O cenobamato, princípio ativo do remédio XCOPRI, da Eurofarma, reduz em 65% a frequência de crises na dose de 400 mg/dia; 30,9% dos pacientes ficam livres dos episódios após dois anos de uso
Brasília – O Brasil receberá em agosto um medicamento capaz de eliminar completamente as crises epilépticas em até um em cada cinco pacientes com epilepsia farmacorresistente. O XCOPRI (cenobamato), aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em março de 2026, chega às farmácias brasileiras por meio da Eurofarma, maior farmacêutica de capital nacional, que firmou acordo de licenciamento com a sul-coreana SK Biopharmaceuticals, desenvolvedora original da molécula.
A autorização para comercialização foi publicada no Diário Oficial da União em 9 de março, e os preços máximos foram definidos pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) em julho, último passo regulatório antes da distribuição.
O fármaco estará disponível em quatro apresentações — comprimidos de 12,5 mg, 50 mg, 100 mg e 200 mg — todas de administração oral.
A indicação aprovada pela Anvisa é para crises focais em adultos com epilepsia que continuam apresentando episódios mesmo após o uso de pelo menos dois tratamentos anticonvulsivantes diferentes. Trata-se de uma população significativa: estima-se que cerca de 30% dos pacientes com epilepsia não respondem adequadamente às terapias disponíveis, condição classificada como epilepsia farmacorresistente.

Os dados de eficácia que embasaram o registro são expressivos. Estudos clínicos demonstraram que pacientes que receberam 400 mg por dia de cenobamato, combinados com outro tratamento, apresentaram redução mediana de 65% na frequência de crises focais durante a fase de manutenção. Já a dose de 200 mg por dia resultou em redução mediana de 55,6%.
O dado mais impactante, no entanto, é a taxa de pacientes que ficaram completamente livres das crises: entre 21% e 28,3% dos participantes atingiram esse desfecho durante a fase de manutenção do tratamento — um resultado considerado raro em pacientes com epilepsia de difícil controle.
Para efeito de comparação, após a falha de três diferentes linhas de tratamento, apenas cerca de 4% dos pacientes costumam alcançar o mesmo nível de controle com os medicamentos atualmente disponíveis.
Os resultados foram corroborados por um estudo de prática clínica publicado em 2025. Após um ano de tratamento com cenobamato, 79,6% dos pacientes apresentaram redução de pelo menos 50% na frequência das crises, enquanto 36,6% permaneceram sem nenhuma crise. Após dois anos de acompanhamento, os índices se mantiveram elevados: 80% mantinham a redução de pelo menos 50% das crises e 30,9% seguiam completamente livres delas. Os pesquisadores apontam que esses dados sugerem que os benefícios podem se sustentar a longo prazo.
O mecanismo de ação do cenobamato difere da maioria dos anticonvulsivantes disponíveis. A molécula combina dois efeitos: reduz a hiperatividade elétrica dos neurônios por meio da modulação dos canais de sódio e aumenta a ação do GABA, principal neurotransmissor inibitório do cérebro. O objetivo é diminuir a probabilidade de que uma descarga elétrica anormal desencadeie uma crise epiléptica.
A epilepsia está entre as doenças neurológicas crônicas mais comuns do mundo. No Brasil, estima-se que entre 2 e 3 milhões de pessoas convivam com a condição. Na América Latina e no Caribe, mais de 6 milhões de pessoas têm epilepsia ativa, e mais de 60% não recebem tratamento adequado, segundo estimativas citadas pela Eurofarma.
A doença pode aumentar o risco de acidentes e morte súbita, além de provocar problemas de saúde mental como ansiedade e depressão, com impactos diretos na capacidade de trabalho e na vida social dos pacientes.
“O tratamento com cenobamato pode reduzir significativamente as crises epilépticas em pessoas com epilepsia farmacorresistente, trazendo benefícios importantes para a qualidade de vida e autonomia. Pacientes que antes não tinham acesso a medicamentos inovadores como esse ou que dependiam de importação excepcional passam agora a contar com uma nova opção terapêutica no país”, afirmou Renata Campos, CEO Brasil da Eurofarma, em comunicado oficial.
O XCOPRI já vinha sendo comercializado em outros países da América Latina, como Chile e Peru, por meio do acordo de licenciamento firmado em julho de 2022 entre a Eurofarma e a SK Biopharmaceuticals. O pedido de registro no Brasil foi submetido à Anvisa em outubro de 2024, com prioridade de análise.

A apresentação de 100 mg não teve preço encontrado em fontes abertas
As apresentações de 50 mg e 200 mg (30 comprimidos) têm o mesmo preço na Ultrafarma: R$ 496,35
Os preços oficiais da CMED (Preço Máximo ao Consumidor) ainda não foram publicados individualmente por apresentação em fontes acessíveis
O medicamento é de venda sob prescrição médica (C1 – tarja azul)
Ressalvas
Apesar do avanço, há ressalvas importantes. O medicamento não deve ser utilizado por pessoas com síndrome do QT curto familiar, uma alteração genética rara que pode causar arritmias cardíacas. Como todo anticonvulsivante, o XCOPRI também traz alerta para comportamento e ideação suicida, conforme bula aprovada.
A oferta do medicamento no Sistema Único de Saúde (SUS) dependerá de avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e de decisão do Ministério da Saúde — processo que ainda não foi iniciado. Por enquanto, o acesso será restrito a pacientes que puderem arcar com o custo do tratamento na rede privada.
A chegada do cenobamato ao mercado brasileiro representa um marco terapêutico para uma parcela de pacientes historicamente desassistida. Para os milhões de brasileiros que convivem com a epilepsia e não encontram resposta nos tratamentos convencionais, o novo fármaco abre uma perspectiva concreta de controle das crises — e, em um número relevante de casos, de uma vida sem episódios epilépticos. O desafio imediato, porém, será garantir que esse avanço não fique restrito a quem pode pagar por ele.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















