Conversa citada pelo site Intercept envolve repasses destinados a filme sobre Jair Bolsonaro um dia antes da prisão do banqueiro; Flávio garante que o áudio é falso
Brasília – O senador Flávio Bolsonaro (PL‑RJ), pré‑candidato à Presidência da República, aparece em um áudio divulgado pelo Intercept Brasil cobrando R$ 134 milhões do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em novembro do ano passado — véspera da prisão do banqueiro pela Polícia Federal. Segundo a reportagem, o valor seria destinado ao financiamento de um filme sobre a vida do ex‑presidente Jair Bolsonaro, cujas transferências, parcialmente efetivadas, foram intermediadas pelo publicitário Thiago Miranda. Flávio nega a veracidade da gravação.
A suposta gravação, tornada pública nesta quarta-feira (13), revela uma conversa atribuída a Flávio Bolsonaro na qual o senador se dirige a Vorcaro chamando-o de “irmão” e afirmando: “estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.
De acordo com a reportagem do Intercept, a cobrança estava relacionada à liberação de um total de R$ 134 milhões para a produção de um longa‑metragem sobre Jair Bolsonaro.
A conversa teria ocorrido em novembro do ano anterior, um dia antes da primeira prisão de Vorcaro pela Polícia Federal, no âmbito de um esquema que, segundo a investigação, envolve pagamento de propina, lavagem de dinheiro e lobby político, econômico e midiático.
A reportagem menciona ainda que pelo menos parte dos recursos foi transferida por meio da empresa Entre Investimentos e Participações para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e ligado a aliados do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, que coordena a produção do filme nos Estados Unidos.
Confrontado pela imprensa nesta tarde em sua visita ao ministro Edson Fachin, no Supremo Tribunal Federal, Flávio negou a autenticidade da gravação e rebateu: “De onde você tirou essa informação? É mentira.”
Fato ainda não investigado pela PF
Apesar da repercussão, o conteúdo do áudio ainda não integra formalmente o inquérito da Polícia Federal. Fontes afirmam que o material deve ser incluído em diligências da Operação Compliance Zero, a mesma que resultou na prisão de Vorcaro. Segundo a denúncia R$ 61 milhões teriam sido pagos entre fevereiro e maio do ano anterior, em seis operações.
O papel do publicitário Thiago Miranda
O publicitário Thiago Miranda, dono da agência envolvida em ações de “marketing de guerrilha” a favor do Banco Master, confirmou ao O Globo que também atuou como responsável por intermediar a entrada de Vorcaro no financiamento do filme. Ele relata que foi apresentado ao projeto pelo deputado federal Mario Frias (PL‑SP), que buscava investidores diante da dificuldade de captação.
Segundo Miranda, Vorcaro aceitou investir — não patrocinar —, já que a transação pressupunha retorno financeiro com o lançamento do longa “Dark Horse”, previsto para estrear em 11 de setembro de 2025, a menos de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais.
O publicitário afirma que Flávio Bolsonaro não participava diretamente das negociações, embora tenha se encontrado com o senador “em algum lugar” para atualização sobre o andamento do projeto. “O Flávio nunca ficou na frente do filme”, declarou.
Miranda relata ainda ter visitado uma das gravações em Los Angeles, descrevendo a produção como “astronômica” e conduzida por equipes internacionais. Vorcaro teria aportado R$ 62 milhões, mas deixou de cumprir o restante do compromisso após ser preso. Posteriormente, Mario Frias teria obtido novos investidores, cujas identidades não foram informadas pelo publicitário.
Reação do PT nas redes sociais
Logo após a publicação do áudio pelo Intercept, o PT passou a atacar o senador nas redes sociais: “Urgente! Vaza áudio de Flávio Bolsonaro cobrando pagamentos milionários de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar filme sobre a história de Jair Bolsonaro. Compartilhe ao máximo.”
O texto indica que a divulgação serviu como orientação interna para a linha adotada pela comunicação do partido: utilizar apenas fatos, declarações públicas e informações verificadas na imprensa, embora lideranças defendam elevar o tom contra Flávio diante das tentativas de seus aliados de associar o escândalo do Banco Master ao PT.
Um dirigente petista afirmou: “É mais um fio desencapado. E vai aparecer mais. O Flávio Bolsonaro é um ótimo candidato para a gente.”
O caso se projeta como tema de crescente relevância pública, diante da associação entre financiamento privado, produção cultural de caráter político e tensão entre grupos partidários às vésperas da disputa presidencial.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















