▪️Investigação da corregedoria revela relacionamento com líder criminoso e indícios de lavagem de dinheiro, abalando a Polícia Civil
▪️Delegada admite atuação para o crime organizado após posse oficial
▪️O ex-marido, delegado no Pará, teria ajudado, por vingança, a desvendar suas ligações criminosas
Brasília – A delegada da Polícia Civil Layla Lima Ayub, de 36 anos, conhecida informalmente como a “delegada do PCC”, foi detida na manhã da sexta-feira (16) na zona Oeste de São Paulo. Sua história é um roteiro policial. A prisão ocorreu em um sobrado onde Layla estava acompanhada de Jardel Neto Pereira da Cruz, vulgo “Dedel”, apontado como líder do Primeiro Comando da Capital (PCC) no Pará e seu namorado. A prisão ocorre dez dias após a então advogada tomar posse no cargo em cerimônia no Palácio dos Bandeirantes na presença do governador Tarcísio de Freitas (PL).
A investigação da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, aponta para ligações e um relacionamento amoroso da delegada com o crime organizado, além de suspeitas de lavagem de dinheiro e exercício irregular da profissão, gerando um cenário de profunda preocupação sobre a integridade das forças de segurança do estado.
A detenção de Layla Ayub sucede uma série de eventos que chamaram a atenção das autoridades. De acordo com informações obtidas no inquérito da Corregedoria da Polícia Civil, dez dias após sua posse festiva no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, na presença do governador Tarcísio de Freitas, ocorrida na sexta-feira, Layla Ayub participou de uma audiência de custódia em Marabá, no Pará.
Na ocasião, ela atuou como advogada de um membro do Comando Vermelho, facção rival ao PCC. Durante seu interrogatório, que durou cinco horas, a delegada admitiu ter cometido “uma bobeira” ao participar do ato, alegando que já havia solicitado o cancelamento de sua matrícula na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mas que a formalização do desvínculo não havia sido concluída.
“Dei bobeira”, disse a delegada do PCC durante interrogatório na Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo.
A ascensão de Layla Ayub ao cargo de delegada é assustadora. Revela um histórico profissional que passou pela Polícia Militar capixaba, onde alcançou a patente de cabo. Após se casar com um policial militar que se tornou delegado no Pará, ela pediu desligamento da PM, formou-se em Direito e abriu um escritório.
Foi nesse contexto que conheceu Jardel “Dedel”, por quem declarou ter se “encantado”. Como advogada, Ayub defendeu “Dedel”, preso por tráfico e acusado de liderança do PCC em Marabá, conseguindo sua liberdade provisória.
Posteriormente, separou-se de seu então marido, o delegado no Pará, e passou a viver com o líder faccionado. A presença de “Dedel” ao lado da delegada em sua posse no Palácio dos Bandeirantes é um dos pontos mais sensíveis da apuração.
“Ela foi presa na manhã desta sexta, 16, em um sobrado da zona Oeste da cidade, com o namorado, Jardel Neto Pereira da Cruz, o ‘Dedel’, líder do PCC no Pará que a acompanhou na posse festiva na sede do governo paulista.”
Nas fotos:
– Layla Ayub, recém-empossada no Palácio dos Bandeirantes, foi presa na manhã desta sexta-feira, 16, em São Paulo. Foto: Reprodução/Instagram
– Ex-policial militar no Espírito Santo, Layla Ayub teria um relacionamento amoroso com um integrante do PCC no Pará. Foto: Reprodução/Instagram
– Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como “Dedel”, foi preso em flagrante em 2021. Foto: Arquivo
– A padaria comprada pelo casal para lavagem de dinheiro e ocultação de valores provenientes do tráfico de drogas. Foto: Reprodução
As “ligações perigosas” de Layla Ayub com o crime foram inicialmente reportadas de forma anônima ao Gaeco e à Corregedoria. Contudo, a própria delegada suspeita que seu ex-marido, delegado de Polícia no Pará, tenha sido o responsável por “impulsionar” as denúncias, transmitindo dados importantes sobre seus movimentos na defesa de membros de facções. Durante o interrogatório, a delegada expressou “irritação” com o ex-marido.
Outro ponto central da investigação reside na aquisição de uma padaria, a “Bom Jesus”, localizada em Itaquera, zona Leste de São Paulo. Layla detalhou que o estabelecimento foi ajustado por R$ 100 mil, com um sinal de R$ 40 mil.
A Corregedoria suspeita que a padaria seria utilizada para lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas. Embora Ayub não admita diretamente a lavagem, ela revelou ter conhecimento de que um integrante do PCC seria o “laranja” escalado para administrar o local.
A Corregedoria indiciou Layla Lima Ayub por exercício irregular da profissão, integração a organização criminosa, falsidade ideológica e associação para o tráfico. Agentes envolvidos na apuração manifestaram surpresa com a “frieza, inteligência e preparo” da delegada, indicando sua capacidade de “suportar qualquer pressão, por maior que seja”. A delegada não se declarou inocente, mas ressaltou: “Não errei sozinha”.
Layla Lima Ayub foi transferida para a carceragem do 6º Distrito Policial, no Cambuci, região central de São Paulo. A Justiça decretou sua prisão temporária por 30 dias, prazo que pode ser prorrogado por mais 30. Neste sábado (17), ela passará por uma audiência de custódia. O caso segue sob intensa observação, pois expõe vulnerabilidades na estrutura de segurança pública e levanta sérias questões sobre a infiltração do crime organizado em esferas estatais.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.



















