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Home Cultura

As Filhas da Chiquita não inventaram a mistura de gozo erótico com fé religiosa

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
09/07/2025
in Cultura
As Filhas da Chiquita não inventaram a mistura de gozo erótico com fé religiosa

A escultura de Bernini O Êxtase de Santa Teresa

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A festa promovida pelas “Filhas da Chiquita” em frente do Teatro da Paz, após a transladação da imagem de Nossa Senhora de Nazaré para a Catedral, despertou indignação, por vários anos, em muitos católicos conservadores do Pará.

Embora a manifestação delas esteja oficialmente integrada às comemorações do Círio desde 2004, quando foi tombada pelo IPHAN, junto com as manifestações religiosas tradicionalmente ligadas àquele período. 

O motivo da irritação foi sempre a ostensiva exibição de sensualidade por parte das Filhas da Chiquita, num período do calendário católico local, supostamente, mais propício a sacrifícios e mortificações.

Como aqueles a que se submetem os romeiros que carregam a corda semelhante a que foi usada antigamente para puxar a carruagem com a imagem da santa ficava instalada.

No entanto, a associação de sacrifício com prazer erótico trazida pelos festejos do Círio é muito mais antiga do que imaginam os católicos contrariados com as Filhas da Chiquita.

Quatro anos antes desta associação surgir no Círio, o antropólogo Isidoro Alves iniciou seus estudos que levaram à publicação de seu livro considerado, ainda hoje, como a melhor obra sobre este gigantesco evento religioso.

E até no título daquela obra, preparada a partir de 1974, Isidoro já registrava a presença de prazeres pagãos na manifestação religiosa: “O carnaval devoto”.

Portanto, não foram as Filhas da Chiquita que introduziram esta mescla na religiosidade católica.

Na verdade, não foi nem mesmo a procissão do Círio de Nazaré que introduziu na religião dos católicos tal mistura.

Embora o Círio exista há mais de dois séculos.

Já nos anos de 1.500, havia surgido, na longa História da Igreja Católica, dois impressionantes registros de prazer físico de católico obtido por meio de padecimento corporal.

Um destes registros encontra-se em nada menos que os textos de uma santa – Santa Teresa de Ávila -, cuja vida foi marcada por duros percalços.

Sua mãe morreu quando ela tinha oito anos de idade.

E, aos 24 anos, ela enfrentou uma doença misteriosa que, tratada de modo desastrado por uma curandeira, a levou a um coma profundo.

No entanto, esta mesma jovem experimentou nos seus momentos de êxtase religioso os prazeres descritos por ela de modo tão intensamente sensual que seus textos passaram a interessar aos estudiosos da História da Literatura Erótica.

No Brasil, inclusive.

O livro “Clássicos do Erotismo”, por exemplo publicado pela Editora Samambaia, traz a reprodução de uma das descrições de Teresa de seus prazeres claramente sexuais, no capítulo XXIX da sua obra autobiográfica,  o “Livro da Vida”.

Seu texto foi incluído na obra sobre erotismo por decisão de seu editor.

O escritor surrealista português Mário Henrique Leiria, quando ele trabalhou na Samambaia, durante seu período de exílio político no Brasil.

O texto dela trata da visão de um anjo experimentada por Teresa.

E é o seguinte:

“O anjo tinha na mão um dardo de ouro, de ponta grande, parecendo-me manter na extremidade um pouco de fogo. Tive a impressão de que o cravara diversas vezes em meu coração. E, que, sempre que o tirava, com ele saíam as minhas entranhas. Deixando-me num tão intenso amor a Deus que a violência deste fogo me fazia gritar. E os meus gritos eram misturados de tão extremo gozo que não podia desejar-me livre de tão agradável dor”.

O outro registro a que nos referimos de presença de satisfação física num momento de êxtase religioso, dentro da História da Igreja apareceu numa escultura feita por Gian Lorenzo Bernini.

Artista nascido dezesseis anos após a morte de Santa Teresa, Bernini foi protegido pelo papa Urbano VIII.

E se mostrou muito produtivo.

No interior da Basílica de São Pedro, em Roma, ele montou uma enorme peça ornamental, “O baldaquino”.

Muitas outras obras de caráter religioso ele esculpiu ao longo de sua vida.

Entre as quais as esculturas de Davi, de São Lourenço, de São Sebastião, de Santa Bibiana e de São Girolamo.

Mas, as obras nas quais Bernini demonstraria de modo definitivo sua genialidade na captação e na expressão profundas da religiosidade católica foram duas.

E, em ambas, ele imprimiu no mármore os prazeres físicos do êxtase religioso.

A primeira delas foi a escultura da beata Lodovica Albertino, cuja imagem pode ser facilmente apreciada na internet.

Porém, não por acaso, sua escultura mais bela foi exatamente a da visão do anjo por Santa Teresa.

É tão impressionantemente sexualizada aquela escultura que ela entrou no campo de interesse de grandes estudiosos da sexualidade humana.´

Um deles, ninguém menos que o francês Jacques Lacan, um dos principais intérpretes da obra de Sigmund Freud, e, o criador de uma escola psicanalítica.

No seu livro “El Seminário, Libro 20 Aun”, publicado em Barcelona em 1972, Lacan faz o seguinte comentário sobre a escultura de Santa Teresa:

“Basta olhar para ela para saber que ela goza. E do que goza? É claro que o testemunho essencial dos místicos é justamente o de dizer que eles experimentam o gozo, mas não sabem nada dele”.  

 Outro pesquisador, tão ilustre quanto Lacan, igualmente se deixou impressionar pela escultura.

Georges Albert Maurice Victor Bataille tratou de erotismo, de o sagrado e de a transgressão nos seus livros escritos para os campos da literatura, da filosofia, da antropologia, da economia, da crítica literária, da sociologia e da história da arte.

No livro “O erotismo”, publicado pela editora Arx, de São Paulo, em 2004, Bataille diz que detecta a presença de sexualidade até na roupagem religiosa da santa esculpida por Bernini.

Este prazer físico dela, ele acrescenta, se expande pelas dobras das roupas “em ondulações gozosas irreprimíveis”.

*Oswaldo Coimbra é escritor e jornalista

Translation (tradução)

The Daughters of Chiquita did not invente the blend of erotic pleasure with religious faith

The celebration held by the “Daughters of Chiquita” in front of the Teatro da Paz, after the transfer of the image of Our Lady of Nazareth to the Cathedral, sparked outrage for many years among conservative Catholics in Pará.

Although their demonstration has been officially part of the Círio festivities since 2004—when it was recognized as cultural heritage by IPHAN, along with the traditional religious expressions associated with the period—their ostentatious display of sensuality during a time supposedly dedicated to sacrifice and mortification greatly disturbed some.

This period includes the pilgrimage of devotees who carry the rope, reminiscent of the one once used to pull the carriage with the image of the Virgin.

However, the association between sacrifice and erotic pleasure during the Círio festivities is much older than conservative Catholics upset with the Daughters of Chiquita might think.

Four years before this association appeared in the Círio, anthropologist Isidoro Alves began the studies that would lead to the publication of his book—still regarded today as the most authoritative work on this massive religious event.

Even in the title of his book, started in 1974, Isidoro registered the presence of pagan pleasures in the religious manifestation: “O Carnaval Devoto” (“The Devout Carnival”).

Thus, it was not the Daughters of Chiquita who introduced this blend into Catholic religiosity.

In fact, it wasn’t even the Círio de Nazaré procession—over two centuries old—that first brought this mix into Catholic religious expression.

Already in the 1500s, two striking examples of physical pleasure experienced through bodily suffering had appeared in the long history of the Catholic Church.

One of these accounts is found in none other than the writings of a saint—Saint Teresa of Ávila—whose life was marked by hardship.

Her mother died when she was eight years old.

At age 24, she suffered from a mysterious illness that, due to a botched treatment by a healer, left her in a deep coma.

Yet, this same young woman described her moments of religious ecstasy in terms so sensually intense that her writings have drawn the attention of scholars of erotic literature—even in Brazil.

The book “Classics of Eroticism”, published by Samambaia Press, includes one of Teresa’s accounts of clearly sexual pleasure, found in Chapter 29 of her autobiographical work The Book of Her Life.

That excerpt was included in the erotic literature anthology by the decision of its editor, the Portuguese surrealist writer Mário Henrique Leiria, who worked at Samambaia during his political exile in Brazil.

In this passage, Teresa describes a vision of an angel:

“The angel had a golden dart with a sharp tip, and it seemed to me that at the end there was a bit of fire. I felt that he pierced my heart several times, and each time he withdrew it, it felt like my innards came out with it. The pain was so intense it made me moan aloud. And yet the pain was so sweet that I never wanted to be rid of it.”

The other account of physical satisfaction during a religious ecstasy appears in a sculpture by Gian Lorenzo Bernini.

Born sixteen years after Saint Teresa’s death, Bernini was favored by Pope Urban VIII and proved to be a highly prolific artist.

Inside Saint Peter’s Basilica in Rome, he created the monumental Baldacchino.

He sculpted many other religious works throughout his life, including images of David, Saint Lawrence, Saint Sebastian, Saint Bibiana, and Saint Jerome.

However, the two works in which Bernini most powerfully expressed the depth of Catholic religiosity also revealed the physical pleasure of spiritual ecstasy.

The first was the sculpture of Blessed Ludovica Albertoni, whose image can be easily found online.

But it is no coincidence that his most celebrated sculpture was The Ecstasy of Saint Teresa, depicting her vision of the angel.

So intensely sexual is this sculpture that it has attracted the interest of major scholars of human sexuality.

One such figure is none other than Jacques Lacan, one of the foremost interpreters of Freud and founder of a major psychoanalytic school.

In his book Le Séminaire, Livre XX: Encore, published in Barcelona in 1972, Lacan made the following remark about Bernini’s sculpture:

“You only have to look at her to see that she is enjoying it. And what is she enjoying? The essential testimony of the mystics is precisely this: they experience jouissance but know nothing of it.”

Another renowned thinker equally struck by the sculpture was Georges Bataille.

A philosopher, anthropologist, economist, literary critic, and art historian, Bataille addressed themes of eroticism, the sacred, and transgression in his wide-ranging body of work.

In his book Eroticism, published by Arx in São Paulo in 2004, Bataille claimed to detect sexuality even in the saint’s religious clothing as sculpted by Bernini.

According to him, her physical pleasure extends through the folds of the fabric, forming “irrepressible, ecstatic undulations.”

*Oswaldo Coimbra is a writer and journalist

(Illustration: Bernini’s sculpture – The Ecstasy of Saint Teresa)

Tags: Destaquefé religiosaFilhas da Chiquitagozo eróticomisturanão inventaram
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Oswaldo Coimbra

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Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador. Email: oswaldocoimbra1@gmail.com

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