A queda do “dono da agenda”
Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe do Gabinete da Presidência da República, pediu para deixar a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A informação foi confirmada nesta quarta-feira (5) e marca o desfecho de uma crise que, em menos de uma semana, destronou um dos cinco homens mais poderosos da República.
Deslocamento
Desde janeiro de 2023, Marcola comandava o Gabinete onde Lula despacha — era, na prática, o “dono da agenda” do chefe do Executivo, controlando o acesso ao presidente e fazendo a interlocução com ministros e parlamentares. Em 22 de julho, o superassessor foi “deslocado” do governo para integrar a campanha à reeleição, repetindo a parceria de 2022 com Gilberto Carvalho, antecessor e mentor.
O afastamento do Planalto, porém, não o blindou.
O estopim…
O estopim foi a descoberta, pela Polícia Federal, de repasses financeiros feitos pela empresária Roberta Luchsinger — amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, e alvo de investigação sob suspeita de participação no escândalo de fraudes do INSS — ao ex-chefe de gabinete. Marcola admitiu ter recebido um empréstimo de R$ 249 mil de Roberta, negando, no entanto, qualquer irregularidade.
…A bomba. Seguida da decepção de Lula
Membros do Núcleo Duro do Palácio do Planalto ouviram Marcola. Ele relatou que foi apresentado a Roberta por Lulinha, e que a lobista, que se passava por herdeira do Banco Credit Suisse, se aproximou rapidamente: almoços, trocas de amabilidades até o empréstimo de um quarto de milhão de reais (250 mil pilas). Não havia desinteresse da lobista — nunca há —, havia um objetivo não revelado, o livre acesso a alvos de seu interesse: portas abertas no Governo. Ao saber dos detalhes, Lula teria ficado decepcionado — gostava e confiava no assessor que lhe acompanhava havia 7 anos.
Quitação
Ao se dar conta da complexidade da situação em que se metera, Marcola procurou a lobista e pagou a dívida no ato. Recebeu como resposta: “Imagina! Pode pagar depois, como você quiser e puder”. Ele recusou e quitou a pendência. O gesto, porém, não apagou o rastro que já havia chegado à Polícia Federal.
Decisão
Nas últimas 24 horas, Marcola comunicou sua decisão de deixar a campanha ao presidente do PT, Edinho Silva, ressaltando que a saída é uma decisão política, e não jurídica — para blindar Lula e evitar “fogo amigo” e disputas internas na campanha. A cúpula se reuniu no Palácio da Alvorada na terça-feira (4) para discutir o impacto do episódio, que rachou o time entre os que defendiam a permanência e os que pediam o afastamento.
Reação
Lula pediu a Marcola que explicasse o empréstimo o mais rápido possível para evitar impacto eleitoral, dizendo confiar no ex-assessor. Vozes próximas aos fatos relataram que o presidente declarou a interlocutores que não pretende que a eleição deste ano seja sobre terceiros. Petistas como Washington Quaquá minimizaram o episódio, classificando-o como “problema, mas não devastador”.
Oposição
O PL, de oposição, quer investigação sobre o caso. A campanha e aliados de Flávio Bolsonaro elevaram o tom e ligam Lula às fraudes no INSS, buscando aproximar o escândalo da figura do presidente. Pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (5) mostra Lula ainda à frente, mas aliados monitoram o desgaste e minimizam a menor vantagem sobre o adversário.
Pau que dá em Chico, dá em Francisco
O episódio expõe a fragilidade do entorno presidencial e o risco de o escândalo do INSS — que já alcançou Lulinha, alvo de três inquéritos — contaminar a campanha. E lá se vai, aos calabouços do ostracismo, mais um homem de confiança de Lula, destronado em menos de uma semana, passando a condição de leproso. A blindagem do presidente, agora, dependerá da velocidade com que a crise for contida.
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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