Duas vidas interrompidas a tiros, na calada da madrugada, em um cenário que já não choca como deveria — e esse talvez seja o dado mais alarmante. As imagens do duplo assassinato foram enviadas ao portal Ver-o-Fato, revelando mais um capítulo da violência que se alastra pelos bairros mais afastados do centro de Belém, especialmente na Região Metropolitana, onde o poder público raramente chega com a mesma força e presença que o crime organizado. São Imagens chocantes, que não iremos divulgá-las, uma delas com mais de 6 minutos.
O caso ocorreu no condomínio Novo Cristo II, no Icuí-Guajará, em Ananindeua — um território que há anos convive com disputas entre facções, execuções sumárias e uma quase normalização do medo. Era madrugada desta sexta-feira (14) quando moradores foram despertados por uma sequência longa e intensa de disparos. Não foram poucos. E não foram tiros para assustar. Foram tiros para matar.
Quando cessou o barulho e a população mais corajosa ou mais resignada saiu às portas e janelas, encontrou a cena brutal: Um homem é uma mulher, dentro de um veículo, executados sem chance de defesa. O homem foi identificado como Jones Denilson de Oliveira Favacho, de 43 anos. O carro onde estava, um Ford Ka prata, parece mais um relatório de guerra do que um automóvel: mais de 30 marcas de tiros, segundo o levantamento inicial feito pelas equipes que atenderam a ocorrência.
A segunda vítima ainda não havia sido identificada pelas autoridades até o momento da apuração, mas isso pouco diminui o sentimento de tragédia — duas pessoas exterminadas com frieza, dentro de um condomínio residencial, em um dos bairros mais populosos e vulneráveis da RMB.
A Divisão de Homicídios da Polícia Civil iniciou as investigações, tentando montar o quebra-cabeça que envolve motivação, autoria e circunstâncias. Peritos da Polícia Científica do Pará trabalharam na madrugada para preservar a cena, coletar cápsulas, reconstruir trajetórias de disparo e recolher qualquer indício que ajude a esclarecer o que, à primeira vista, parece uma execução típica de conflitos entre grupos criminosos. Mas isso ainda depende da apuração.
Um retrato da violência que se espalha
O Icuí-Guajará, como tantos outros bairros periféricos da Grande Belém, vive sob um regime silencioso de insegurança constante. A circulação de criminosos armados, o domínio de facções em áreas específicas e a ausência de políticas permanentes de segurança e presença do Estado criam um ambiente onde a barbárie se torna previsível — e, pior, repetitiva.
Esse duplo homicídio não é um ponto fora da curva: é o retrato de uma realidade que se arrasta há anos. A distância geográfica do centro parece refletir também uma distância institucional — quanto mais longe da área nobre, mais próximo da lei do mais forte. Ali, o Estado chega tarde, quando chega. E os moradores já se habituaram a viver entre o medo e a resignação.
Episódios como esse reforçam uma constatação incômoda: a violência na Região Metropolitana de Belém não dá sinais de recuo. Ao contrário, se dissemina como um mecanismo de controle, intimidação e disputa territorial. E cada corpo encontrado dentro de um carro crivado de balas é mais uma prova dolorosa de que algo estrutural está falhando de forma grave — e de que os moradores desses bairros continuam abandonados à própria sorte.















