Lançamento do “Desenrola para Adimplentes” no Planalto nesta segunda-feira (29), marca nova fase da política de crédito de Lula, que enfrenta ceticismo de bancos e incertezas sobre tramitação da MP 1.355 no Congresso Nacional
Brasília – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lança nesta segunda-feira (29) o “Desenrola Adimplentes”, nova modalidade da política de crédito do governo federal que pela primeira vez se volta aos consumidores que mantêm as contas em dia. O anúncio ocorre em cerimônia no Palácio do Planalto e terá a participação do ministro da Fazenda, Dario Durigan. A iniciativa representa um desdobramento inédito do programa “Desenrola Brasil”, que desde 2023 se dedicava exclusivamente à renegociação de dívidas de consumidores inadimplentes, e agora busca alcançar um contingente que até então estava fora do radar das políticas públicas de crédito.
A proposta oferece condições mais vantajosas de crédito para pessoas que, mesmo sem estarem inadimplentes, comprometem parcela significativa da renda com empréstimos contraídos em momentos de juros elevados.
A avaliação da equipe econômica é que esse público também enfrenta dificuldades financeiras e pode se beneficiar da troca de dívidas mais caras por operações com custos menores.
O principal critério para participar do programa deve ser ter pago em dia pelo menos quatro parcelas de uma dívida de até R$ 15 mil, embora o governo deva detalhar as demais regras durante a cerimônia de lançamento.
Expansão de uma política que já renegociou R$ 20 bilhões
O “Desenrola Adimplentes” chega na esteira de resultados expressivos do chamado Novo Desenrola Brasil, instituído por meio da Medida Provisória nº 1.355, de 4 de maio de 2026.
Segundo balanço divulgado pelo ministro Durigan no início de junho, a nova rodada do programa renegociou dívidas de 6 milhões de pessoas, com a expectativa de alcançar até 10 milhões de negociações até o fim do período.
O valor total renegociado atingiu a cifra de R$ 20 bilhões, com desconto médio de 85% concedido pelos bancos, reduzindo o montante original das dívidas para R$ 2,7 bilhões.
A MP 1.355/2026, que está em tramitação no Congresso Nacional e pode sofrer alterações por deputados e senadores, previa descontos de até 90% sobre o valor das dívidas para pessoas com renda mensal de até R$ 8.105, taxa máxima de juros de 1,99% ao mês, parcelamento em até 48 vezes e a possibilidade de uso de 20% do saldo do FGTS ou até R$ 1 mil para abatimento dos débitos.
O programa foi direcionado a famílias, estudantes, aposentados e pequenos empreendedores, com duração prevista de 90 dias.
O diagnóstico que levou ao programa para adimplentes
Nos últimos meses, integrantes da equipe econômica passaram a defender publicamente a criação de uma iniciativa voltada especificamente aos consumidores adimplentes.
O ministro Dario Durigan declarou, durante participação no programa “Bom Dia, Ministro”, do governo federal, que o objetivo central é impedir que pessoas com bom histórico de pagamento acabem migrando para a inadimplência em razão do custo elevado do crédito no país. Durigan destacou a situação dos trabalhadores informais como prioridade para a nova medida.
“Uma pessoa que é informal, por exemplo, que é um olhar que a gente tem com muito cuidado, não tem uma renda fixa por mês. Ela tem que ganhar o seu dia a dia de maneira pontual. E é quem mais paga juros caros no país”, afirmou o ministro, reforçando o diagnóstico de que o mercado de crédito brasileiro penaliza desproporcionalmente os trabalhadores sem vínculo formal de emprego.
A decisão do governo também responde a críticas de que os programas de renegociação anteriores acabavam contemplando exclusivamente quem deixou de pagar suas contas, deixando desassistidos exatamente os consumidores que se esforçavam para manter-se adimplentes, ou seja, um desestímulo aqueles que se esforçam para pagar seus empréstimos na data do vencimento.
O argumento da equipe econômica é que a inadimplência muitas vezes não decorre de má-fé, mas do estrangulamento financeiro causado por juros que estão entre os mais altos do mundo.
Resistência do setor financeiro e dúvidas sobre adesão
Apesar do anúncio oficial, o programa enfrenta resistência de parte relevante do setor financeiro. Na avaliação de executivos de bancos, faz pouco sentido destinar tempo e recursos operacionais para renegociar contratos que estão sendo pagos regularmente pelas instituições financeiras.
Além disso, o setor estima que o público potencial da iniciativa seja relativamente restrito — entre 3 milhões e 4 milhões de pessoas — diante dos critérios que vêm sendo discutidos pelo governo.
A adesão das instituições financeiras é considerada ponto crítico para o sucesso do programa, uma vez que a renegociação depende da disposição dos bancos em oferecer condições mais vantajosas voluntariamente.
O governo, por sua vez, aposta no potencial de escala e na redução do risco de calote futuro como argumentos para convencer o setor a embarcar na iniciativa. A avaliação no Palácio do Planalto é que, ao evitar que consumidores adimplentes se tornem inadimplentes, o programa protege a própria carteira de crédito dos bancos no médio e longo prazo.
Implicações econômicas e políticas
O “Desenrola Adimplentes” insere-se em um conjunto mais amplo de medidas do governo federal para estimular a economia e ampliar o acesso ao crédito. Estudos citados pela equipe econômica indicam que o Desenrola 2.0 e o programa Move Brasil, voltado à aquisição de veículos, devem elevar o Produto Interno Bruto (PIB) em até 0,4 ponto percentual neste ano, embora não alterem o cenário de desaceleração projetado para a economia brasileira.
Politicamente, o lançamento ocorre em um momento em que o governo busca consolidar a percepção de avanço econômico entre a população de menor renda, base eleitoral histórica do presidente Lula.
A ampliação do Desenrola para incluir adimplentes também pode ser interpretada como uma resposta às crescentes pressões do Congresso por medidas de alívio financeiro, especialmente após a tramitação de pautas consideradas explosivas no Senado, sob a liderança do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (UB-AP).
A MP 1.355/2026 segue em análise no Congresso Nacional, onde parlamentares podem aprovar mudanças no texto original. A aprovação sem alterações substanciais é considerada prioritária pela equipe econômica para garantir a previsibilidade e a continuidade das políticas de renegociação e crédito.
O desfecho da tramitação legislativa será determinante para definir se o “Desenrola Adimplentes” conseguirá, de fato, sair do papel com a abrangência desejada pelo governo.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














