Quando somos o irmão mais velho e os filhos dos irmãos nascem, é uma sensação curiosa, afinal, os últimos bebês da casa foram eles. Eu mesmo vi quando chegaram e anteciparam minha, ainda, futura paternidade. Agora são eles quem geraram uma nova vida, responsabilidades e motivos para proteger um ser tão pequeno.
Depois dos 30, a vida ganha boas novidades. Nos vemos nos mais jovens e entendemos os mais velhos. Não entendemos os mais jovens e nos vemos nos mais velhos. É estranho. Você começa a ser o motivo da pausa no futebol de garotos na rua, que anunciam “pára a bola, o tio tá passando”. Sim, é você. Mas esse é o ser tio das ruas, a novidade é ser tio dentro de casa, de verdade!
É muito bom poder amar uma criança, levar para brincar, fazer atividades, ser amado, fazer sorrir, mas quando chora, simplesmente entregar para os pais, como quem diz “essa parte já não é da minha jurisdição”. Chorou? Lá vem mamãe. Fez sujeira na fralda? Lá vem papai. Simples assim.
A mãe de um dos meus sobrinhos é Remo, logo eu tenho uma missão. Já disse quem ganha mais, quem tem mais títulos e qual a camisa é mais bonita. Infelizmente ele já sabe chamar de mucura, pano de chão e repetir “eu sou leão”.
Mas calma, algumas missões levam tempo, o tio legal tem seu método. Com a outra vai ser mais fácil, os pais são do melhor do norte. Já imagino comigo no estádio, espero que pelo menos na série B, aprendendo o que presta e observando o que não presta. Vai ser só Paysandu, nada de times do eixo, eis minha missão.
É fácil ser um tio ruim, pois tenho a sensação que daria tudo que meu pouco dinheiro compra, caso me pedissem com um rostinho de choro e um “por favor” humilde de bebê, correndo sério risco de incentivar a criança a ser tola. Mas nada disso, um tio honrado deve ter uma republicana moderação: nem muito permissivo como os avós, nem muito proibitivo como os pais. Centrão, tá sempre envolvido com quem ganha, nesse caso, o afeto.
Nas ruas, é chamado de tio aquela pessoa que não é jovem, mas também não é muito velha. Uma demonstração de respeito ou mesmo de interesse. Como quando a gente chutava a bola no rumo do quintal do vizinho: “tio, você pode pegar nossa bola?”. O tio, nesse caso, funciona como uma tentativa de demonstrar afeto, mas que esconde o real interesse.
Uma vez fui pedir para o cobrador do ônibus deixar eu e um amigo pular a roleta “tio, posso roletar?” Ele responde “primeiro, eu não tenho sobrinho feio”. O resto do sermão eu nem ouvi. Traumatizou.
O ser tio dentro de casa é amor puro. Outro dia minha chave desapareceu na casa onde meu sobrinho mora. Após quase 1h procurando, ele admite chorando: “fui eu que escondi, porque queria que meu tio dormisse aqui”.















