Há um fenômeno curioso — e revelador — acontecendo no jornalismo brasileiro. Parte da chamada “velha imprensa”, que nos últimos anos abandonou deliberadamente o papel de vigilante do poder para se transformar em militância política travestida de análise e reportagem, agora tenta reaparecer diante do público como guardiã do bom jornalismo. É um espetáculo tardio de conversão que merece, no mínimo, desconfiança.
Durante anos, muitos desses veículos — que um dia se orgulharam de defender a liberdade de expressão — aderiram a um verdadeiro consórcio político-midiático em defesa do governo de ocasião. Nessa cruzada, relativizaram princípios básicos da democracia. Aplaudiram censura. Naturalizaram perseguições. Fingiram não ver quando jornalistas dissidentes eram silenciados, investigados ou presos por suas opiniões.
No auge da adesão despudorada, uma jornalista da Globo News chegou a afirmar, num cinismo colossal, que era “crime criticar as autoridades”.
No altar dessa nova fé, ergueram também um personagem central: o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Elevado por editoriais e comentaristas ao status de “salvador da democracia”, Moraes passou a ser tratado por esses setores da imprensa não como autoridade sujeita a escrutínio — como manda a tradição republicana —, mas como uma figura praticamente intocável. Questioná-lo virou, para muitos desses jornalistas, uma espécie de heresia cívica.
Esse comportamento não foi apenas um erro editorial. Foi uma abdicação consciente da função do jornalismo.
Enquanto isso, escândalos se acumulavam nas sombras. Casos envolvendo suspeitas de fraudes contra aposentados e pensionistas ligados ao Instituto Nacional do Seguro Social começaram a vir à tona. Ao mesmo tempo, investigações passaram a revelar relações obscuras e movimentações suspeitas ligadas ao Banco Master e personagens de peso no mundo político e empresarial.
De repente, alguns dos mesmos veículos que antes se comportavam como assessorias de imprensa do poder descobriram novamente o valor do jornalismo investigativo.
Agora surgem manchetes indignadas. Reportagens graves. Comentários preocupados com ética pública. Colunas que falam em transparência e fiscalização do Estado. Isso é bom, mas diante do espelho nota-se a hipocrisia escancarada.
É difícil não notar a ironia.
Os monstros que hoje assustam parte da imprensa foram, em grande medida, alimentados por ela mesma. Ao abdicar da crítica independente e se alinhar ao poder político e institucional, esses setores da mídia ajudaram a criar um ambiente onde abusos florescem sem fiscalização adequada.
Quando o jornalismo deixa de ser contrapoder, o poder cresce sem freios.
Ainda assim, há um aspecto positivo nessa reviravolta: talvez parte da imprensa tenha finalmente percebido o preço que pagou por sua militância. A perda de credibilidade foi brutal. A confiança do público evaporou. Pesquisas e o próprio humor popular mostram que uma parcela crescente da sociedade já não distingue certos veículos de comunicação de partidos políticos.
Por isso, se alguns desses profissionais e empresas realmente desejam retomar o caminho do jornalismo — o verdadeiro, baseado em investigação, pluralismo e independência —, que assim seja. O país precisa de imprensa forte, crítica e livre.
Mas convém que a população não se iluda.
Memória é um ativo essencial da democracia. E o histórico recente dessa imprensa militante não pode simplesmente ser apagado como se fosse um erro menor de percurso. Não foi. Foi uma escolha política clara.
E há outro detalhe impossível de ignorar: a campanha eleitoral de 2026 já começou nos bastidores.
Quando determinados colunistas, comentaristas e editoriais voltam a apontar seus canhões seletivamente para certos alvos e poupam outros com zelo quase devocional, a pergunta inevitável reaparece: estão fazendo jornalismo ou preparando terreno político?
O público brasileiro aprendeu, nos últimos anos, a ler nas entrelinhas.
Por isso, diante da súbita redescoberta do “bom jornalismo” por parte de quem o abandonou tão facilmente, o melhor conselho é simples: observar com atenção, desconfiar com inteligência e nunca esquecer a quem esses militantes — muitas vezes disfarçados de jornalistas — serviram ontem.
Porque, em política e na imprensa, as conversões tardias costumam ter prazo de validade: o próximo ciclo eleitoral.















