Coleção de 20 calçados será exibida no Consulado-Geral do Brasil durante a Semana de Moda, em parceria com G10 Favelas e institutos sociais
Brasília – Uma coleção de calçados produzida por artesãos da Ilha do Marajó (PA), com estampas inspiradas nos grafismos marajoaras da cultura indígena pré-colonial, será apresentada no Consulado-Geral do Brasil em Milão no dia 23 de setembro, durante a Semana de Moda de Milão, que ocorre de 22 a 28 de setembro.
A iniciativa, que reúne o G10 Favelas, o Instituto Costurando Sonhos, o Instituto Tucunaré e a marca de calçados sustentáveis Dotz, também terá parte da coleção exibida no Hotel Rosewood, em São Paulo, no dia 14 de setembro, e integra uma missão internacional prevista para o período de 20 a 30 de setembro na Itália, segundo informações confirmadas pela RedePará.
O projeto nasce de uma articulação que aproxima duas realidades brasileiras historicamente distantes, os saberes tradicionais da Amazônia e o empreendedorismo das periferias urbanas, para disputar espaço em um dos palcos mais disputados da moda mundial.
Os 20 calçados da coleção carregam bordados e estampas que reproduzem os padrões geométricos da cerâmica marajoara, um patrimônio arqueológico produzido entre os séculos 400 e 1400 d.C. pelos povos que ocuparam a maior ilha fluviomarítima do planeta, na foz do rio Amazonas. A proposta central, segundo os organizadores, é mostrar que alta costura não depende do endereço de origem, mas do talento e da identidade de quem produz.
O protagonismo do projeto está na figura de Gilson Rodrigues, fundador do G10 Favelas, entidade que reúne empreendedores sociais das dez maiores favelas do país. Em declaração que sintetiza o espírito da iniciativa, Rodrigues afirmou que “quem foi que disse que o alto e o baixo é aqui ou lá”, e completou que “todos nós podemos ocupar espaços”, sustentando que “alta costura não depende do CEP”. Para ele, a relação entre o Marajó e a Itália é histórica, pois remete ao trabalho do padre Giovanni Gallo, sacerdote italiano que dedicou décadas à preservação da cultura local e à criação do Museu do Marajó.
A homenagem ao padre Giovanni Gallo é um dos eixos centrais da reportagem. O religioso, que atuou na Amazônia desde a década de 1970 até a morte, em 2023, dedicou-se a catalogar e estudar os artefatos arqueológicos de cerâmica levados a ele pelos moradores da região.
Após fundar inicialmente o Nosso Museu, em Santa Cruz do Arari, e se mudar por conta de conflitos locais, Gallo criou em 1972 o Museu do Marajó, em Cachoeira do Arari (PA), espaço que se tornou referência cultural e científica sobre o arquipélago.
Os registros reunidos pelo padre resultaram no livro “Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara”, publicado em 1996, obra que serviu de referência direta para a confecção das peças da coleção. Em 1981, Gallo recebeu o título de Cidadão do Pará e, em 2000, o de Cidadão do Turismo Paraense, conforme registrado pelo G1 Pará.
A produção dos calçados segue um processo em duas etapas, conforme detalhado no material divulgado pela Folha de S.Paulo. Primeiro, são desenhadas as estampas seguindo o grafismo marajoara, e depois é feito o bordado das peças, reproduzindo o desenho criado anteriormente no sapato.
Após a estamparia, os calçados seguem para fábricas no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Suéli Feio, fundadora do Instituto Costurando Sonhos, organização de Paraisópolis (SP) que capacita mulheres por meio da costura desde 2017, destacou a desvalorização histórica do ofício, ao afirmar que “há artesãos que trabalham apenas com bordado e outros que se dedicam à estamparia”, e que “eles mantêm essa cultura, mas, na maioria das vezes, ela é muito desvalorizada”.
O elo entre o saber ancestral e a nova geração é personificado por Miqueias Caldas da Silva, 35 anos, artesão e produtor cultural de Cachoeira do Arari, integrante do Instituto Tucunaré e um dos responsáveis pela confecção dos calçados. Embora o bordado fizesse parte do cotidiano dos marajoaras e estivesse presente em sua vida desde a infância, Silva relatou que só aprendeu a reproduzi-lo após participar de uma oficina no Senai.
Em 2023, ele fez outra capacitação, desta vez sobre a produção de carimbos de EVA, na Associação do Museu do Marajó, com o objetivo de reproduzir os grafismos em moldes aplicáveis a tecidos, madeira e outras superfícies. A metodologia, explicou o artesão, consistia em desenhar o grafismo, colá-lo no EVA e recortar o material para transformá-lo em carimbo, tendo como referência o livro do padre Giovanni Gallo.
O artesão levou cerca de três semanas para pintar os 20 calçados que serão apresentados em Milão. Depois de se capacitar, Silva passou a ministrar aulas no Instituto Tucunaré, transmitindo aos jovens de Cachoeira do Arari os conhecimentos adquiridos durante sua formação.
Em suas palavras, “a ideia era ensinar essas crianças para que, quando se tornassem adultas, já tivessem uma profissão e essa noção de conhecimento e pertencimento cultural”. Para ele, a educação também funciona como instrumento de proteção social, pois “a meta é educar e colocar eles nesse processo, para que se tornem pessoas de bem”, evitando que jovens em situação de vulnerabilidade se envolvam com atividades que possam prejudicar seu futuro.
A dimensão política e social do projeto transcende o universo da moda. Ao colocar o artesanato amazônico em diálogo com o empreendedorismo periférico e com o mercado internacional, a iniciativa sinaliza uma estratégia de desenvolvimento econômico baseada na valorização do patrimônio cultural e na geração de renda para comunidades historicamente marginalizadas.
O G10 Favelas, liderado por Gilson Rodrigues, articula a conexão com o empreendedorismo periférico e abre caminhos de internacionalização, enquanto o Instituto Tucunaré atua na preservação de saberes tradicionais e no desenvolvimento social da região amazônica, e o Instituto Costurando Sonhos, que já capacitou mais de 1.600 mulheres em situação de vulnerabilidade, segundo a Rede das Artes, amplia o alcance do projeto para as periferias urbanas. A missão internacional, que conta com apoio por meio de doações, busca aproximar artesãos, empreendedores e profissionais brasileiros de possíveis parceiros e mercados na Itália.
A chegada da coleção ao Consulado-Geral do Brasil em Milão, na Corso Europa, no coração financeiro da cidade italiana, ocorre em um momento em que marcas globais e estilistas renomados apresentam suas coleções de primavera e verão, o que amplia a visibilidade da iniciativa.
A escolha do consulado como palco reforça o caráter institucional do projeto, que une diplomacia cultural, economia criativa e impacto social. Ao mesmo tempo, a apresentação no Hotel Rosewood, em São Paulo, antecipa o debate sobre a valorização do artesanato nacional dentro do próprio país, antes da consagração internacional. A trajetória do padre Gallo, que transitava entre pescadores e políticos e dedicou 30 anos ao Marajó, permanece como fio condutor dessa narrativa de pertencimento e reconhecimento cultural.
Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














