressão, como Cármen Lúcia. A eles interessa também definir o quórum de votos exigido para determinar a abertura da investigação, se dois terços ou maioria simples do plenário.
O grupo ainda pretende tentar afastar do julgamento os ministros que já se espera que votem pela abertura do inquérito. Por isso, estão na lista das preliminares pedidos de suspeição de André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, que, de acordo com o que se diz nos bastidores, seriam mencionados em conversas extraídas do celular de Vorcaro. Daí porque Zanin e Gilmar têm dado seguidos despachos exigindo a íntegra das mensagens, tanto para embasar os pedidos de suspeição quanto para constranger os colegas.
Como Nunes Marques e Fux são considerados aliados de Mendonça, o afastamento deles poderia desequilibrar a balança a favor de Moraes. “Ninguém sabe quem vai poder votar na terça-feira”, resume uma fonte que acompanha de perto as discussões, que avalia que o resultado dependerá da “pressão da opinião pública até lá”.
Outra questão que deve ser levantada é a suposta ilicitude das provas colhidas, além do parecer do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que defendeu o arquivamento do relatório policial sobre as mensagens. O próprio Gonet é mencionado no relatório e tem sido cobrado por seus pares no Ministério Público Federal (MPF) para não atuar no caso.
O grupo de Moraes ainda pretende exigir que o caso do ministro seja julgado em conjunto com o pedido do próprio Moraes para que Mendonça também seja investigado, como forma de equiparar as condutas dos dois. A análise conjunta já foi negada por Fachin antes mesmo do julgamento, mas deve reaparecer na sessão extraordinária.
O desenrolar do processo ganhou contornos mais complexos no fim de semana que antecedeu a sessão. Fachin assumiu a relatoria da Petição 16.662, procedimento no qual Mendonça tornou públicas as conversas entre Moraes e Vorcaro e sugeriu a possível abertura de investigação, e limitou o julgamento de terça-feira à relação entre os dois.
Não houve trégua no final de semana, pelo contrário. Entre sábado (12) e domingo (13), a Corte registrou ao menos dez movimentações, com despachos de Fachin, Mendonça, Zanin, Moraes, Gilmar e Dino tratando do acesso à íntegra dos dados do celular de Vorcaro, um iPhone 17. Moraes chegou a solicitar, no domingo, o levantamento do sigilo da Petição 15.645, ligada ao caso Master, pedido encaminhado por ofício a Fachin, que determinou que a Procuradoria-Geral da República se manifestasse “com brevidade”. Mendonça, por sua vez, resistiu, argumentando que a abertura de todas as informações do aparelho serviria apenas para “tumultuar o julgamento” e poderia causar prejuízo a investigações em andamento, além de pedir que Fachin ouvisse quatro delegados sobre suposto constrangimento na apuração do Master.
A disputa pelos dados do celular é vista por uma ala do tribunal como um possível caminho para adiar a sessão, já que a retirada do sigilo poderia reabrir a instrução. Nos bastidores, o placar aparece dividido, com relatos de um cenário de 3 a 3 entre os ministros que defendem posições distintas, o que colocaria Fachin e Cármen Lúcia diante de uma decisão que pode definir o desfecho.
Há ainda um componente estratégico de longo alcance. Ao apostar nas preliminares, Moraes tem recorrido à mesma estratégia jurídica adotada pelos réus da trama golpista que ele mesmo condenou em julgamentos da Primeira Turma do STF, colegiado do qual faz parte ao lado de Flávio Dino, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia.
O ministro acusa Mendonça de direcionar apurações, critica a suposta “condução irregular das tratativas” de delações e vem tentando emplacar a tese da suspeição do relator do caso Master. Também pediu acesso integral às provas obtidas pela Polícia Federal, questiona o respeito à cadeia de custódia e chegou a sugerir que tais questões poderiam levar à nulidade completa das investigações.
É o mesmo caminho percorrido pelas defesas de Jair Bolsonaro, de generais de alta patente e de outros oficiais das Forças Armadas condenados com o voto de Moraes no caso da trama golpista, que resultou na condenação do ex-presidente a 27 anos e três meses de prisão, em setembro do ano passado. No caso relatado por Moraes, todas essas questões foram rechaçadas por ele, com o endosso da Primeira Turma. Agora, o jogo se inverteu e é Moraes quem quer escapar de uma investigação.
As implicações do julgamento ultrapassam a situação individual do ministro. Uma ala do STF pode aproveitar a sessão para plantar a semente da nulidade das investigações que estavam com Mendonça até serem remetidas à presidência do tribunal por ordem de Fachin, no último sábado (12).
A depender do resultado, esses argumentos podem ser usados pelos alvos do caso Master para escapar das apurações, o que beneficiaria não apenas Moraes, mas também políticos de diferentes matizes arrastados para o epicentro do escândalo.
A crise, a maior da história do STF, explode às vésperas das eleições de outubro e coloca a Corte sob forte escrutínio público, em um cenário em que a decisão sobre quem poderá votar, e em que formato, pode definir não só o destino de Moraes, mas a credibilidade do tribunal diante da opinião pública.
A sessão desta terça-feira, portanto, não julga apenas as mensagens entre um ministro e um banqueiro preso por vários crimes, mas testa os limites institucionais do STF em um momento de máxima exposição, em que o desfecho dependerá tanto do mérito quanto da engenharia processual montada nos bastidores.
Val-André Mutran é repórter especial do Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.















